Paul Ormerod, em seu paper Economics[1], realiza uma breve crítica sobre os modelos macroeconômicos da escola dominante ou convencional (“mainstream”), apontando as falhas no pressuposto da racionalidade dos agentes econômicos e na hipótese de que as preferências são fixas no tempo. O autor começa citando como exemplo a crise europeia de 2010, durante a qual os modelos financeiros foram incapazes de prever e explicar o comportamento do ciclo econômico da época.

Os modelos “real business cycle” de Kydland e Prescott e os modelos DSGE (“Dynamic Stochastic General Equilibrium”) são mencionados como ferramentas populares ao redor do mundo, ainda que tenham falhado em prever os efeitos da crise financeira mundial de 2008. A essência desses modelos envolve um arcabouço matemático complexo e microfundamentos baseados na escolha ótima dos indivíduos entre lazer e trabalho.

O autor argumenta que os “insights” mais poderosos operam na área microeconômica e que agentes essencialmente reagem a incentivos, alterando preferências e seu comportamento frente a diferentes situações do cotidiano.  Um exemplo é o comportamento de um motorista diante de um radar na rodovia, onde a nova situação apresentada altera seu comportamento devido às possíveis consequências de não diminuir a velocidade do veículo.

Um dos principais postulados da microeconomia clássica é que o agente racional busca maximizar seu bem-estar de acordo com suas preferências. É importante entender que o termo “racional” possui um sentido puramente científico, que se refere à hipótese da tomada de decisão dos indivíduos.  Essa simplificação advém da formalização da teoria econômica no século XIX, com o objetivo de possibilitar o cálculo matemático do equilíbrio entre oferta e demanda. No entanto, Ormerod argumenta que esse tipo de modelo está restrito a um mundo estático. Com o passar do tempo, uma série de avanços tecnológicos expandiram os recursos disponíveis nas economias e consequentemente ampliou-se a disponibilidade de informações, tornando ainda mais imprecisos os pressupostos clássicos.

As principais hipóteses dos modelos dominantes são:

  • Preferências são fixas no tempo
  • Agentes não são influenciados por outros indivíduos
  • O agente consegue processar todas as informações disponíveis

Logo, dadas as hipóteses fundamentais dos modelos tradicionais, é possível pressupor um resultado ótimo da relação entre as preferências e as restrições orçamentárias dos agentes econômicos.

Segundo Ormerod, com o objetivo de reformar os postulados clássicos da microeconomia Herbert Simon criou o ramo da economia comportamental, que busca entender o comportamento do agente econômico e sua racionalidade por meio da psicologia.  Além disso, o conceito de informação imperfeita permitiu estender os modelos econômicos, ao considerar que não é possível atingir uma escolha ótima ou definir a melhor estratégia, devido ao constante avanço tecnológico e à incapacidade de processar todas as informações disponíveis.

É importante apontar que tanto a tecnologia no século XXI quanto o avanço da Internet ampliaram as escolhas do indivíduo econômico. Diariamente o consumidor se depara com uma vasta variedade de produtos. Eric Beinhocker, em seu livro “The Origin of Wealth”, cita que no Wal-Mart de Nova York há mais de 100 mil produtos diferentes em estoque. Na mesma cidade existem mais de 200 canais de televisão, 275 variedades de cereal, 50 mil restaurantes, entre outros exemplos. Assim, é possível notar um incremento considerável na disponibilidade de opções de consumo entre os séculos XX e XXI.

O autor também aponta que, na realidade, as preferências de um indivíduo podem se alterar de acordo com a influência de outras pessoas. No entanto, ainda existem alguns setores da economia em que a teoria da escolha racional pode ser aplicada com maior certeza, principalmente em mercados mais “maduros”, ou seja, setores que as pessoas já estão familiarizadas com as diferentes alternativas oferecidas e as distintas características dos produtos. Um exemplo mencionado é o mercado de máquinas de lavar, cuja tecnologia envolvida se manteve inalterada ao longo do tempo.

A premissa de explicar os fenômenos econômicos baseados em microfundamentos ainda é ume regra válida para Ormerod. No entanto, com a expansão da disponibilidade de informação e com a atual diversidade de produtos, as hipóteses básicas dos modelos se tornam incapazes de explicar os eventos econômicos em sua plenitude e podem fornecer informações não representativas da realidade. Em um cenário de incerteza, os tomadores de decisão precisam de narrativas antes de serem convencidos a realizar uma atividade, ou seja, de maneira geral a maneira como os fatos são apresentados pode ser crucial para interpretar as escolhas dos indivíduos.

E você? Acha que os modelos econômicos tradicionais se adaptarão à nova era da informação? Aguardamos seu comentário!

 

 

 

[1] Para acessar o artigo original clique aqui.

 

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