Um recente artigo da RSA, intitulado Wired for Imprudence, defende que o cérebro humano não é naturalmente projetado para lidar bem com dinheiro e que, ao contrário, somos todos “programados para a imprudência”.

Segundo o artigo, algumas características humanas, somadas a fatores externos, são responsáveis por comprometer as nossas habilidades financeiras, constituindo-se em verdadeiros obstáculos à defesa dos nossos interesses financeiros:

  1. Sobrecarga cognitiva: ter que lidar com muitas questões ao mesmo tempo prejudica a tomada de decisões, pois gera uma tendência a optar pelo mais simples de entender ou de fazer, e não pelo mais vantajoso financeiramente;
  2. Lacunas de empatia: por ter dificuldade de se imaginar em um estado diferente do qual se encontra no momento da tomada de decisão (fome, dor, raiva etc.), é comum uma pessoa subestimar o impacto de tais estados “viscerais” em seu comportamento; ou seja, é difícil perceber que, por exemplo, quando vai ao mercado com fome, compra mais comida do que necessita;
  3. Otimismo e autoconfiança excessivos: expectativas não realistas a respeito do futuro, do grau de conhecimento financeiro que possui e da capacidade que tem de tomar decisões financeiras podem levar a atitudes imprudentes, tais como correr riscos excessivos, não constituir reservas suficientes, negociar em excesso etc.;
  4. Gratificação instantânea: a necessidade de gratificação imediata pode não só incentivar as decisões por impulso, mas atrapalhar a formação de reservas financeiras, que depende da capacidade de adiar satisfação com foco no longo prazo;
  5. Hábitos financeiros prejudiciais: atitudes insensatas em relação a finanças, quando são tomadas de modo frequente, transformando-se em hábitos, podem levar a graves dificuldades financeiras por seu efeito cumulativo; e
  6. Influência das normas sociais: a pressão social é responsável por influenciar decisões financeiras, como por exemplo, a tentativa de manter um padrão de vida acima do nível de renda, gerando endividamento.

No artigo mencionado, cada uma dessas barreiras é explorada com maior profundidade. São analisadas as maneiras como elas afetam a capacidade de decisão, na tentativa de explicar por que nem sempre a educação financeira (conhecimento financeiro) se traduz em habilidade financeira (tomar as atitudes mais benéficas financeiramente).

Segundo os autores, para que o conhecimento se transforme em habilidade é necessário melhorar sua forma de transmissão. Para tanto, sugerem:

  • Ensinar heurísticas (estratégias baseadas na ação) ao invés de conceitos;
  • Desenvolver programas focados na experiência, ou seja, tirando a ênfase do conhecimento e passando-a para o comportamento, a fim de criar oportunidades para aplicação prática das habilidades aprendidas; e
  • Oferecer uma educação oportuna, ou seja, ensinar os conceitos básicos o mais cedo possível e reforçá-los em momentos cruciais, quando a pessoa for tomar as decisões financeiras mais importantes.

Por fim, cabe lembrar que o bem-estar financeiro é produto de um conjunto de diversos fatores e que a educação financeira é apenas um deles. No entanto, sua contribuição se tornará cada vez mais importante na medida em que for usada com sucesso para conscientizar as pessoas de suas limitações na tomada de decisão e para ajudar na formação de hábitos financeiros saudáveis.

5 thoughts on “Programados para a Imprudência?

  1. Bom dia,

    Excelente tema de pesquisa, também é o tema da minha dissertação de mestrado em Finanças, PUC – São Paulo.
    As finanças modernas estão preocupadas em entender o ser humano, pois ele é um agente que participa das decisões financeiras que não são racionais como as teorias de finanças padronizas.
    Grata,
    Abs.
    Marilú Rodriguez e Rodrigues

  2. Nossa eu me vejo em cada parágrafo desses…Tenho muita vontade de aprender a ter um controle psicológico melhorado, principalmente na hora de saber sair, na hora dos prejuízos…

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