Fruto da contribuição de um dos membros do Núcleo de Estudos Comportamentais (NEC) da CVM – a profª Vera Rita de Mello Ferreira – apresentamos aqui o artigo de Adriana Rodopoulos sobre o estudo intitulado Everyone starts with an ‘A’: applying behavioural insight to narrow the socioeconomic attainment gap in education, realizado em escolas da Alemanha. Segundo a autora, o estudo trata da aplicação dos pressupostos das ciências comportamentais à educação, com o intuito de melhorar o desempenho escolar e de diminuir a diferença de rendimento entre alunos de classes sociais diferentes.

A CVM agradece a contribuição e aproveita para sugerir aos leitores deste blog que reflitam sobre como as questões abordadas no estudo podem ajudar a melhorar as ações de Educação Financeira. Como seria possível reforçar uma mentalidade de formação de poupança e de planejamento financeiro? Quais as melhores estratégias para lidar com os vieses cognitivos que mais afetam o comportamento financeiro? Como as escolas poderiam criar um ambiente que favorecesse o consumo consciente e o desenvolvimento de uma relação saudável com o dinheiro desde a infância?

Disponibilizamos a seguir o artigo, incluindo um link para o estudo no qual ele se baseia, e aguardamos seus comentários:

Esta é a tradução do título de um estudo realizado pela RSA em parceria com a Vodafone Foundation Germany em escolas da Alemanha – Everyone starts with an “A”: applying behavioural insight to narrow the socioeconomic attainment gap in education – publicado em março deste ano.

Numa tentativa de aplicar os pressupostos da ciência comportamental à educação visando à melhoria do desempenho escolar e, principalmente, à diminuição das diferenças entre o rendimento dos alunos de classes sociais mais favorecidas e dos alunos das classes sociais mais baixas, o relatório apresenta resultados promissores a partir de recomendações de fácil implementação e baixo custo.

O relatório concentra-se no exame de três pilares da ciência comportamental que, segundo os pesquisadores, desempenham um papel relevante no ambiente escolar:

  • Mentalidade
  • Vieses cognitivos
  • Ambiente

No que diz respeito à mentalidade (mindset), o processo de aprendizagem varia conforme alunos e professores entendam o conjunto de habilidades necessárias ao sucesso escolar como sendo algo inato e estável (fixed mindset) ou algo passível de ser expandido através do esforço e da prática (growth mindset).

Segundo o relatório, estas habilidades podem ser treinadas e ampliadas com esforço e disciplina. Portanto, os pesquisadores recomendam que os professores incluam em suas práticas diárias posturas e instrumentos que valorizem o percurso e não o resultado.

Elogiar o esforço e não a habilidade; estabelecer conceitos e notas do tipo “ainda não” (not yet) ao invés de conceitos e notas que reflitam o fracasso (fail); e tratar o erro como uma oportunidade para continuar aprendendo – como se fosse um espaço ainda não preenchido – ao invés de um resultado definitivo sobre o qual não se pode fazer mais nada são algumas das recomendações práticas.

Com relação aos vieses cognitivos, a maioria das pessoas gosta de pensar que suas decisões são produto de uma análise e julgamento racionais e imparciais. Entretanto, de acordo com um dos pressupostos fundamentais da ciência comportamental,

todos nós estamos sujeitos a erros de percepção e julgamento, em função dos chamados vieses cognitivos.

Entre esses vieses, está a aversão à perda que nos faz trabalhar muito mais para não perder algo do que para ganhar esta mesma coisa. Neste sentido, os pesquisadores propõem que os alunos comecem com a nota máxima e trabalhem para não perdê-la.

Com relação aos professores, alguns vieses podem interferir na forma com que estes veem seus alunos. Por exemplo, a primeira impressão causada nos primeiros dias ou semanas de aula pode influenciar a forma como este professor avaliará seus alunos ao longo do ano letivo.

Neste caso, o efeito halo, o viés de confirmação e a ancoragem podem desempenhar um papel importante que acaba por comprometer a percepção e avaliação dos professores, o que por sua vez pode contribuir para a construção de estereótipos.

De acordo com a ciência comportamental, o nosso comportamento também é influenciado por fatores que escapam à nossa avaliação consciente. O ambiente que nos cerca é um exemplo desses fatores e, de acordo com o relatório, o ambiente físico da escola interfere no nível de esforço, agressividade e nas notas obtidas pelos alunos.

Entre os achados do estudo, a exposição, mesmo que visual, a elementos da natureza (green space) pode reduzir o cansaço mental e a agressividade. Por outro lado, sinais de “pobreza”, tais como prédios e instalações mal cuidados, acabam aumentando a impulsividade e a preferência por pequenas recompensas imediatas em detrimento de recompensas maiores no longo prazo.

Finalmente, os pesquisadores pontuam que a utilização isolada dos insights da ciência comportamental não se constitui numa receita mágica que dará conta de resolver todos os desafios a que professores e alunos estão sujeitos. A ciência comportamental deve ser utilizada como parte de um conjunto mais abrangente de medidas, dada a complexidade do cenário.

Fonte: SPENCER, N.; ROWSON, J.; BAMFIELD, L. Everyone starts with an “A”: applying behavioural insight to narrow the socioeconomic attainment gap in education. RSA Social Brain. March 2014.

Adriana Rodopoulos é Economista pela PUC-SP com extensão em Psicologia Econômica. Atua como palestrante, escreve coluna sobre Psicologia Econômica no site Dinheirama, e ministra cursos e oficinas sobre tomada de decisão. É membro da IAREP- International Association for Research in Economic Psychology.

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