A Financial Conduct Authority (FCA), órgão inglês de proteção ao consumidor de serviços financeiros, conduziu uma enquete no início de 2016, com 2.300 pessoas acima de 55 anos, e chegou à conclusão de que o risco de fraude contra esse grupo é bastante elevado.

As baixas taxas de juros foram identificadas como o fator-chave na exposição dessas pessoas a golpes, por torná-las mais inclinadas a assumir riscos à procura de retornos mais altos. No entanto, precisamos nos perguntar se isso é suficiente para responder por que essas pessoas são mais sujeitas a cair em armadilhas financeiras do que outras.

Quais aspectos comportamentais podem estar em jogo na vulnerabilidade dos idosos?

Entender essa questão deve interessar a toda a sociedade, pois ficamos mais velhos a cada dia que passa e precisamos proteger nosso patrimônio da ação de golpistas. Para tanto, é necessário compreendermos como agem os fraudadores.

Segundo a FCA, eles atuam em diferentes papéis¹:

  • Preparador, cuja função é capturar os nossos dados, geralmente com a justificativa de fazer uma pesquisa ou de enviar um “brinde” pelo correio;
  • Iniciador, cuja atribuição é fazer amizade e ganhar nossa confiança, nos fazendo sentir especiais;
  • Instigador, que tem a missão de nos atrair para um investimento que acharemos difícil de resistir;
  • Finalizador, cujo objetivo é nos convencer de que não podemos perder a oferta e nos pressionar a transferir o dinheiro; e
  • Escritório de Recuperação, cujo papel é nos persuadir a pagar antecipadamente para recuperarmos o dinheiro perdido.

A maneira como esses embusteiros chegam até suas vítimas é geralmente pelo telefone, sem ter sido requisitados. Por isso, um dos mais importantes alertas de fraude é o recebimento de uma oferta não solicitada de investimento financeiro por pessoas ou empresas desconhecidas.

A princípio, parece estranho que alguém receba um telefonema de um desconhecido, sobre uma oferta de investimento imperdível, sem desconfiar. Pior do que isso, aceite transferir dinheiro sem ao menos checar informações mínimas para certificar-se de que não se trata de golpe.

O que será que faz pessoas racionais e informadas adotarem tal comportamento?

Estudos sugerem que a vulnerabilidade dos idosos a fraudes é um fenômeno multidimensional, envolvendo pelo menos três fatores: adoecimento; declínio cognitivo e isolamento social.

Em resumo, o adoecimento deixa o idoso debilitado, o declínio cognitivo prejudica a capacidade de tomar decisões e o isolamento social provoca fragilidade emocional e desinformação.

Além disso, mesmo os adultos saudáveis de mais idade têm uma tendência a superenfatizar os potenciais benefícios e subestimar os riscos na hora de fazerem uma escolha financeira.

Pesquisas com o uso de neuroimagens mostram que o cérebro dos idosos é menos capaz de antecipar riscos do que o dos mais jovens e que é menos afetado emocionalmente por eventuais perdas.

Essa diferença pode deixar os mais velhos muito mais suscetíveis ao tipo de apelo publicitário que enfatiza o lado positivo dos investimentos e minimiza os riscos e os custos.

Ou seja, o idoso é mais propenso que o jovem a acreditar que existe “almoço grátis”, pois ele tem dificuldade de identificar quando uma oferta é boa demais para ser verdade.

Segundo os pesquisadores, a experiência tem um papel importante na vida financeira das pessoas. Porém, apesar de aumentar com o tempo, chega a um ponto em que suas vantagens começam a ser ultrapassadas pelas consequências do declínio cognitivo, que inclui o empobrecimento de funções como memória, julgamento e velocidade de processamento de informações.

Uma maneira de minimizar tais problemas é lembrar aos mais velhos, entre outras coisas, a:

  • Prestar mais atenção ao lado negativo das ofertas de investimento;
  • Não abrir e-mails nem atender chamadas de pessoas desconhecidas;
  • Esperar alguns dias antes de tomar uma decisão financeira importante, evitando fazer isso por impulso, no calor da emoção;
  • Desconfiar de quem fizer pressão para que tomem decisão apressadamente ou para que antecipem algum valor; e
  • Procurar ajuda profissional ou trocar informações com pessoas de confiança antes de tomar decisões financeiras.

E você? Já sofreu ou conhece algum caso de fraude financeira contra idosos? Em sua opinião, qual a pior armadilha utilizada pelos golpistas?

Aguardamos seus comentários!

¹ Os nomes dos papéis não guardam exata correlação com os utilizados pela FCA porque achamos que a tradução literal prejudicaria a compreensão. Assim sendo, optamos por adotar nomes que fizessem mais sentido na língua portuguesa, mas seguindo a definição estabelecida pela FCA.

3 thoughts on “O que Torna o Idoso mais Vulnerável a Fraudes?

  1. É realmente lamentável ver armadilhas financeiras que são totalmente focadas nos idosos tendo tanta facilidade de veiculação.
    A minha própria avó já foi vitima de uma dessas armadilhas, tendo a sua já pouca aposentadoria diminuída.

    Ótimo artigo, as pessoas precisam de fato estarem mais atentas à esses casos.

  2. Prestemos atenção aos nossos idosos, divulgando este artigo.
    Os investidores de todas as idades devem refletir s/ ofertas que estimula a ganancia o ser humano.
    Como identificar? Examinando e lendo artigos como este.

    1. Oi Marcos,

      Agradecemos seu comentário!
      A CVM tem trabalhado junto com o Ministério Público e órgãos como o NUDECON para ajudar a prevenir a violência financeira contra o idoso. No entanto, é preciso que cada cidadão faça sua parte, denunciando abusos e orientando os idosos que conhece para que não sejam vítimas de golpes.

      atenciosamente,
      COP/CVM

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