Esse viés leva a pessoa a confiar excessivamente em seus conhecimentos e opiniões, além de superestimar sua contribuição pessoal para a tomada de decisão, tendendo a acreditar que sempre está certa em suas escolhas e atribuindo seus eventuais erros a fatores externos.

Ele deriva, entre outros motivos, de acreditarmos que a informação em nosso poder é suficiente para a tomada de decisão, que somos mais hábeis em controlar os eventos e riscos do que realmente conseguimos ou, ainda, que possuímos capacidade de análise acima da média dos outros agentes do mercado.

O viés da Autoconfiança Excessiva tem relação estreita com o de Confirmação, segundo o qual a pessoa dá mais valor àquilo que confirma suas ideias do que ao que as contraria – e assim, de forma análoga, o sujeito confiar mais em sua própria capacidade do que na dos outros.

A confiança que uma pessoa deposita em suas próprias crenças depende mais da narrativa que é capaz de construir com os dados disponíveis – por mais escassos e imprecisos que sejam – do que da quantidade e qualidade desses dados. Soma-se a isso a forte tendência da mente humana de identificar padrões naquilo que é aleatório.

Quando alguém diz, por exemplo, que as ações da empresa X são um ótimo investimento “porque uma pesquisa revelou que 65% dos gestores de grandes fundos investem nessa empresa”, é mais confortável tomar essa informação como verdadeira e tomar uma decisão de investimento a partir daí do que procurar saber sobre a confiabilidade de tal pesquisa e sobre vários dados não mencionados na frase, mas indispensáveis para poder tomar uma decisão financeira consciente e informada.

Além disso, quando um investidor tem sucesso com seus investimentos ele corre o risco de acreditar demais em sua própria capacidade, subestimando o papel do acaso, o fato de o mercado estar em alta e outros fatores que possam ter sido mais decisivos para seu êxito do que sua aptidão para investir.

Para ilustrar esse ponto, um estudo de 2006 realizado com 300 gestores de fundos mostrou que 74% da amostra declararam que seu desempenho está acima da média, enquanto quase todos os 26% restantes informaram que possuem desempenho mediano – o que é impossível do ponto de vista estatístico.

O que acontece de fato é que investidores excessivamente autoconfiantes, por acreditarem que são superiores à maioria em identificar as melhores opções de investimento e os momentos certos para investir, acabam conduzindo mais negociações e, em consequência, aumentando seus custos de transação, o que resulta em um retorno menor do que a média do mercado.

A fim de evitar o viés da Autoconfiança Excessiva é recomendável que o investidor:

  • Preocupe-se com a confiabilidade das fontes e com a qualidade da informação recebida, certificando-se de que dispõe de todos os dados necessários e suficientes para a tomada de decisão;
  • Questione sua própria competência, discutindo sua estratégia de investimento com pessoas de sua confiança ou com profissionais isentos, que não possam se beneficiar das recomendações oferecidas;
  • Tome cuidado com o excesso de autoconfiança que normalmente chega com os lucros. Examine se o resultado positivo pode realmente ser atribuído a uma estratégia vencedora e que pode ser repetida no futuro ou se foi fruto de fatores fora do seu controle (um evento macroeconômico, por exemplo);
  • Procure utilizar as situações perdedoras para descobrir seus erros e melhorar seus métodos de análise, ao invés de apenas buscar justificativas em causas externas;
  • Fique atento aos custos de transação, calcule seu impacto no retorno dos investimentos e reflita se é possível realizar menos operações, obtendo melhor retorno;
  • Registre, sempre com a data, as situações em que tomou decisões erradas, a fim de revisá-las posteriormente, identificando o que precisa corrigir e se conscientizando de que também é capaz de cometer erros, como todo mundo; e
  • Estude a possibilidade de diversificar seus investimentos, de forma a evitar “colocar todos os ovos na mesma cesta” e assumir riscos desnecessários.

 

Referências Bibliográficas:

Ferreira, Vera Rita de M. Psicologia Econômica – estudo sobre comportamento econômico e tomada de decisão. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2008.

Kahneman, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

 

2 thoughts on “Série Vieses Comportamentais – Autoconfiança Excessiva

    1. Olá Leandro,

      Selecionamos alguns papers para que você possa se aprofundar no assunto e observar quais as perguntas realizadas nas respectivas pesquisas:

      Kaustia, M. and M. Perttula. 2012. Overconfidence and Debiasing in the Financial Industry. Review of Behavioral Finance, 4(1): 46-62.

      Gentile M., N. Linciano, and P. Soccorso. 2016. Financial Advice Seeking, Financial Knowledge and Overconfidence: Evidence from the Italian Market. Commissione Nazionale per la Società e la Borsa. Working Paper 83. http://www.consob.it/mainen/documenti/english/papers/index.html

      Kramer, M. K. 2014. Financial Literacy, Overconfidence and Financial Advice Seeking

      Australian Securities & Investments Commission. 2015. Report 427. Investing in Hybrid Securities: Explanations Based on Behavioural Economics.
      Available for download at http://asic.gov.au/regulatory-resources/find-a-document/reports/rep-427-investing-in-hybrid-securities-explanations-based-on-behavioural-economics/

      Atenciosamente,
      Equipe COP/CVM.

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