A Educação Financeira impacta o comportamento financeiro?

 

É amplamente conhecido que muitas variáveis podem influenciar o comportamento e as decisões financeiras individuais.  Questões como a renda, a existência de dependentes financeiros na família, a disciplina para investir, o autocontrole para poupar e a curiosidade para pesquisar novos investimentos, por exemplo, são fatores que podem ser apontados. Discute-se, também, o papel da educação financeira na tomada de decisões e comportamentos relacionados a finanças. Intuitivamente, podemos afirmar que ser financeiramente educado traz mais benefícios que não ser. Mas qual é o impacto real do letramento financeiro nas finanças das pessoas?

Burke, Lusardi e Mottola, em um estudo publicado em novembro de 2020, procuraram isolar a educação financeira para compreender a sua evolução ao longo do tempo e o impacto desde atributo específico na vida financeira das pessoas. Ser mais educado financeiramente tem, de fato, influência no bem-estar financeiro? A educação financeira pode prever o tipo de vida financeira que as pessoas terão no futuro?

Para responder a essas questões, os pesquisadores analisaram dados provenientes de duas ondas de aplicação do questionário de educação financeira da FINRA (Foundation’s National Financial Capability Study). A primeira aplicação, em 2012, teve 2.000 adultos respondendo ao questionário. A segunda, em 2018, alcançou 1.197 pessoas dos respondentes da primeira onda.

Cabe destacar algumas características dos respondentes da primeira onda:

50 anos era a idade média;

– 58% eram mulheres;

–  50% tinham ensino superior; e

– 54% tinha renda anual de menos de 60.000 dólares, proporção próxima à população dos Estados Unidos (57% tem essa renda).

No que se refere à mensuração da educação financeira da população, aplicou-se o teste Big Five, composto por dois conjuntos de questões. O primeiro bloco abrange três questões de múltipla escolha que avaliam se a pessoa tem o conhecimento necessário para cálculo de juros, compreensão do conceito de inflação e da relação entre taxa de juros e o valor de ativos. O questionário conta também com duas questões no estilo verdadeiro/falso que avaliam o conhecimento do valor e dos juros pagos em um empréstimo, além do conceito de diversificação de investimentos.

O primeiro objetivo do estudo era avaliar longitudinalmente a variação da educação financeira na amostra. No geral, os autores do estudo notaram que a educação financeira se manteve estável no decorrer dos seis anos que se passaram entre as duas ondas.

Em uma escala de 0 a 5, a média da Educação Financeira em 2012 foi de 3,53, valor que alcançou 3,42 na segunda onda. Metade da amostra manteve a mesma pontuação no teste entre 2012 e 2018, sendo que 90% se manteve dentro da variação de 1 ponto entre 2012 e 2018. Esse dado mostra que o nível de Educação Financeira da amostra variou pouco entre jovens adultos e adultos de meia idade, tendo apresentado uma queda importante, sobretudo, entre os indivíduos acima de 65 anos. Neste último caso, os autores cogitaram de um declínio em funções cognitivas.

O segundo objetivo do estudo foi o de avaliar o impacto da educação financeira na vida financeira das pessoas, determinando indicadores desse bem-estar financeiro. Indicadores são marcadores que nos ajudam a visualizar determinada característica que não pode ser mensurada diretamente.

Os atributos positivos do bem-estar financeiro foram assim definidos:

– Satisfação com a situação financeira atual;

– Fragilidade financeira (capacidade da pessoa levantar 2.000 dólares dentro de um mês para uma despesa inesperada); e

– Se a pessoa já fez um planejamento do montante financeiro necessário para se aposentar.

Os indicadores negativos, por sua vez, abrangeram os seguintes aspectos:

– Se os respondentes estão endividados;

– Se já usaram serviços financeiros alternativos, como empréstimos consignados ou penhor, nos últimos cinco anos; e

– Se já usaram o cartão de crédito de uma forma descontrolada, como deixando de pagar a fatura completa ou estourando o limite.

A regressão estatística considerou esses indicadores, medidos em 2018, como variáveis dependentes, e a Educação Financeira medida em 2012 como a variável independente. As variáveis controladas foram: gênero, raça, idade, estado civil, escolaridade, renda, vínculo empregatício, aversão ao risco, e grau de planejamento.

Fazendo uma regressão estatística com as pontuações dos indicadores do bem-estar financeiro e a pontuação no teste de Educação Financeira, e controlando as variáveis acima citadas, o estudo concluiu que a Educação Financeira tem poder preditivo sobre a vida financeira. Ou seja, isoladamente, a Educação Financeira aumenta a probabilidade das pessoas de estarem mais satisfeitas com suas vidas financeiras, conseguir suportar choques financeiros, e de se planejarem para a aposentadoria. Os autores puderam mensurar esse efeito:

Por outro lado, encontrou-se pouca correlação entre a educação financeira e comportamentos financeiros negativos, notadamente aqueles relacionados a endividamento. Os autores sugerem que isso pode acontecer porque o endividamento pode ser induzido mais por choques financeiros e esgotamento de recursos, do que por falta de conhecimento financeiro, além da influência de vieses comportamentais como o viés do presente.

Em um olhar mais detalhado, os autores detectam que a relação entre educação financeira e satisfação com a vida financeira é mais forte entre homens e entre os participantes com mais de 55 anos. A correlação entre os dois constructos ainda é positiva entre as mulheres e indivíduos com menos de 55 anos, mas torna-se mais fraca.

Olhando para os indicadores, também é possível encontrar diferenças entre os grupos sociais. No planejamento para a aposentadoria, ter educação financeira é mais significativo para mulheres: 1 ponto de aumento na educação financeira significa 5 pontos porcentuais de aumento no planejamento para aposentadoria, enquanto para homens, o aumento é de 2 pontos percentuais.

Outro aspecto que se destaca ao olhar para os microdados é o de que a educação financeira tem mais impacto sobre indivíduos mais velhos que sobre os mais novos, confirmando que conhecimento financeiro tem um papel diferenciado no planejamento para o futuro e acúmulo de riqueza em diferentes etapas da vida. Além disso, a educação financeira tem mais impacto para indivíduos com renda menor nos indicadores satisfação com a vida financeira, reservas financeiras para emergências e manejo das dívidas.

E você, leitor? O que pensa dos resultados do estudo? Quais comportamentos você mudou quando começou sua educação financeira?

 

Referência

Angrisani, M.; Burke, J.; Lusardi, A.; Mottola, G. The Stability and Predictive Power of Financial

Literacy: Evidence from Longitudinal Data. GFLEC Working Paper Series, 7, 2020.

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