Desde 2009, os americanos vêm conduzindo levantamentos periódicos, representativos de sua população, para medir a capacidade financeira de seus cidadãos.

O termo “capacidade”, que optamos por traduzir livremente do inglês “capability”, é um conceito multidimensional que abrange tanto o conhecimento quanto a habilidade e tanto o acesso a recursos quanto sua posse.

Assim, medir a capacidade financeira significa saber se as pessoas estão ganhando o suficiente para o próprio sustento; acessando e utilizando corretamente os produtos financeiros; tomando decisões financeiras conscientes e informadas; e planejando seu futuro.

O National Financial Capability Study (NFCS) foi realizado nos anos de 2009, 2012 e 2015 pela FINRA (Financial Industry Regulatory Authority) e pela GFLEC (Global Financial Literacy Education Center).

Os resultados do último, apresentados recentemente, apontam que quem vem se beneficiando da recuperação econômica do país é apenas a parte da população com maior grau de educação e renda, enquanto os mais jovens, os menos escolarizados e os mais pobres (com renda familiar inferior a 25 mil dólares por ano), além de negros e hispânicos, apresentaram pouca ou nenhuma evolução quanto aos índices de 2009.

No que se refere a prover o próprio sustento, o estudo de 2015 mostra que, embora tenha aumentado o número de pessoas que dizem conseguir pagar as contas, mais de um quarto da população deixou de utilizar algum serviço médico por causa dos custos.

No tocante ao planejamento para o futuro, aumentou de 40% para 46% a quantidade de cidadãos que afirmam ter pelo menos o equivalente a três salários guardados para emergências. No entanto, apenas 39% sabem calcular o quanto precisam economizar para a aposentadoria e mais da metade se preocupa com a possibilidade de ficar sem dinheiro na velhice.

Quanto ao acesso e utilização de produtos financeiros, vem aumentando o percentual de proprietários de imóveis que já quitaram ao menos 20% do valor (24% em 2009, 29% em 2012 e 33% em 2015). E mais da metade dos portadores de cartão de crédito relata que sempre paga o total da fatura. No entanto, dos jovens que possuem crédito estudantil, 37% já atrasaram o pagamento ao menos uma vez e 25% deles, mais de uma vez.

Finalmente, a respeito do conhecimento financeiro e de seu uso na tomada de decisões, diminuiu o percentual de americanos que conseguiram responder corretamente a 4 de 5 questões sobre letramento financeiro (de 42% em 2009 para 37% em 2015), embora esteja mais positiva a percepção dos americanos sobre seu próprio conhecimento financeiro.

Diante de tais resultados, podemos nos perguntar: por que saber tudo isso é importante para um país?

Que lição o Brasil poderia tirar das conclusões do estudo americano?

Um aspecto interessante do NFCS é a busca de uma possível correlação entre a capacidade e a educação financeira do indivíduo. Um dos achados, por exemplo, é que quem tem educação financeira tem também maior propensão a se planejar para futuras adversidades e para a aposentadoria.

Assim, uma das repercussões possíveis de estudos como este é sua aplicação em políticas públicas, especialmente no que diz respeito a saber quais são os segmentos mais vulneráveis da população, em quais pontos essa vulnerabilidade é maior e como as ações, tanto educacionais quanto de proteção, devem ser desenhadas para melhorar sua situação.

A exclusão financeira pode se dar por vários motivos – impossibilidade de acesso a produtos financeiros ou dificuldade de uso, maus hábitos financeiros, incapacidade de compreensão, etc. Saber, por exemplo, se o maior problema está no acesso ou no uso faz toda diferença para  combatê-lo, pois a abordagem é diferente conforme o caso.

Além disso, o levantamento periódico de tais informações, a fim de verificar o que melhora e o que piora com o tempo, pode fornecer uma indicação da efetividade de tais políticas e da necessidade de uma eventual mudança de rumo.

E você? Acha que um estudo como esse poderia ser útil para medir a capacidade financeira dos brasileiros? Acredita que a educação financeira pode mudar a forma com que as pessoas tomam decisões relacionadas ao futuro?
Aguardamos a sua opinião!

4 thoughts on “Por que medir a capacidade financeira dos cidadãos?

  1. Infelizmente no Brasil a maioria das pessoas que possuem alguma reserva preferem investir em poupança por desconhecimento… Imaginar que cerca de um pouco mais de 0,3 % da população investe em bolsa de valores, faz a gente pensar que ainda estamos muito longe de alguma situação razoável

    1. Olá Yuri,

      Agradecemos o comentário!
      Temos trabalhado duro para conseguir levar mais educação financeira para a população, mas é um trabalho de longo prazo.

      Atenciosamente,
      Equipe COP/CVM.

    1. Olá Vinicius,

      Desconhecemos pesquisa brasileira que meça a capacidade financeira dos nossos cidadãos. Um estudo com cerca de 130 mil respondentes, como o americano, é difícil de realizar e bem caro.
      No entanto, acreditamos ser importante uma iniciativa desse tipo no país, a fim de direcionar melhor os esforços e os gastos com Educação Financeira.

      Atenciosamente,
      Equipe COP/CVM.

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