O Consumer Financial Protection Bureau (CFPB) – órgão do governo americano, criado em 2010 para proteção, orientação e estudo do consumidor de produtos e serviços financeiros – publicou, em janeiro de 2015, um relatório denominado “Financial well-being: the goal of fiancial education”, que define bem-estar financeiro, descreve seus principais elementos e apresenta os fatores mais importantes para criar esse bem-estar.

Publicamos aqui um resumo contendo alguns dos principais pontos do relatório e links para quem lê em Inglês.


 

O conceito de educação financeira adotado no Brasil é o definido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2005. Em linhas gerais, essa definição diz que a educação financeira é processo pelo qual se adquire as competências financeiras necessárias para fazer escolhas bem informadas e melhorar o bem-estar.

No entanto, não há um consenso sobre o conceito de bem-estar financeiro e muito menos sobre a forma de medi-lo, assim como há relativamente poucos dados sobre a eficácia das ações de educação financeira, tornando difícil saber quais os melhores métodos e estratégias a serem adotados.

Nesse cenário, o CFPB vem pesquisando e tentando produzir evidências para melhorar as ações de educação financeira, tanto em termos de qualidade quanto de eficácia, a fim de ajudar o consumidor na tomada de melhores decisões financeiras. A partir dessas pesquisas, chegou-se à conclusão de que a melhor maneira de avaliar o sucesso dos esforços investidos em educação financeira é medindo o bem-estar financeiro dos indivíduos.

Assim, com o intuito de estabelecer uma definição do que é bem-estar financeiro, o órgão conduziu um estudo que reuniu a literatura sobre o assunto, a opinião de especialistas e várias entrevistas em profundidade com consumidores. O resultado foi publicado agora em janeiro de 2015, o relatório “Financial well-being: the goal of financial education”, que define bem-estar financeiro, descreve seus principais elementos e apresenta os fatores mais importantes para criar esse bem-estar.

A definição de bem-estar financeiro estabelecida no relatório do CFPB é:

            “In summary, financial well-being can be defined as a state of being wherein a person can fully meet current and ongoing financial obligations, can feel secure in their financial future, and is able to make choices that allow enjoyment of life”.

Em resumo, “bem-estar financeiro pode ser definido como um estado no qual a pessoa pode cumprir totalmente suas obrigações financeiras atuais e em andamento, pode sentir-se segura sobre seu futuro financeiro e está apta a realizar escolhas que a permitam aproveitar a vida” (tradução livre deste blog).

Segundo o CFPB, os principais elementos do bem-estar financeiro são:

PRESENTE

FUTURO

SEGURANÇA Controle sobre as finanças do dia-a-dia Capacidade de lidar com um contratempo financeiro
LIBERDADE DE ESCOLHA Liberdade escolha financeira para aproveitar a vida Estar no caminho certo para atingir seus objetivos financeiros

Um dos principais pontos a serem destacados no relatório é a descoberta de que, partindo da premissa de que o bem-estar financeiro compreende uma gama de situações, que vão do estresse financeiro severo até o alto grau de satisfação financeira, é possível fazer as pessoas avançarem na direção de um maior bem-estar por meio da educação e do esforço, dados o suporte e a oportunidade adequados.

A esse respeito, o CFPB ressalta a relevância do que ele chama de oportunidade para o bem-estar financeiro, entendida como a presença de fatores tais como contexto macroeconômico, riqueza da família, contatos sociais, acesso a educação e local de moradia. No entanto, ele afirma que o mero acesso a determinadas oportunidades na vida de uma pessoa não é suficiente por si só para promover o bem-estar. É preciso que a pessoa tenha um comportamento que a permita aproveitar tais oportunidades.

Além disso, o relatório menciona a necessidade de oferecer aos consumidores o suporte adequado para ajudá-los a aumentar seu grau de bem-estar financeiro. A esse respeito, são feitas recomendações sobre como oferecer esse suporte, visando a 4 objetivos fundamentais:

  1. Equilibrar: ter um padrão de vida adequado aos próprios meios;
  2. Perguntar: reunir informação e avaliar os resultados;
  3. Planejar: focar no futuro; e
  4. Agir: colocar-se no rumo certo e tomar atitudes para melhorar o bem-estar financeiro.

