Qual é o impacto da assessoria profissional na carteira de investimentos?

Alguns pesquisadores argumentam que investir sob a orientação de consultores financeiros é uma forma de minimizar os erros de investimentos causados por vieses comportamentais. Para entender quais são os benefícios da orientação profissional, analisando se ela de fato traz vantagens para o investidor e quais seriam elas, pesquisadores alemães fizeram uma pesquisa com investidores, clientes de um banco privado alemão. 

Analisou-se a carteira e as movimentações de 65.000 investidores, com o objetivo de avaliar os efeitos do aconselhamento nos portfólios de investimentos. Para isso, a amostra foi dividida entre os clientes que faziam investimentos com assessoria profissional e os que investiam por conta própria. 

Para análise da carteira de investimentos, os pesquisadores tiveram acesso à composição das carteiras, ou seja, quais produtos os investidores possuíam, e à movimentação dos investimentos. 

A primeira constatação foi que as diferenças nas carteiras de investimentos não se deviam somente à presença ou ausência de aconselhamento profissional. Características dos investidores também influenciavam a composição e operações do portfólio de investimentos. Isso porque os investidores que tinham ou não assessoria eram muito diferentes entre si, tanto demograficamente quanto no perfil de risco. Considerando a amostra dos clientes que tinham assessoria, era mais provável que fossem mulheres, mais velhas, com um perfil de risco conservador, com patrimônio maior, mais aderentes a planos de investimento programado, praticavam menos trading, e tinham uma performance maior do portfólio. Desse modo, não é possível saber se as diferenças nos investimentos são causadas pela assessoria ou por outras características individuais.   

Para compreender, então, qual é de fato o impacto da assessoria, os pesquisadores empreenderam outro nível de análise. Eles buscaram comparar indivíduos que fossem “gêmeos”, ou seja, tivessem características sociodemográficas parecidas, diferenciados apenas pela presença ou ausência da assessoria financeira. Desse modo, o efeito do aconselhamento não se misturaria ao comportamento causado por características dos indivíduos: como eles eram muito parecidos, é provável que diferenças entre eles sejam causadas pelo que eles têm de diferente, que no caso é a presença ou ausência de assessoria para investir. Os dados considerados foram: gênero, idade, estado civil, perfil de risco, patrimônio investido no banco e há quanto tempo eram clientes do banco.  

Investidores heavy traders, definidos pelos pesquisadores como aqueles que movimentavam seus investimentos acima de três vezes o praticado por outros investidores, foram excluídos dessa análise. 

Olhando para a composição das carteiras, os pesquisadores observam que os assessorados têm um portfólio mais diversificado. Também constataram que eles fazem menos movimentações em suas carteiras que os sem assessoria. Há também uma pequena vantagem no índice de Sharpe (Indicador que avalia a relação entre o risco e o retorno das carteiras) dos investidores assessorados sobre os não assessorados. 

 

 

 

Testes estatísticos realizados pelos pesquisadores concluíram que as diferenças entre os grupos são estatisticamente significativas. 

Apesar de parecer que diversificação no portfólio e menor movimentação são vantagens nas estratégias de investimento, os autores do estudo fazem a ressalva que essas características não são positivas em si, mas sim quando essas operações estão ajustadas aos objetivos e perfil de risco do investidor 

O estudo também fez uma segunda análise. Selecionou uma amostra de indivíduos que, no período analisado, investiam por conta própria e começaram a ter orientação profissional. Dos 7.054 investidores assessorados, 597 estavam dentro desse perfil.  

Os pesquisadores observaram um aumento no número de negócios realizados (tanto de venda quanto de compra) nos três meses após a contratação do serviço de assessoria, mostrando que os investidores aplicam rapidamente as orientações recebidas. Também houve um aumento na adesão a investimentos programados. 

Considerando esse grupo, não se observa um padrão de mudança para um mesmo produto financeiro após a contratação da assessoria. As transações analisadas não permitem afirmar que os assessores tendem a orientar os clientes a investir em um produto específico, ou a substituir um produto financeiro por outro. A hipótese dos pesquisadores é que os assessores se concentram em corrigir erros de investimento e também respeitam as características específicas dos portfólios.  

Mesmo assim, constata-se que houve mudanças no portfólio após a orientação da assessoria. Os pesquisadores observaram um aumento de, em média, 13% nos valores investidos mensalmente. Também houve diversificação do portfólio, notada pela diminuição dos investimentos em equities, aumento do número de securities, pelo aumento dos investimentos em mutual funds e, por fim, pelo índice de concentração usado pelos pesquisadores. 

Investir com orientação profissional pode ser um passo benéfico na jornada do investidor. Respeitando o perfil de risco, os objetivos e o perfil de investimentos, uma assessoria profissional pode trazer benefícios para a composição da carteira e para o comportamento do investidor. 

 

Referência
GERHARDT, Ralf; HACKETHAL, Andreas. 2009. The influence of financial advisors on household portfolios: a study on private investors switching to financial advice. 2009. Working paper, Goethe University Frankfurt.  
 

4 thoughts on “Qual é o impacto da assessoria profissional na carteira de investimentos?”

  1. Uma assessoria é fundamental quando não se tem experiências ou conhecimento no mercado financeiro. Orientações mesmo básicas podem evitar transtornos nas vidas das pessoas principalmente nas aplicações de renda variável, que o retorno não é no prazo ou resultados esperados.

  2. Seria importante um estudo similar a esse no Brasil, porque a cultura, conjuntura e realidade da Alemanha são muito diferentes do Brasil; e além disso o hábito de poupar ou investir no Brasil é minimo, os brasileiros preferem usar os recursos de imediato e financiar suas compras, pagando juros e comprometendo sua renda mensal. Antes de investir e escolher os produtos mais adequados (diversificar alinhado ao perfil de cada investidor), é preciso trabalhar na disciplina de fazer e seguir um orçamento e planejar o futuro.

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