O círculo social influencia as decisões de investimentos?

Você já tomou alguma decisão financeira baseada em dicas ou retornos de seus amigos e/ou familiares? O nosso círculo social determina muito de nosso comportamento e nas finanças não é diferente.Uma pesquisa realizada em 2012 por Bursztyn, Ederer, Ferman e Yuchtman em uma instituição de corretagem financeira brasileira buscou entender a influência exercida por pares em decisões de investimento. Os pesquisadores identificaram que um investidor pode ser influenciado por alguém de seu círculo social a adquirir ativos principalmente por dois motivos: aprendizado social e utilidade social.

O experimento consistia no seguinte: a corretora oferecia um produto financeiro novo para pares de clientes com algum tipo de relação social, com investimento mínimo de R$2.000,00. Devido à ocorrência de diversas comparações no estudo, os pesquisadores deveriam garantir que o ativo oferecido fosse interessante o suficiente para que os investidores decidissem adquiri-lo. Para isso, foi criado pela corretora um novo produto de Letras de Crédito Imobiliário – LCI (portanto, fora da competência da CVM, por não se tratar de um valor mobiliário) que atendesse às necessidades da pesquisa.Para identificar o efeito dos pares nas decisões de investimento, após oferecer o produto para o Investidor 1 do par, oferecia-se o mesmo para Investidor 2 (foi decidida de forma aleatória a ordem dos indivíduos dentro do par). Porém, para testar ambas as razões das hipóteses formuladas pelos autores, nem todos os investidores 1 conseguiam adquirir o ativo: a corretora implementou um sorteio para que, entre os investidores 1 que escolhessem fazer o investimento, apenas alguns pudessem de fato fazê-lo. Isto foi feito para avaliar a influência da não obtenção do ativo por seu par na decisão de investimento do Investidor 2

Experimento

Depois de selecionados os investidores 1 interessados em obter o ativo, houve uma nova randomização para determinar as informações que seriam recebidas pelo Investidor 2. Criaram-se 3 condições:

  • Condição A: o Investidor 2 não recebe nenhuma informação sobre a decisão do Investidor 1;
  • Condição B: o Investidor 2 recebe informação que o Investidor 1 decidiu adquirir o ativo, mas não conseguiu obtê-lo (o que poderia indicar aprendizado social, porém sem a posse do produto);
  • Condição C: o Investidor 2 recebe a informação de que o Investidor 1 decidiu adquirir o ativo e conseguiu obtê-lo (aprendizado social acompanhado da posse do produto).
Figura: Mapa do design experimental. Bursztyn, Ederer, Ferman, Yuchtman (2014)

Entre janeiro e abril de 2012 os corretores ligaram para 150 pares de clientes os quais já haviam sido identificados previamente, por motivos independentes ao experimento, como tendo uma relação social (48% eram membros da mesma família e 52% amigos). Isso foi muito importante para que as ligações com a oferta para os investidores 2 que mencionavam os investidores 1 demonstrassem a relevância do efeito sobre os pares.

O experimento se deu da seguinte forma: o Investidor 1 recebia uma ligação da corretora com a oportunidade de investimento, sem nenhuma menção ao seu par. Era oferecido o ativo, descrito em detalhe, e explicada a condição do sorteio, por ser uma oferta limitada. De acordo com seu interesse em participar, era feito o sorteio.

Em seguida, era feita a ligação para o Investidor 2, que deveria ser feita no mesmo dia para evitar a comunicação entre os pares antes da oferta ser feita a ambos. A descrição era feita da mesma forma que ao Investidor 1. Então, era feita a randomização de acordo com as condições A, B e C. Se o Investidor 2 decidisse adquirir o ativo, um número aleatório para sorteio era gerado, como no caso do Investidor 1.

Depois de tomadas as decisões de investimento, foi enviado um questionário para medir a sofisticação financeira dos investidores e coletar informações para entender a tomada de decisão dos investidores 2.

Um investidor com maior sofisticação e conhecimento financeiro deveria dar menos valor à informação recebida pela preferência de seu par, considerando mais a qualidade do ativo em si e sua percepção sobre ele. Da mesma forma, se o par possui mais sofisticação financeira que o próprio indivíduo, a preferência daquele demonstra ter maior peso na decisão.

Resultados

Entre os investidores 2 cujos pares escolheram adquirir o ativo, o resultado foi o seguinte:

  • Condição A: 42% escolheram adquirir o ativo;
  • Condição B: 71% decidiram adquirir o ativo (situação definida pelos pesquisadores como “aprendizado social apenas”);
  • Condição C: 93% escolheram adquirir o ativo (situação chamada, pelos pesquisadores, de “aprendizado social mais utilidade social”, indicando que não só os indivíduos aprendem com seus pares como a posse do produto possui um efeito além do aprendizado).

Os autores definiram utilidade social como a utilidade do produto por seu consumo partilhado, citando como exemplo a popularidade de clubes de investimentos. Uma vez que é possível acompanhar o investimento, discutir seus retornos, comparar com outros ativos socialmente, de forma conjunta, ele teria maior utilidade.

No questionário de acompanhamento, os investidores 2 na condição C eram perguntados sobre dois mecanismos. Primeiramente, se ganhar o mesmo que seu par e o questionamento de o que os pares fariam com o retorno eram fatores importantes para sua decisão. Em segundo lugar, se o consumo conjunto do ativo e as discussões referentes ao mesmo foram importantes pra decisão.

Os resultados indicaram a importância de ambos os mecanismos: 60% responderam que queriam ganhar o mesmo que os pares e 80% atribuíram importância ao pensamento do que o par poderia fazer com o retorno. Enquanto isso, 44% admitiram considerar importante o consumo conjunto do ativo e ter alguém com quem discuti-lo.

Os pesquisadores encontraram como resultado que o aprendizado social dos pares possui importância para decisões financeiras, principalmente entre investidores com menos conhecimento financeiro, o que pode beneficiá-los quando acompanhados de pares com maior conhecimento. Por outro lado, quando os investidores ignoram informações sobre o próprio comportamento financeiro ou o mercado financeiro do qual participam, podem ser levados por comportamento de manada. A pesquisa revela ainda que mesmo indivíduos financeiramente educados e informados podem escolher seguir seus pares por razões de utilidade social.

E você, leitor? Costuma fazer investimentos baseado nas indicações de seus amigos e familiares? O que faz você tomar essas decisões?

Referência

Bursztyn, Leonardo and Ederer, Florian and Ferman, Bruno and Yuchtman, Noam (2014) Understanding mechanisms underlying peer effects: evidence from a field experiment on financial decisions. Econometrica, 82 (4). pp. 1273-1301. ISSN 0012-9682

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Sugestões adicionais de leitura:

Kaustia, Markku and Samuli Kn¨upfer, “Peer performance and stock market entry,” Journal of Financial Economics, 2012, 104 (2), 321–338.

Kuhn, Peter, Peter Kooreman, Adriaan Soetevent, and Arie Kapteyn, “The Effects of Lottery Prizes on Winners and Their Neighbors: Evidence from the Dutch Postcode Lottery,” American Economic Review, August 2011, 101 (5), 2226–2247.

Ouimet, Paige & Tate, Geoffrey, 2020. “Learning from Coworkers: Peer Effects on Individual Investment Decisions,” The Journal of Finance, vol 75(1), pages 133-172.

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