A coordenação de estudos comportamentais da CVM (COP/CVM) publica o relatório “Educação financeira para além do conhecimento: estratégias de intervenção no comportamento de poupança”. O estudo representa o esforço da CVM para compreender os vieses e barreiras que podem afetar comportamentos financeiros, notadamente aqueles relativos à poupança, por meio de revisão bibliográfica. Também são descritas as intervenções encontradas na literatura científica que trabalharam com conceitos de ciências comportamentais para incentivar a formação de poupança e a tomada de decisões financeiras conscientes.

O relatório integra o projeto homônimo, o qual compreende a elaboração e validação de um ou mais produtos/materiais educacionais destinados à população de renda intermediária com potencial de poupança. Os produtos finais do projeto objetivarão estimular e apoiar a formação de reservas financeiras, assim como a promoção de decisões de investimento conscientes e bem informadas. O projeto também se caracteriza pela ampla utilização de “insights” provenientes das ciências comportamentais, sobretudo da psicologia, para que se busque uma efetiva mudança de comportamento financeiro dos usuários dos produtos educacionais a serem elaborados.

O relatório aponta que o brasileiro poupa significativamente menos que a média mundial, o que influencia o desenvolvimento econômico do país e sua macroeconomia. Particularmente a parcela da população com menores condições socioeconômicas apresentou menor capacidade de poupança, de acordo com pesquisas anteriores.

Do ponto de vista individual, a poupança está diretamente ligada ao bem-estar financeiro, que é composto por quatro elementos: controle sobre as finanças diárias e mensais, liberdade financeira, capacidade de absorver choques financeiros e atingir metas estabelecidas.

Segundo a OCDE, a educação financeira é o meio fundamental para informar e proteger os consumidores. O aumento do nível de letramento financeiro dos cidadãos lhes possibilita entender melhor os riscos financeiros e aperfeiçoar suas decisões de consumo, poupança e investimento. No entanto, alguns estudos concluem que a educação financeira com enfoque exclusivo em conhecimento não tem sido suficiente para estimular mudanças no comportamento financeiro dos indivíduos devido a fatores psicológicos, sociais, cognitivos e outros.

Nesse sentido, a partir da revisão bibliográfica realizada pela COP/CVM, o relatório identifica, como principais vieses e barreiras psicológicas à formação de reservas financeiras, a ausência de autocontrole, excesso de confiança, contabilidade mental, influências sociais e falta de saliência para o tema da poupança.

Entre os programas examinados de educação financeira que abordaram os vieses na tomada de decisão de poupança, o trabalho destaca os produtos de poupança com comprometimento “rígido” e “leve” testados nas Filipinas, EUA, Chile e outros países. Mecanismos de inscrição automática, sobretudo em planos de aposentadoria complementar, foram aparentemente bem-sucedidos em incentivar a constituição de reservas de longo prazo. Pequenos lembretes e regras de bolso são ferramentas que podem aumentar a saliência do comportamento de poupança e a aplicabilidade dos conhecimentos financeiros transmitidos, respectivamente. Intervenções educativas oferecidas nos momentos importantes da vida financeira do indivíduo, como o recebimento do primeiro salário ou o lançamento de um novo sistema de previdência, costumam ter maior eficácia.

Também no relatório é discutida a interface entre a economia e a psicologia sob uma perspectiva histórica até o advento da moderna economia comportamental, com os estudos de Daniel Kahneman.

O estudo descreve três modelos teóricos de mudança de comportamento oriundos do campo da psicologia que eventualmente serão aplicados pela CVM em seus projetos educacionais. A Teoria do Comportamento Planejado postula um papel central para as intenções e seus determinantes na capacidade de prever e explicar comportamentos. Da Teoria Social Cognitiva deriva-se o conceito de autoeficácia, entendida como a autopercepção da capacidade de agir, bem como à crença de poder realizar uma determinada atividade e de antecipar seus resultados. Desse modo, é possível construir intervenções com foco na atitude frente ao comportamento de poupar e na autoeficácia sobre esse comportamento. O modelo Transteorético[1] defende alterações graduais em vez de abruptas para o indivíduo sair da completa falta de consciência da necessidade de mudança até a incorporação e a manutenção de um novo hábito financeiro. Este método foi aplicado nos EUA entre 1996 e 2002 em um programa destinado a fomentar a poupança e reduzir o endividamento da população.

 

A COP pretende debater com o público o relatório, envie-nos seus comentários e sugestões no e-mail: cop@cvm.gov.br

 

Acesse aqui a apresentação realizada pela COP em 02 de outubro sobre o relatório.

[1] O modelo Transteorético já foi abordado neste post.

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