Falácia dos Custos Irrecuperáveis (Sunk Cost Fallacy)

Uma das definições do termo falácia é “um argumento logicamente inválido”. Já os custos irrecuperáveis, como o próprio nome indica, são aqueles que já foram incorridos de modo definitivo, não havendo mais o que fazer para reavê-los.

Nessa linha, a Falácia dos Custos Irrecuperáveis é um viés que faz o investidor apegar-se a perdas que já ocorreram, permanecendo à espera de uma recuperação que pode não acontecer e tendo prejuízos ainda maiores, ao invés de realizar suas perdas e mudar para outra aplicação mais rentável.

Em lugar de nos preocuparmos com o resultado futuro de nossas aplicações financeiras, esse viés nos leva a fazer escolhas baseadas no desejo de recuperarmos um investimento que tenha sido perdido no passado.

Imagine, por exemplo, que uma pessoa está indo a uma loja e que, a meio caminho de lá, descobre que está fechada. É difícil acreditar que ela quisesse percorrer o restante do percurso até a loja, sabendo que estivesse fechada, só por já ter ido até a metade. Porém, esse padrão de raciocínio é surpreendentemente comum na tomada de decisões que envolvem dinheiro.

Vejamos um exemplo: dois amigos combinam de ir a um jogo de futebol, sendo que um ganhou o ingresso e o outro pagou por ele. No dia do jogo, chove torrencialmente, não só dificultando o acesso ao estádio, mas com risco de alagamento.

Pesquisas revelam que, nesse cenário, a probabilidade de a pessoa que pagou pelo ingresso ir ao jogo, apesar da tempestade, é consideravelmente maior do que a da que o ganhou. Isso acontece porque o pagante não vê o dinheiro gasto como perdido. Ele só considera perda caso não vá, já que não terá nenhuma contrapartida pelo valor pago. No entanto, do ponto de vista financeiro, o gasto é irrecuperável, independentemente de ir ao jogo ou não.

A Falácia dos Custos Irrecuperáveis é uma decorrência de outro viés chamado Aversão a Perda *. A fim de lidar com ambos, o investidor pode adotar estratégias para não se apegar sentimentalmente aos investimentos que possui nem à tentativa de recuperar custos já incorridos.

O tempo, o dinheiro, o esforço e tudo aquilo que alguém já gastou, sem possibilidade de reaver, é o que chamamos de custo irrecuperável. Ele se foi, não importa o que será feito daqui para frente. No presente, cabe apenas tentar decidir qual escolha irá produzir o melhor resultado futuro.

Recomendações para contornar esse viés:

  • Para evitar cair na Falácia dos Custos Irrecuperáveis é preciso, antes de tudo, identificá-los, aceitar o fato de que já estão perdidos e trabalhar os objetivos de investimento com foco nos resultados futuros;
  • Os investimentos financeiros devem ser preferencialmente avaliados de acordo com sua perspectiva de ganhos futuros, ao invés de resultados passados, e as perdas, de acordo com sua possibilidade de recuperação;
  • Definir objetivos e, associado a eles, um horizonte temporal para as aplicações, é uma prática que, além de otimizar a alocação dos recursos, pode fazer o investidor decidir de forma mais racional sobre a realização (ou não) das perdas, uma vez que os prazos de suas aplicações ficam claramente definidos, permitindo calcular se há tempo suficiente para recuperar eventuais perdas; e
  • Outra estratégia recomendável é a fixação de limites para perda. Nessa linha, uma prática bastante utilizada no mercado acionário é a programação de stop loss, que consiste em cadastrar um preço limite, a partir do qual é automaticamente gerada uma ordem de venda da ação. Suponha, por exemplo, que o máximo de desvalorização que um investidor considere aceitável para uma determinada ação seja de 20%. Caso comprasse essa ação por R$ 100, ele programaria uma ordem stop loss ao preço de R$ 80, evitando perder mais do que os 20% que estabeleceu como limite. O fato de a ordem ser pré-programada e executada automaticamente faz com que a estratégia possa ser mantida, independentemente do estado emocional do investidor.
* Explicamos a Aversão a Perda no Vol. 1 da Série CVM Comportamental, o qual pode ser acessado aqui.
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