O Consumer Financial Protection Bureau (CFPB), órgão público norte-americano para a proteção financeira do consumidor, publicou o estudo intitulado “The Power of Light-Touch Financial Education” em janeiro deste ano, em que testou se as regras de bolso podiam ser usadas como instrumento de educação financeira.

A chamada educação financeira de contato leve (“light-touch”) tem como objetivo alcançar vários indivíduos a custo reduzido e com o uso de ferramentas tecnológicas. Um exemplo de abordagem oposta seria o coaching financeiro, que estabelece objetivos individuais e trabalha de forma personalizada. O método de contato leve transmite conteúdos educacionais mais simples e/ou usa mecanismos que facilitam o processo de decisão, como lembretes, compromissos e “defaults”. Portanto, demanda menor carga cognitiva dos consumidores e consequentemente os ajuda a tomar boas decisões financeiras. As regras de bolso podem ser consideradas como um tipo de abordagem de contato leve.

O estudo alega que regras de bolso podem ser eficientes para situações corriqueiras, como “comprar ou não determinado produto?” ou “pagar ou não no cartão?”. O intuito é que elas sirvam como um tipo de atalho mental (ou heurística) e possibilitem na maioria das vezes ao consumidor tomar uma decisão satisfatória, ainda que não seja a ótima. Devido à sua simplicidade e baixo custo, regras de bolso costumam ser úteis para decisões repetitivas e frequentes.

Para o experimento do estudo, selecionou-se uma amostra de aproximadamente 14 mil usuários do Arizona Federal Credit Union, composta por indivíduos que usavam o cartão de crédito com pouca frequência e entraram no crédito rotativo durante pelo menos dois meses. Esse público-alvo possuía vida financeira relativamente estável e pagava regulamente a fatura do cartão, mesmo que não a quitasse completamente.

Foram elaboradas duas regras de bolso em forma de frases. Um grupo, o de controle, não recebeu nenhuma das frases. Os pesquisadores enviaram uma mensagem diferente para cada um dos dois grupos de tratamento:

  • o grupo 1 recebeu a regra: “Não passe no cartão as pequenas coisas: use dinheiro em compras até $20”[1]; e
  • o grupo 2 recebeu a frase: “O rotativo continua cobrando: seu saldo a pagar aumenta aproximadamente 20%”[2].

Os participantes foram expostos às frases por pelo menos um dos seguintes meios: na página de login de sua conta pessoal, por email (até duas vezes por mês) e um ímã de geladeira enviado por correio. O envio e a disposição das regras de bolso duraram seis meses.

O saldo do cartão de crédito do grupo 1 diminuiu 2% em relação ao grupo de controle e, apesar de parecer modesta, esta variação foi estatisticamente significativa. Consumidores abaixo dos 40 anos dos dois grupos expostos às regras de bolso tiveram uma redução ainda maior, de 5%, no saldo devedor do cartão de crédito e uma pequena queda (porém estatisticamente significativa) na quantidade de compras feitas no cartão. Para aqueles abaixo dos 40 anos que receberam a primeira frase, o estudo captou também um aumento na poupança, o que sugere a existência de diferenças de atitudes financeiras entre gerações nos EUA.

No entanto, o estudo não foi capaz de identificar o porquê dessa redução do saldo devedor, visto que não foi possível observar uma diminuição significativa no uso do cartão de crédito pelos participantes. Tampouco o montante pago nas faturas aumentou de forma relevante.

Em suma, o CFPB concluiu que as regras de bolso foram bem sucedidas em ajudar os consumidores a reduzir o saldo devedor do cartão de crédito e são viáveis devido ao seu baixo custo de implementação, que foi inferior a um dólar por participante. No entanto, o órgão alerta para a importância de direcionar adequadamente as mensagens, pois uma mesma frase pode produzir efeitos diferentes sobre consumidores distintos.

Para futuras pesquisas, o CFPB sugere explorar quais regras funcionam melhor, em que contextos e para quais públicos. Propõe também estudar os mecanismos sobre os quais regras de bolso agem e são bem sucedidas em motivar mudanças de comportamentos financeiros.

E você? Usa alguma regra de bolso que funciona bem na sua vida financeira? Compartilhe conosco!

 

 

[1]Em inglês: “Don’t swipe the small stuff: Use cash when it’s under $20”.

[2]Em inglês: “Credit keeps charging: It adds about 20% to the total”.

 

 

 

2 thoughts on “Regras de bolso funcionam?

  1. Utilizo há muito tempo a regra dada ao grupo 1 : para valores até R$ 19,99 pago em dinheiro ou em cartão de débito. E a partir de R$ 20,00 uso o cartão de crédito.
    Acredito que assim consigo dosar os gastos mensais, não sobrecarregando o bolso e nem a fatura!

    1. Caro João Luiz,

      Geralmente, as regras de bolso precisam ser adaptadas ao estilo de cada um, pois o que funciona para uma pessoa não funciona para outra. Só é preciso ter o cuidado de reavaliar periodicamente sua utilidade.
      Estudos mostram que os gastos considerados de valor irrelevante quando sozinhos, ao serem somados, muitas vezes chegam a valores que pesam bastante no orçamento. Por isso, é bom ficar sempre atento ao total das pequenas despesas.
      Agradecemos o comentário.

      Equipe COP/CVM.

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