A personalidade pode influenciar a participação no mercado?

Muitas decisões são necessárias na hora de investir, sendo a primeira delas decidir ser ou não um investidor. Uma pesquisa feita por estudiosos finlandeses (Conlin e colegas, 2015) buscou entender o quanto a personalidade das pessoas influencia as suas decisões. Para avaliar a personalidade, foi utilizado o Inventário de Temperamento e Caráter (Temperament and Character Inventory, ou TCI, de Cloninger et al), que, segundo os autores, oferece uma visão detalhada da personalidade, a partir de traços e subescalas.

Os pesquisadores utilizaram dados de uma pesquisa no norte do país, a Northern Finland Birth Cohort 1966 (traduzida literalmente como Coorte de nascimentos do norte da Finlândia) que acompanha uma população de sujeitos nascidos em 1966. A pesquisa se iniciou como um projeto de estudar aspectos da saúde dos nascidos neste ano e se expandiu para examinar sua saúde física e mental ao longo do tempo, bem como dados sobre seu status econômico.

Em 1997, quando esses sujeitos tinham 31 anos, foi realizado um questionário coletando dados socioeconômicos e sobre sua personalidade. Os autores coletaram informações sobre questões gerais de saúde, estado civil, número de filhos, renda familiar, nível educacional, status ocupacional, além da seção de temperamento do TCI.

Esses dados foram combinados com a participação no mercado de ações, através do registro oficial de participações acionárias na Finlândia. As informações sobre investimentos são oriundas do Finish Central Securities Depository (Depositório Central de Valores da Finlândia), que contém dados sobre a participação dos finlandeses em títulos registrados no país. O recorte feito pelos pesquisadores selecionou os anos de 2003 a 2010.

Eles encontraram que a maioria da média das pontuações mostra diferença significativa entre participantes e não participantes quando referente aos traços de personalidade e suas subescalas, demonstrando que seus efeitos são consistentes ao longo do tempo e segundo o modelo adotado. Os autores descrevem que a importância de utilizar traços de personalidade para entender a participação no mercado de ações se dá por esses aspectos permitirem explicar a não participação no mercado, e consequentemente, a elaboração de ações para atingir essas pessoas.

No instrumento utilizado, os traços são a soma das subescalas, que descrevem e oferecem melhores medidas de preferências do indivíduo, assim como hipóteses mais claras sobre a relação da personalidade com o mercado de ações.

Dessa forma, levantaram-se algumas hipóteses, dentre as quais, sugeria-se que pessoas impulsivas seriam mais propensas a participar do mercado de ações e que os pessimistas, que evitam danos e temem incertezas seriam menos propensos.

“As quatro subescalas de busca de novidades dividem essa tendência geral em domínios mais específicos: excitabilidade exploratória, impulsividade, extravagância e desordem. Indivíduos com alta excitabilidade exploratória procuram ativamente coisas novas e se entediam facilmente. Indivíduos impulsivos seguem seus instintos em busca de recompensa, sem contemplação e sem se preocupar em ter informações completas. A impulsividade no TCI está relacionada à tomada de decisões rápidas com informações parciais, enquanto a extravagância mede a preferência pelo gasto em relação à poupança.”

Apesar de reconhecerem que a população estudada não é necessariamente representativa da população finlandesa, os pesquisadores apontam que a amostra estudada é o suficiente para levantar questões sobre a relação personalidade x participação no mercado acionário.

Nos resultados, encontraram que a maioria das diferenças nas médias era significativa:

  • Participantes do mercado de ações tiveram pontuação mais alta em persistência e nas subescalas de desordem (não gostar de regras ou rotinas) e excitabilidade exploratória (embora esta não de forma estatisticamente significativa);
  • Não participantes pontuaram mais na escala e subescala de evitação de danos, como esperado, e na subescala de extravagância (preferência por gastar ao invés de poupar);
  • No traço de busca por novidade e nas subescalas impulsividade e dependência, a diferença não foi significativa entre os grupos.

Apesar do foco da pesquisa ser na personalidade, o estudo retornou como resultado que fatores como educação e ocupação também possuem grande efeito na participação no mercado. Ou seja, não apenas a personalidade, mas também o comportamento psicossocial aprendido e espelhado por pares influenciam as ações.

“Se o efeito da personalidade sobre a participação no mercado de ações ocorre principalmente por meio do efeito da personalidade sobre a educação e a ocupação, então olhar para uma subamostra de apenas aqueles indivíduos com um diploma universitário e uma ocupação de nível gerencial deve eliminar alguns ou todos os efeitos das características sobre participação.”

Os pesquisadores admitem que pode ser difícil elaborar políticas com base em traços de personalidade, uma vez que os indivíduos podem estar no mesmo grupo socioeconômico, mas responderem diferentemente devido às suas características de personalidade. Reforçam, por isso, o potencial de serem feitas novas pesquisas na área, uma vez que foi notada uma relação entre os dois fatores estudados. Para o investidor, este estudo pode ajudar a levantar a reflexão sobre a própria personalidade e o papel que ela desempenha em suas decisões, para, assim, escolher as estratégias adequadas ao momento de vida e aos próprios objetivos.

E você, leitor? Já parou para pensar o quanto aspectos da sua personalidade influenciam o modo como se comporta no mercado de ações?

Referência:

Conlin, A., Kyröläinen, P., Kaakinen, M., Järvelin, M.-R., Perttunen, J., Svento, R., Personality Traits and Stock Market Participation, Journal of Empirical Finance (2015)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *