As crianças podem adquirir comportamentos econômicos e hábitos a partir da observação de outras pessoas ou a partir de suas próprias experiências. Buscando mostrar como o aumento do nível de autocontrole ou a indução de orientação de autorregulação podem afetar as decisões econômicas das crianças, as autoras Agata Trzcińska, Katarzyna Sekścińska e Dominika Maison publicaram, no inicio de agosto, o artigo The role of self-control and regulatory foci in money-saving behaviours among children¹. Elas estavam interessadas em saber ​​se a ativação mental de autocontrole não relacionado ao comportamento financeiro é suficiente para influenciar não só as decisões financeiras hipotéticas, mas também comportamentos econômicos.

Autocontrole é uma habilidade capaz de alterar a resposta automática e as tendências do indivíduo para respostas que regulem seu comportamento. Um dos domínios da vida que pode ser altamente influenciado pelo autocontrole é a eficácia em poupar dinheiro, que pode ser uma consequência da capacidade de adiar a gratificação. Já a autorregulação trata do processo de busca de um objetivo, por exemplo, as etapas que as pessoas usam para realizar uma tarefa. Estudos indicam que a orientação de autorregulação crônica se desenvolve a partir de uma idade precoce através de processos de socialização. No entanto, a orientação de autorregulação situacional pode ser influenciada pelas características da tarefa e pode ser induzida por diferentes ferramentas de iniciação de síntese.

A partir dessas evidências as autoras fizeram três estudos, realizados com a participação de crianças polonesas com idades entre 9 e 11 anos em escolas primárias públicas em Varsóvia, onde buscaram responder as seguintes questões: chamar a atenção da criança para a importância do autocontrole pode modificar o comportamento econômico da mesma? Pode a indução de autorregulação (investimento vs prevenção) modificar o comportamento econômico da criança?

 

Estudo 1 – Pré-teste

Com o objetivo de verificar a hipótese de interesse, as pesquisadoras realizaram um pré-teste. O mesmo foi necessário devido ao fato de haver pesquisas anteriores indicando a relação entre autocontrole e decisões econômicas apenas em adolescentes, mas não em crianças de 9 a 11 anos de idade. Além disso, esses estudos analisaram ​​decisões econômicas hipotéticas, enquanto a pesquisa queria investigar comportamentos econômicos reais.

No início do estudo, todas as crianças receberam cinco fichas do pesquisador e foram apresentados com duas opções: (a) trocar as fichas obtidas por produtos reais ou (b) depositar as fichas por uma semana. Todas as crianças foram informadas de que aqueles que depositassem suas cinco fichas obteriam seis fichas ao final de uma semana, em vez de cinco e em seguida, eles seriam capazes de usá-las para consumir os mesmos produtos anteriores. Toda criança poderia escolher apenas uma opção: depósito ou consumo imediato.

O autocontrole foi medido por um questionário de autorrelato, o qual consistiu em cinco perguntas e que as crianças preencheram sete dias após a escolha de depositar ou consumir imediatamente as suas fichas.

A hipótese das pesquisadoras de que as crianças que apresentaram maiores níveis de autocontrole nas respostas do questionário teriam maior disposição para a economia do que para o consumo imediato foi confirmada.

 

Estudos 2 e 3

Após os resultados obtidos no pré-teste, no segundo e terceiro estudos as autoras quiseram responder à questão de saber se o comportamento econômico da criança poderia ser modificado chamando a atenção para a importância do autocontrole e da orientação de autorregulação.

Ambos os estudos foram similares e consistiram de duas partes executadas por diferentes experimentadores: (1) manipulação experimental e verificação de eficácia; (2) medida do comportamento financeiro (escolha de poupança ou consumo imediato).

A fase de manipulação experimental e verificação de eficácia do estudo 2, que procurou induzir o autocontrole, foi conduzida individualmente com cada criança, aleatoriamente designados para a condição experimental (n = 76) ou a condição de controle (n = 82).

Um experimentador mostrou à criança um curto filme de animação que esclareceu o que era o autocontrole e sua importância ou um filme sobre os benefícios do ciclismo para o grupo de controle.

 Na fase de manipulação experimental e verificação de eficácia do estudo 3, que buscou induzir a orientação de autorregulação, participantes foram aleatoriamente atribuídos a um de três grupos: (a) indução de autorregulação para a prevenção, (b) indução de autorregulação para investimento ou (c) grupo de controle.

De modo a induzir a orientação de autorregulação, foram usados filmes especialmente criados para o experimento. Cada filme consistiu em duas partes: A primeira parte explicou em quais os aspectos da vida a habilidade de autorregulação podem ser úteis. A segunda parte do filme apresentou alguns exemplos da vida real.  Aos participantes do grupo (a), a fim de induzir o foco prevenção, o filme explicou que a motivação é uma habilidade que ajuda a pessoa a se concentrar em evitar fracassos e derrotas e tomar decisões seguras. Já aos participantes do grupo (b), o filme apresentado esclareceu, entre outros pontos, que a motivação é uma habilidade que ajuda a concentrar-se em ter sucesso e realizar objetivos e ajuda a não hesitar ao tomar decisões arriscadas. Na condição de controle, assim como no segundo estudo, foi utilizado o filme sobre ciclismo.

Na segunda parte dos experimentos, as crianças responderam a duas perguntas sobre o filme e passaram pela mesma etapa das fichas realizada no pré-teste.

Os resultados do estudo 2 revelaram que a escolha de economizar foi mais frequente em crianças do grupo tratamento (77,32%) do que no grupo controle (56,10%). Estes dados suportam a hipótese de que chamar a atenção da criança para a importância do autocontrole pode modificar seu comportamento econômico. No entanto, é interessante notar que, em ambos os grupos, independentemente da sua condição, as crianças tendem a escolher a opção de poupança.

Considerando os resultados de pesquisas anteriores, as autoras suspeitavam que os meninos fossem apresentar autocontrole mais fraco do que as meninas; assim, eles teriam mais problemas para adiar a gratificação. De fato, independente de pertencerem ao grupo de tratamento ou controle, 74% das meninas escolheram a opção de poupança, enquanto apenas 58,8% dos meninos fez essa escolha.

Os resultados do estudo 3 mostraram que as crianças que participaram do experimento de indução ao foco de investimentos escolheram a opção de poupança com maior frequência do que a esperada, enquanto as crianças que participaram do experimento com foco em prevenção escolheram a opção de poupança com menor frequência do que a esperada. E o grupo de controle teve o comportamento esperado.

O que você acha? O desenvolvimento do autocontrole em crianças pode levar a indivíduos que tomam melhores decisões econômicas? Deixe seu comentário!

[¹] Para acessar o artigo original clique aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *