Há relação entre o grau de conhecimento financeiro de uma pessoa e alguns traços de sua personalidade?

A fim de tentar ao menos começar a responder perguntas como essa, preparamos uma pesquisa que reúne tanto questões sobre finanças quanto itens sobre fatores de personalidade.

Disponibilizamos aqui um link para a Pesquisa da CVM sobre Educação Financeira e Fatores de Personalidade e pedimos aos leitores do blog que respondam e divulguem. Posteriormente, apresentaremos o resultado em uma nova publicação.

A seguir, aproveitamos para explicar um pouco mais de cada um dos trabalhos utilizados na elaboração do questionário:

A partir de um estudo da FINRA sobre fraudes financeiras, denominado Financial Fraud and Fraud Susceptibility in the United States[1], que investigou a possível correlação entre alguns fatores de personalidade e a suscetibilidade a fraudes, resolvemos investigar a existência de uma eventual correlação entre esses fatores de personalidade e o nível de conhecimento financeiro das pessoas.

Para medir o grau de conhecimento, traduzimos as perguntas conhecidas como Big Three (Três Grandes), aplicadas por Lusardi e Mitchell em pessoas de vários países. Como as autoras explicam no artigo Financial Literacy and Economic Outcomes: Evidence and Policy Implications (2015)[2], a vantagem do uso dessas três perguntas é que elas são, ao mesmo tempo, simples, relevantes, breves e boas para diferenciar.

Além das Big Three, a fim de medir os fatores de personalidade, utilizamos as perguntas do Inventário dos 5 Grandes Fatores de Personalidade (Big Five Inventory), em sua versão curta (BFI-10)[3], também utilizada no mencionado estudo da FINRA. A tradução das perguntas do Big Five para o Português foi extraída da validação para o Brasil realizada por Andrade (2008)[4].

O Inventário dos Cinco grandes Fatores de Personalidade (Big Five) [5] é uma das mais aceitas, utilizadas e estudadas medidas de personalidade e tem sido amplamente utilizado em pesquisas por ser considerado capaz de oferecer uma representação adequada da personalidade, por sua replicabilidade em diferentes culturas e por sua facilidade e rapidez de aplicação.

Originalmente, é um teste breve, de autorrelato, composto por 44 itens e projetado para avaliar as cinco grandes dimensões da personalidade: Abertura (a novas experiências); Conscienciosidade (escrupulosidade); Extroversão; Amabilidade e Neuroticismo (instabilidade emocional).

Segundo Srivastava[6], a estrutura do Big Five deriva de análises probabilísticas a respeito de quais traços tendem a ocorrer juntos nas descrições que as pessoas fazem de si mesmas ou de outras pessoas. No entanto, ainda que trate de dimensões importantes da personalidade, é insuficiente para compreender todos os aspectos.

Cabe destacar que mesmo o mais amplo e profundo perfil dos traços de personalidade de uma pessoa é incapaz de dar conta de toda a complexidade de sua personalidade. Portanto, um inventário de apenas 10 perguntas, como o apresentado nesta pesquisa, pretende levantar apenas aspectos gerais da personalidade, na tentativa de verificar somente se existe alguma possível correlação com o grau de educação financeira.

Encontrada tal correlação, sugere-se um aprofundamento da investigação, tanto dos fatores de personalidade que mais impactam no comportamento financeiro, quanto de como adequar as ações de educação financeira a pessoas de diferentes perfis.

Por fim, cabe também lembrar que a educação financeira está diretamente ligada aos padrões de comportamento em relação a investimento, poupança, consumo e endividamento, tendo significativas implicações no âmbito das políticas públicas na área de regulação financeira.

Referências

[1] Financial Fraud and Fraud Susceptibility in the United States. Research Report – Prepared for the FINRA Investor Education Foundation. September, 2013. http://www.finrafoundation.org/web/groups/sai/@sai/documents/sai_original_content/p337731.pdf

[2] Mitchell, Olivia S. and Lusardi, Annamaria, Financial Literacy and Economic Outcomes: Evidence and Policy Implications (January 7, 2015). Disponível em http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2568732.

[3] Rammstedt, B. & John, O. P. (2007). Measuring personality in one minute or less: A 10-item short version of the Big Five Inventory in English and German. Journal of Research in Personality, 41, 203-212.

[4] Andrade, Josemberg M. Evidências de validade do inventário dos cinco grandes fatores de personalidade para o Brasil. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, Brasília. 2008. Disponível em http://hdl.handle.net/10482/1751.

[5] John, O. P., Naumann, L. P., & Soto, C. J. (2008). Paradigm Shift to the Integrative Big-Five Trait Taxonomy: History, Measurement, and Conceptual Issues. In O. P. John, R. W. Robins, & L. A. Pervin (Eds.), Handbook of personality: Theory and research (pp. 114-158). New York, NY: Guilford Press.

John, O. P., Donahue, E. M., & Kentle, R. L. (1991). The Big Five Inventory–Versions 4a and 54. Berkeley, CA: University of California,Berkeley, Institute of Personality and Social Research.

Benet-Martinez, V., & John, O. P. (1998). Los Cinco Grandes across cultures and ethnic groups: Multitrait multimethod analyses of the Big Five in Spanish and English. Journal of Personality and Social Psychology, 75, 729-750.

[6] Srivastava, Sanjay. Measuring the Big Five Personality Factors. Disponível em http://psdlab.uoregon.edu/bigfive.html. Acesso: 29 jun 2015.

 

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