O relatório traça também um esquema dos fatores que mais influenciam o bem-estar:

  • Ambiente socioeconômico: contexto no qual se insere a família e a comunidade.
  • Personalidade de atitudes: como uma pessoa sente, pensa e age.
  • Contexto decisório: como cada decisão específica se apresenta.
  • Conhecimento e habilidades: o que a pessoa conhece e o que ela sabe fazer.
  • Oportunidades: aquilo que está disponível para a pessoa.
  • Comportamento: como a pessoa realmente se comporta.

Um dos destaques do relatório é a afirmação de que realmente é possível ajudar a melhorar o grau de bem-estar de uma pessoa atuando tanto sobre como ela sente, pensa e age, quanto sobre o que ela conhece e sabe fazer. Portanto, se o bem-estar financeiro das pessoas pode ser aumentado por meio da educação financeira, é preciso que esta seja entendida em sentido amplo, incluindo não apenas o aumento do conhecimento, mas também a aquisição de novas habilidades e a mudança de atitudes.

Nesse sentido, um ponto a ser destacado é o papel das competências não-cognitivas quando se fala na melhoria do bem-estar. Cada vez mais, características como autocontrole, perseverança, capacidade de antecipação e criatividade – só para citar algumas – têm não apenas adquirido relevância, mas sido consideradas elementos-chave quando se fala em desenvolver programas para melhoria das condições de vida das pessoas, nas mais diferentes áreas da vida (saúde, educação, etc.).

O conjunto de competências que no relatório são chamadas de “financial ability” (habilidade financeira) deriva não só das respostas dos entrevistados, mas de um crescente consenso na literatura especializada sobre o fato de a “financial literacy” (alfabetização financeira) ser relacionada à aquisição de 2 principais componentes: o conhecimento e a atitude. Em outras palavras, para se ter sucesso financeiro não é suficiente apenas saber o que fazer. É preciso agir de acordo. Não basta saber, por exemplo, que é necessário economizar ou comparar preços, mas efetivamente tomar atitudes nesse sentido.

Em resumo, o relatório do CFPB afirma que, embora seja mais fácil atuar sobre alguns fatores do que outros, no final das contas é o comportamento do indivíduo, dadas as oportunidades disponíveis, que faz com ele atinja determinado nível de bem-estar. O que se pode fazer é oferecer o suporte necessário para ajudá-lo a chegar lá.

 

8 thoughts on “Relatório Americano Define Bem-Estar Financeiro

  1. Achei excelente o assunto, principalmente por que atualmente estou acabando de realizar o Conaedifpe 2014 – Congresso Nacional de Educação Financeira Pós eleições 2014, que foi on line e totalmente gratuito no seus horários, com uma gama de profissionais de excelência, justamente pensando em levar a uma grande maioria de pessoas, por um meio extremamente acessível como a internet, maneiras de se educarem financeiramente, principalmente agora, com essa crise político-financeira que assola o nosso país. Mas infelizmente no Brasil não existe a cultura da Educação financeira. O povo Brasileiro não sabe nem o que, de fato, significa poupar para investir. Não sabe que tem acesso à Bolsa de Valores, que com R$ 30,00 pode ser investidor da BM&F BOVESPA, com um investimento seguro e extremamente rentável, principalmente agora, com a Selic a 14, 25% a.a.. Então penso que deveria haver mais divulgação a respeito da Educação Financeira em nosso país. Como o próprio Ministro da Fazenda, Joaquim Levy me disse, em entrevista, para o Conaedfipe, que a taxa de poupança caiu de 16 para 14% e que a Educação Financeira é um dos principais pilares para que se restabeleça a equação correta da economia Brasileira.

  2. Muito gente vive endividada e está longe de ter um equilíbrio financeiro como o citado pelo artigo. Concordo com as opiniões acima, mas acho que alguns posicionamentos de algumas pessoas são prejudiciais a si mesmas e aos próximos.

    Muito bom os apontamentos do artigo, me acrescentou bastante.

    Daniel Freitas.

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