Educação financeira e povos indígenas

Embora as populações indígenas representem uma pequena parte da população mundial, seu conhecimento tradicional e sua relação com o ecossistema são muito valiosos para o desenvolvimento sustentável e a gestão ambiental. Na Amazônia[1], por exemplo, os territórios indígenas (e terras protegidas) são responsáveis ​​por 58% do armazenamento de carbono.

Na experiência da CVM, por meio de uma ação piloto no estado do Pará, observou-se, porém, que a comunidade indígena local pode ainda enfrentar desafios ao mapear os recursos oriundos das atividades desenvolvidas, bem como para poupar dinheiro e obter crédito. Nas crises econômicas, como a provocada pela COVID-19, os indígenas representaram o grupo com maiores perdas de renda, segundo levantamento (NERI, 2020). Tendo uma economia amplamente baseada na agricultura e no extrativismo, que pode ser convertida em renda coletiva, é importante olhar para sua produção e seu acesso ao capital.

São necessárias iniciativas que valorizem as organizações sociais e culturais indígenas, bem como suas economias locais, que às vezes podem entrar em conflito com as abordagens orientadas para o mercado. Isso deve ser feito sempre com transparência e em parceria com os povos, respeitando sua autonomia sem se aproveitar do conhecimento indígena, que também é mercadoria para muitas sociedades.

A pesquisa realizada pela CVM na Aldeia Lago da Praia, em Santarém (Pará) mostrou como resultado um povo muito voltado ao coletivo, e isso se manifesta também nos
lares, uma vez que a maioria das pessoas entrevistadas divide a tomada de decisão a respeito de dinheiro no dia-a-dia com outra pessoa.

Poucos afirmaram fazer planos de gerência de receitas e despesas e algumas perguntas indicaram a baixa formação de reserva de emergência, de forma geral. Isso apresenta um risco, pois, caso passem por alguma adversidade, como algum problema doméstico, territorial, de safra dos produtos usados como matéria-prima, ou outro choque econômico, estarão descobertos financeiramente e podem se encontrar em fragilidades financeiras ou mesmo dívidas.

Em relação ao comportamento, a maioria dos respondentes manifesta um comportamento financeiro atento às próprias finanças e metas: uma parcela formada por 3/4 dos respondentes afirma pagar as contas em dia e analisar se pode pagar antes de comprar algo. Apenas menos da metade dos entrevistados teme que o dinheiro que possui não dure e 3/5 afirmam estar satisfeitos com sua situação econômica.

Ainda assim, a pontuação geral obtida tende a indicar baixos níveis de bem-estar financeiro, por meio de atitudes financeiras mais voltadas para gasto, preferência pelo presente ante o futuro, tendência de não ter dinheiro sobrando ao fim do mês e sensação de estar apenas “se virando” financeiramente.

Reconhecer as barreiras existentes, bem como o significado do dinheiro para a população indígena, é o primeiro passo para reduzir as desigualdades, seguido de perto da educação financeira. Nesse caso, o empreendedorismo, também, pode auxiliar na autodeterminação das comunidades, por meio da criação de oportunidades de geração de renda, a partir do respeito às tradições e cultura.

Muitas comunidades indígenas ainda não estão totalmente inseridas na economia e são empreendedoras por necessidade. Portanto, a educação profissional e a formação empreendedora são importantes, pois quando seus negócios enfrentam dificuldades de acesso ao capital, isso pode colocá-los à margem, quando comparados aos não indígenas.

A combinação de conhecimentos indígenas e não indígenas é essencial para uma educação financeira, empreendedora e digital adequada. Além disso, a partir de procedimentos mais simples de acesso ao crédito e produtos financeiros mais acessíveis, é possível propiciar às populações indígenas o planejamento, uso e economia de seu dinheiro, evitar choques econômicos e crédito de alto custo em situações de emergências financeiras. Não se trata de mudar sua cultura, mas de mostrar alternativas que melhorem sua resiliência financeira.

REFERÊNCIA

NERI, M. C. Efeitos da pandemia sobre o mercado de trabalho brasileiro: Desigualdades, ingredientes trabalhistas e o papel da jornada (Sumário executivo). Marcelo Neri. Rio de Janeiro, RJ – Setembro/2020 – FGV Social

[1] Entende-se por Amazônia a região que compreende a floresta Amazônica, composta pelos países Brasil, Peru, Colômbia, Equador, Guiana, Bolívia, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa.

2 thoughts on “Educação financeira e povos indígenas”

  1. Artigo oportuno, que traz referências da experiência recente da CVM junto ao público indígena. Relevante destacar que as interações com os povos indígenas devem priorizar a preservação da cultura local e as ações de sustentabilidade já estabelecidas nessas comunidades. Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *