O termo “arquitetura de escolhas” (choice architecture) foi cunhado por Thaler e Sustein no livro Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth and Happiness. Ele se refere ao fato de que as nossas decisões podem ser afetadas pela maneira como as opções nos são apresentadas.

No artigo intitulado Choice Architecture Matters: The Case of Investor Protection within the Italian Crowdfunding Market, Brodi e Motterlini afirmam que os formuladores de políticas públicas (ao menos na área financeira) são arquitetos de escolhas, no sentido de que cabe a eles selecionar as informações que devem ser divulgadas ao mercado e em que formato.

O artigo de Brodi e Motterlini tem o objetivo de avaliar a nova regulação italiana de crowdfunding do ponto de vista comportamental. No entanto, suas conclusões também podem ser aplicadas à regulação financeira de forma geral, já que estão relacionados à proteção do investidor.

De acordo com os autores, o papel de uma regulação verdadeiramente orientada segundo o comportamento é ajudar o indivíduo a conhecer seus vieses cognitivos e a lidar melhor com eles na tomada de decisões.

Os autores apontam os vieses que mais afetam o investidor italiano médio, a partir de informações de uma pesquisa realizada com 2.000 pessoas, entre profissionais da área financeira e não profissionais, para medir seus principais erros na hora de realizar transações financeiras.

A seguir, analisam a abordagem utilizada pelo regulador italiano, quanto à obrigatoriedade de divulgação de informações, para verificar quais informações os portais de crowdfunding e as startups estão sendo obrigados a fornecer aos investidores italianos, e em que formato, além de identificar quais as garantias concebidas pelo regulador para proteger a liberdade de escolha do investidor.

São também discutidos os ajustes necessários para aprimorar a regulação, pois defendem que

o verdadeiro objetivo do regulador, mais do que simplesmente eleger a estratégia de divulgação mais adequada, é promover o ambiente mais propício à tomada de decisões.

A conclusão dos autores, ao comparar a lista dos vieses encontrados na pesquisa com a estratégia de divulgação definida pelo órgão regulador, é que a informação que a lei obriga o mercado a divulgar é insuficiente para fazer frente a todas as possíveis falhas de percepção e de julgamento dos investidores.

Segundo Brodi e Motterlini, desenvolver uma política pública totalmente baseada na observação de processos reais de tomada de decisão é o único caminho para mitigar de maneira apropriada os erros de avaliação mais relevantes.

Nesse sentido, os principais ajustes propostos incluem:

  • tornar obrigatória a divulgação de informações que incentivem os investidores a monitorar e administrar o próprio portfólio;
  • adiar a divulgação de informações irrelevantes para a tomada de decisão; e
  • tornar obrigatória a adoção de documentos pré-contratuais padronizados, cujo formato e conteúdo deve ser elaborado com a ajuda de especialistas em cognição e linguística.

Finalmente, os autores perguntam se valeria a pena imaginar uma nova garantia a ser introduzida no arcabouço regulatório: a exigência de que, antes de começar a investir, cada investidor tivesse que fazer um teste para revelar suas principais falhas cognitivas.

Em tese, ao passar pelo teste, o investidor seria guiado através de suas principais armadilhas mentais e se tornaria progressivamente consciente de suas crenças e preferências internas, ficando preparado para tomar melhores decisões.

4 thoughts on “O Regulador como Arquiteto de Escolhas

  1. Em termos de regulação acredito que a CVM esteja anos luz à frente. Falta mesmo fazer a informação chegar de modo atraente, sedutor, ao investidor, especialmente pequenos e médios. Tenho a impressão de que o brasileiro paga o preço da preguiça, afinal as informações são públicas e de fácil acesso. Basta controlar a euforia e a ansiedade e ler com calma antes de meter os pés pelas mãos em decisões de investimento.

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