O viés da ancoragem faz com que a exposição prévia a uma informação nos leve a considerá-la fortemente na tomada de decisão ou na formulação de estimativas, independente de sua relevância para o que é decidido ou estimado.

Um dos principais motivos para isso é que nossa mente é incapaz de avaliar de forma eficiente as magnitudes absolutas, precisando sempre de um ponto de referência para basear suas estimativas e julgamentos.

Por incrível que pareça, se perto do momento de investir, uma pessoa é previamente exposta a palavras como “promoção”, “pechincha”, “barato”, “vantagem”, e outras similares, tem mais chance de avaliar um investimento como vantajoso do que um investidor exposto a palavras como “caro”, “exorbitante”, “puxado”, “alto”, etc.

É muito comum a ancoragem se basear em valores. Por exemplo, um investidor que toma decisões financeiras por impulso, se exposto recentemente à informação de que a ação da companhia X custa R$ 50, tende a achar barata a ação da companhia Y, cotada a R$ 20, ainda que as duas empresas não tenham nenhuma correlação.

Outra tendência comum é o investidor se ancorar no preço de compra de um papel ou no valor da cota de entrada de um fundo de investimentos ao tomar a decisão posterior de manter a aplicação ou de se desfazer dela. O efeito resultante pode ser a manutenção de uma posição perdedora à espera de uma recuperação até o preço original, mesmo que as perspectivas futuras não indiquem tal possibilidade.

Existe também a situação em que a pessoa define mentalmente uma faixa de valores como “justa” com base nos valores de mercado de uma ação durante um dado período. A partir de então, avalia se as cotações futuras do papel estão caras ou baratas apenas comparando-as com a faixa anterior, o que pode gerar decisões duvidosas de investimento.

A ancoragem se deve principalmente a um mecanismo relacionado à forma como a nossa mente funciona: o priming.

Priming é o efeito decorrente da enorme capacidade associativa da nossa mente, que faz com que palavras, conceitos e números evoquem outros similares, um após o outro, numa reação em cadeia.

Ou seja, uma palavra é mais rapidamente lembrada, e se torna mais disponível na nossa mente, se tiver conexão com outras vistas/ouvidas em um momento recente. É também o processo pelo qual experiências recentes nos predispõem, de forma automática, a adotar determinado comportamento.

O efeito do priming pode ser particularmente contraproducente para os investidores, por exemplo, durante uma queda generalizada do mercado, em que seria possível comprar, por preços abaixo do que realmente valem, ações ou títulos de dívida de empresas com sólidos fundamentos e que, ao menos em tese, recuperariam seu valor com o passar do tempo.

No entanto, é justamente nesse cenário que os comentários veiculados pela mídia e pela internet costumam alimentar o imaginário social com uma narrativa pessimista, predispondo o investidor a adotar um comportamento defensivo e a se afastar do mercado, desperdiçando boas oportunidades de investimento.

Para evitar o viés da ancoragem, é recomendável que o investidor:

  • Preste especial atenção a valores tomados como referência, verificando se têm fundamento sólido ou se são valores arbitrários, utilizados simplesmente como âncoras;
  • Mantenha-se atualizado quanto aos valores tomados como base de comparação, como as taxas de câmbio, inflação e CDI, entre outras, a fim de evitar basear sua decisão em valores que não se aplicam ao cenário atual;
  • Questione suas premissas, certificando-se de que sejam realmente relevantes para a tomada de decisão e de que não sejam utilizadas apenas para suprir uma possível lacuna de informação; e
  • Evite tomar decisões financeiras por impulso e sem informações suficientes, uma vez que, na falta de base racional, sua mente irá apelar para o que estiver mais facilmente à disposição, porém nem sempre a seu favor.
Referências Bibliográficas:

Ferreira, Vera Rita de M. Psicologia Econômica – estudo sobre comportamento econômico e tomada de decisão. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2008.

Kahneman, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

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