O que determina a diferença de comportamento financeiro entre homens e mulheres?

Pesquisas demonstram, no geral, que mulheres são mais avessas a riscos e menos autoconfiantes que os homens, fatores que podem se relacionar ao considerar que condições biopsicossociais, como a autoestima, podem ser relevantes para a tolerância ao risco[1]. Somando-se isto tudo ao fato de mulheres ganharem menos que homens[2], é mais fácil entender sua tendência a realizar em investimentos de baixo risco ou mesmo de não investir.

Beckmann e Menkhoff (2008) determinam que teoria da autoconfiança feminina inferior não se prova verdadeira no caso de mulheres que trabalham no setor financeiro e cuja relação com o risco está também associada ao nível de experiência e de educação financeira. Lusardi e Mitchell (2008) complementam, considerando que mulheres que possuem mais letramento financeiro planejam melhor.

A economista Irene van Staveren (2014) discute a questão das diferenças comportamentais econômicas entre homens e mulheres a partir da Hipótese das Irmãs Lehman (Lehman Sisters Hypothesis). A quebra do banco Lehman Brothers desencadeou um importante papel na crise econômica do Estados Unidos. A pesquisadora questiona se o cenário teria sido diferente se, ao invés de homens ocupando cargos de liderança dos grandes bancos, fossem mulheres (por isso, a substituição do termo “irmãos Lehman/ Lehman Brothers” para “Lehman Sisters”).

A autora avalia as diferenças de comportamento financeiro em 3 aspectos-chave: risco (mulheres se arriscam menos), moralidade (diferença entre comportamentos mais altruístas entre homens e mulheres) e liderança (desempenho em posições de liderança), mas aqui discutiremos apenas a questão que aborda o risco.

Segundo Van Staveren, o comportamento voltado para a ação e risco estaria relacionado à presença de hormônios, como a testosterona, mais presente em homens, enquanto comportamentos mais voltados à comunidade e ao próximo estariam relacionados a estrogênio e ocitocina, mais presentes em mulheres, o que ajudaria a explicar algumas diferenças em padrões comportamentais. Hormônios afetam o comportamento, e o comportamento adquirido relacionado ao gênero poderia afetar os níveis de hormônios (por exemplo, o comportamento de cuidado com outros diminui o nível de testosterona, tanto em homens como mulheres), ainda segundo a pesquisa.

A economista explica que a testosterona aumenta o comportamento de risco e por causa dela, o cortisol tende a ser mais elevado nos homens, o que pode explicar a volatilidade do mercado onde homens estão em maior presença. Já a resposta da ocitocina ao cortisol pode explicar os maiores retornos das mulheres quando comparadas aos homens em gestão de patrimônio, hedgefunds e carteiras pessoais.

A pesquisadora, porém, endossa que, embora haja uma questão biológica em jogo, a diferença a partir disso é pouco significativa, e deve-se principalmente às crenças em comportamentos estereotípicos, normatizados por meio de vieses. Afirma ainda que a literatura já realizada sobre o assunto serve de apoio para colocar mais mulheres em cargos de importância no setor financeiro, como gerência de risco, uma vez que mulheres levam mais tempo para tomar uma decisão importante, avaliando melhor as incertezas.

Essa é uma hipótese levantada que deve ser bastante estudada para ser mais conclusiva. O que você acha? Conte-nos sua opinião!

Referências
BECKMANN, D., MENKHOFF, L. Will Women Be Women? Analyzing the Gender Difference among Financial Experts. Discussion Paper No.391, 2008.
LUSARDI, A. MITCHELL, O. S. Planning and Financial Literacy: How Do Women Fare?, American Economic Review: Papers & Proceedings, 98:2, 413–417, 2008.
VAN STAVEREN, I. The Lehman Sisters hypothesis. Cambridge Journal of Economics, Volume 38, Issue 5, Pages 995–1014, September 2014.

 

[1] GRABLE & JOO, 2004 apud ROWLEY, M. E., LOWN, J. M., PIERCY, K. W. Motivating Women to Adopt Positive Financial Behaviors. Journal of Financial Counseling and Planning Volume 23, Issue 1, 2012.

[2] http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-03/pesquisa-do-ibge-mostra-que-mulher-ganha-menos-em-todas-ocupacoes

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