O Efeito de Enquadramento (framing effect, em Inglês) é o viés que descreve de que modo a tomada de decisão pode ser afetada pela maneira como o problema é formulado ou pela forma como as opções são apresentadas (enquadradas).

Estudos famosos têm mostrado que as pessoas tendem a ser avessas ao risco quando se trata de ganhos, partindo do princípio de que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, mas são propensas a correr riscos para evitar ou compensar perdas – como manter uma posição perdedora por longo prazo ou até ir investindo mais, à medida que a cotação cai, para que o preço médio fique menor.

Tais ganhos e perdas podem ser apresentados ao tomador de decisão de formas diferentes, gerando este viés. Por exemplo, supondo que você tivesse de tomar as duas decisões abaixo, quais alternativas escolheria?

Decisão A:

  1. Ganho certo de R$ 240 ou
  2. 25% de chance de ganhar R$ 1.000 e 75% de chance de não ganhar nada

Decisão B:

  1. Perda certa de R$ 750 ou
  2. 75% de chance de perder R$ 1.000 e 25% de chance de não perder nada

Quando confrontadas com as decisões acima, a maioria das pessoas prefere a alternativa 1 na decisão A e a alternativa 2 na decisão B. Ou seja, elas tendem a ser avessas ao risco no campo dos ganhos, mas atraídas pelo risco no âmbito das perdas.

Outro exemplo é um teste que pede para as pessoas escolherem entre receber de graça um vale presente de R$ 10 ou desembolsar R$ 7 por um vale presente de R$ 20. Nesse caso, a maioria costuma optar pela alternativa gratuita, menos benéfica financeiramente.

Isso se dá devido ao viés chamado Aversão a Perda, referente à diferença de valor subjetivo entre ganhos e perdas – sendo a perda sentida com muito mais intensidade do que o ganho. A maneira como a escolha é apresentada (seu enquadramento) explora esse outro viés, influenciando a tomada de decisão.

Ou seja, é possível que uma pessoa seja induzida a escolher uma opção menos vantajosa financeiramente, a fim de fugir do risco, se as alternativas forem enquadradas em termos de ganhos. Do mesmo modo, é possível que a pessoa seja influenciada no sentido de buscar o risco, se a escolha for apresentada em termos de perdas.

Portanto, uma consequência do fato de respondemos de modo diferente, dependendo de como uma determinada situação é enquadrada (se em termos de possibilidades de lucros ou de prejuízos), é escolhermos opções que implicam em maior risco, sem nos darmos conta disso, ou que seriam rejeitadas caso o problema fosse formulado de outra maneira, devido à tendência descrita acima.

A melhor forma de evitar esse viés é tentar perceber o enquadramento que envolve o objeto de nossa decisão e as opções oferecidas, para daí visualizar as mesmas informações por outro ângulo.

A fim de evitar o Efeito de Enquadramento, é recomendável que o investidor:

  • Questione as suposições embutidas nas recomendações de investimento e procure uma segunda opinião (por exemplo, ouvindo as objeções de quem sugere uma aplicação diferente);
  • Examine cuidadosamente as informações apresentadas em materiais de divulgação, entre outros, pois podem se tratar de enquadramentos tendenciosos, desenhados para influenciar a tomada de decisão;
  • Analise com cautela as ofertas que ressaltam apenas as possibilidades de ganho, minimizando as de perda, e tente descobrir o que deixou de ser mencionado;
  • Fique atento às descrições e adjetivos que tragam juízos de valor, como “justo”, “diferenciado”, “com potencial” etc. ;
  • Tente julgar a situação pelo ponto de vista de quem oferece o investimento, com o objetivo de identificar eventuais conflitos de interesse; e
  • Procure ter uma visão global do investimento, avaliando não só a rentabilidade, mas os custos e riscos envolvidos, como taxas de custódia e corretagem, impostos, carências, penalidades para resgate antecipado, etc.

 

Referências Bibliográficas:

  1. Ferreira, Vera Rita de M. Psicologia Econômica – estudo sobre comportamento econômico e tomada de decisão. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2008.
  2. Kahneman, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

 

 

4 thoughts on “Série Vieses Comportamentais – Efeito de Enquadramento

    1. Olá Ben,

      Do ponto de vista puramente matemático, a utilidade esperada de uma aposta é a média ponderada de cada resultado multiplicado por sua probabilidade.

      Então, a utilidade esperada da opções da escolha A é R$ 240 da certeza contra R$ 250 da aposta (0,25 x 1000 + 0,75 x 0 = R$ 250). Ou seja, a escolha mais racional seria a aposta, ainda que com pequena vantagem.

      Já na escolha B, a utilidade esperada das duas opções é a mesma: certeza (R$ 750) = aposta (0,75 x 1000 + 0,25 x 0 = R$ 750).

      No entanto, como a escolha A é enquadrada em termos de ganho, a maioria das pessoas escolhe o ganho certo, mesmo que seja mais vantajoso arriscar. E como a escolha B é enquadrada em termos de perda, para não sofrê-la, a maioria prefere arriscar.

      Segundo a Teoria da Perspectiva, isso acontece porque, além do Efeito Enquadramento, entra em cena aqui o viés da Aversão a Perda, que nos faz sentir as perdas com muito mais intensidade do que os ganhos.

      Atenciosamente,
      Equipe COP/CVM

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