Já discutimos bastante a questão dos vieses comportamentais aqui no blog e mostramos como eles podem nos atrapalhar na hora de tomarmos decisões, mas será que existe alguma maneira de usá-los a nosso favor?

Devido a inúmeros fatores, incluindo a inércia, compreender a utilidade do planejamento financeiro para nossas vidas não nos leva necessariamente a adotá-lo.

Neste post, vamos tomar como exemplo o viés da Aversão à Perda para questionar: se nos conscientizarmos do quanto podemos perder pela falta de planejamento, será que teremos a motivação necessária para começar?

Quando alguém começa a fazer planejamento financeiro é comum constatar que a soma das despesas é menor do que a renda ganha no mês. Se isso for verdade, deve haver uma sobra. Caso contrário, significa que essa pessoa provavelmente não sabe para onde está indo o restante do dinheiro.

Nesse caso, é preciso ter um método para controlar tais gastos, pois são justamente as pequenas despesas, muitas vezes desnecessárias, que fazem a pessoa estourar seu orçamento e não conseguir economizar.

Não existe método ideal para controlar despesas, já que a escolha é muito subjetiva. Cada pessoa precisa descobrir qual se adapta melhor ao seu estilo. No entanto, não basta apenas eleger o método mais adequado, mas fazer dele um hábito. E é nesse ponto que a maioria das pessoas fracassa.

Quando se trata de comportamento, os vieses que nos prejudicam talvez possam também nos ajudar.

Por exemplo, para usarmos a Aversão à Perda a nosso favor, podemos contabilizar o valor desperdiçado com supérfluos, assim como os custos e juros do dinheiro tomado emprestado – incluindo o cheque especial e o cartão de crédito (no caso em que não for pago o total da fatura).

A fim de acentuar a idéia da perda, podemos anualizar essas despesas, multiplicando esse total por 12, e corrigir esse valor a juros compostos, a fim de verificarmos o quanto deixaríamos de ganhar em um ano, caso o mesmo valor tivesse sido investido. Esse total pode ser comparado ao valor de algo que desejamos, para que a perda se torne ainda mais concreta.

Outra conduta recomendável é somarmos os custos de tudo o que é desperdiçado em casa: a comida que é jogada fora, a luz que fica acesa sem ninguém no cômodo, as horas e os canais de TV a cabo que ninguém assiste, etc. Já parou para calcular quanto é o total desse desperdício no mês e no ano?

Essa técnica de extrapolar as despesas para o mês, o ano, e até para a década, torna mais tangível a magnitude das perdas. Se todo mês gastarmos mais do que ganhamos, ao invés de enriquecermos com o tempo, estaremos ficando progressivamente mais pobres.

Por exemplo: se, ao invés de desperdiçarmos R$ 200 todo mês, investirmos esse valor a 1% ao mês, teremos R$ 2.536 ao final de um ano e mais de R$ 46 mil em uma década. Investindo R$ 500 todo mês, à mesma taxa, iremos ultrapassar os R$ 115 mil em uma década.

Vejamos o que conseguiríamos cortando os gastos com o carro: dividindo o seguro e o imposto por 12 e somando às despesas mensais (estacionamento, gasolina, etc.), digamos que a quantia chegue a R$ 600. Se conseguirmos R$ 30 mil com a venda do carro e aplicarmos esse valor a 1% ao mês, somado aos R$ 600 mensais, irá gerar mais de R$ 98 mil em 5 anos, sendo quase R$ 32 mil só de juros.

Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado a qualquer despesa recorrente e relevante. Comparado ao que gastaríamos se usássemos o transporte público, precisamos nos perguntar se a conveniência/utilidade do automóvel (ou do que quer que seja) justifica o que deixamos de ganhar.

Não existe resposta correta. O mais importante é termos em mente que o valor que gastamos a mais em uma coisa precisamos gastar a menos em outra, ou então iremos estourar nosso orçamento. Do mesmo modo, o dinheiro que deixamos de economizar para consumir hoje poderá nos fazer falta no futuro.

Uma solução, ao contrário de desanimarmos diante da possibilidade das perdas, é reagirmos a elas, eliminando o excesso e o desperdício e começando a economizar. Quando fizermos disso um hábito, aí sim poderemos pegar uma parte e nos permitir algumas recompensas pelo esforço – dentro do orçamento e vendo nosso patrimônio crescer.

E você? Sabe exatamente para aonde vai o seu dinheiro? Tem alguma dica de como podemos fazer um viés trabalhar a nosso favor?

Aguardamos comentários!