Participantes de um programa para formar poupadores de baixa renda foram testados pela Drª Caezilia – Caezilia Loibl – Testing Strategies to Increase Saving and Retention in Individual Development Account Programs (2015), da Universidade de Ohio, a fim de saber se as taxas de poupança e de retenção poderiam ser aumentadas com a utilização de técnicas de finanças comportamentais.

Para tanto, eles desenvolveram uma parceria com gestores de oito programas desse tipo em todo o país, que se responsabilizaram por distribuir aleatoriamente os participantes em diferentes condições experimentais, e testaram o impacto das mudanças feitas em quatro características principais do programa.

No entanto, nenhuma das intervenções atingiu o efeito desejado de aumentar os depósitos em contas de poupança. Para explicar isso, os pesquisadores concluíram que as restrições de liquidez são impedimentos muito maiores à poupança do que os vieses cognitivos.

Os programas de poupança tinham como público-alvo pessoas de baixa renda, para as quais o governo americano depositava um valor (que podia variar de $1 a $8 para cada dólar poupado, sendo em média de $2 para $1) caso elas fizessem um depósito, dentro de um prazo estabelecido mensalmente, com o objetivo de comprar uma casa, pagar despesas com educação superior ou abrir um pequeno negócio.

As intervenções foram desenhadas para trabalhar os vieses que pudessem impedir essas pessoas de poupar. A primeira delas foi endereçada a vieses como falta de atenção, insuficiência de autocontrole e falha em assumir responsabilidade, que foram enfrentados por meio da introdução de chamadas telefônicas, lembrando os poupadores de depositar o dinheiro, antes e após o prazo estipulado para o depósito.

Na segunda intervenção, os pesquisadores aumentaram a frequência com que os depósitos teriam que ser feitos, de mensal para quinzenal, gerando menores intervalos entre eles para que pudessem ser de menor valor (e, portanto, menos significativos) e para tentar induzir as pessoas a consumirem menos, já que estariam poupando com mais frequência. Além disso, tinham o intuito de diminuir a procrastinação, já que as datas dos depósitos estariam mais próximas.

A terceira intervenção foi desenhada para tratar a tendência humana de superestimar pequenas probabilidades, através da introdução de um sorteio, que passou a determinar a parcela que seria adicionada pelo governo a cada depósito feito pelo cidadão.

Já a última intervenção tentou tomar partido do viés decorrente da sensação de que os benefícios estão melhorando com o tempo. Isso foi feito dobrando-se a parcela depositada pelo governo quando o cidadão atingisse metade de sua meta de poupança.

Resultados

Apesar de as intervenções não terem alcançado os resultados desejados (uma vez que nenhuma delas conseguiu aumentar a taxa de poupança dos cidadãos que participaram do experimento), podem lançar luz sobre a questão da aplicação prática das finanças comportamentais.

Um dos achados mais interessantes, por exemplo, mostrou que as chamadas telefônicas produziram efeito contrário nos participantes, ou seja, os integrantes do grupo de tratamento (que sofreram a intervenção) pouparam menos que os do grupo de controle (que não sofreram), pois se sentiram incomodados pelas ligações – de acordo com as entrevistas feitas posteriormente com eles.

Em conclusão, uma das possíveis lições desse trabalho, além de mostrar o quanto podemos aprender com o fracasso de um experimento, é que ele aponta a necessidade de estudar mais a fundo as características do grupo que recebe a intervenção, a fim de descobrir a forma de abordagem mais indicada, respeitando as eventuais diferenças socioculturais, etárias, de gênero, etc.

Por fim, o experimento chama também atenção para a importância de se levantar os possíveis impactos negativos na hora de se desenhar uma estratégia interventiva, a fim de que o empurrão não seja dado na direção errada.

2 thoughts on “Um Empurrão na Direção Errada?

  1. Estou lendo sobre Finanças/Economia Comportamental desde o fim do ano passado e a cada vez me impressiona como a teoria clássica de agentes racionais tem grandes limitações na prática, em que é possível observar agentes tomados preponderantemente por emoções.

    Excelente paper e que vai me ajudar bastante. Obrigado!

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