Nesta segunda parte do resumo sobre as ideias e aplicações do Financial Capability Lab[i], abordaremos o uso de opções-padrões (default) mais inteligentes para ajudar as pessoas a economizar e pagar suas dívidas mais rapidamente. Quando se fala em opções-padrões para ajudar as pessoas, vale a pena mencionar os insights comportamentais relevantes:

Desconto hiperbólico

A atratividade de descontos e recompensas varia dependendo de quando podemos obtê-las: vamos obtê-las agora ou em um futuro muito próximo, ou apenas as conseguiremos em um futuro mais distante? Se nos for dada a escolha entre receber uma soma menor de dinheiro hoje, em comparação a uma quantia um pouco maior de dinheiro amanhã, temos uma preferência pelo valor menor hoje.

No entanto, se movermos essa mesma escolha entre uma soma menor e um pouco maior no futuro começamos a preferir a maior soma. Isso significa que as pessoas podem estar mais abertas a concordar com as compensações financeiras que acontecem no futuro, onde o impacto é sentido de maneira menos óbvia (ou dolorosa) do que no presente.

Opções padrões

Opções padrões envolvem ter uma escolha pré-selecionada a qual as pessoas podem escolher não seguir, se desejarem. Padrões são poderosos condutores de comportamento: quando uma opção particular é apresentada como a opção padrão, as pessoas têm em média 23% mais chances de continuar com essa opção do que escolher uma opção diferente em uma ampla gama de cenários, incluindo doação de órgãos e investimento.

Ancoragem

O efeito de ancoragem significa que, quando tomamos decisões, muitas vezes confiamos mais e somos indevidamente influenciados pela primeira informação que encontramos.

Aumento nos pagamentos do cartão de crédito

Os pagamentos mínimos são normalmente apresentados com destaque nas faturas enviadas aos titulares de cartão e são um requisito regulatório. Esse reembolso mínimo pode atuar como uma âncora que leva a pagamentos mais baixos.

Com o tempo, isso aumenta significativamente o custo dos cartões de crédito, pois os usuários de cartões estão mantendo dívidas e pagando juros por períodos muito mais longos.

Os desenvolvedores construíram uma interface de pagamento que cumpria os regulamentos atuais de pagamentos mínimos, com o objetivo de ajudar os portadores de cartões a superar o efeito de ancoragem que as informações de pagamento mínimo podem exercer.

Em um experimento on-line, distribuíram aleatoriamente participantes em diferentes designs de interface:

  1. Uma condição de controle baseada no padrão da indústria: uma caixa para inserir o valor do pagamento.
  2. Uma interface deslizante de pagamento mensal padrão para o pagamento mínimo. A escala no controle deslizante passou do pagamento mensal mínimo à esquerda para o máximo disponível no cenário de experiência on-line à direita. A posição padrão do “polegar” (a parte interativa do controle deslizante que é clicado e arrastado para definir o valor do pagamento) estava na extrema esquerda, o pagamento mínimo.
  3. Uma interface deslizante de pagamento mensal com um padrão maior. A única diferença em relação à interface do controle deslizante anterior era a posição padrão do polegar, que nesse caso era definido para o centro do controle deslizante, e não para a extrema esquerda dele.
  4. Uma interface de controle deslizante de tempo com um marcador definindo a data que o cliente desejaria quitar o débito e, a partir daí, o sistema calcula e mostra o pagamento mínimo necessário a partir da data definida.

Nossos resultados mostram aumentos significativos nos pagamentos para todas as interfaces deslizantes testadas, em comparação com o padrão atual da indústria.

Pagar e Poupar

A segunda ideia usa padrões mais inteligentes para ajudar os consumidores a pagar suas dívidas mais rápido e, posteriormente, começar a poupar. Essa ideia é baseada em uma série de fontes comportamentais, de mercado e qualitativas.

“Pagar e Poupar” é uma ideia para um produto financeiro que usa pagamentos automatizados feitos diretamente de salários para ajudar os empregados a pagar suas dívidas mais rapidamente. Também permite que eles façam a transição facilmente para poupança uma vez que eles quitaram suas dívidas.

Assim, permite que as pessoas que pagaram com sucesso as suas dívidas tenham mais dinheiro no banco desde o primeiro mês sem dívidas, encorajando e reforçando o comportamento positivo de poupança.

Conta Sidecar

Um problema significativo para as pessoas é a falta de uma reserva de poupança para ajudá-las a lidar com emergências e custos imprevistos. A ideia da conta sidecar destina-se a ajudar os funcionários a lidar com emergências financeiras, como a quebra de carros ou máquinas de lavar roupa. As contribuições fluem automaticamente para sua conta do fundo de pensão e, outra parte, para a conta auxiliar (sidecar).

 

E você? Acredita que estas ideias poderiam estimular as pessoas a diminuírem suas dívidas e pouparem mais? Deixe seu comentário!

 

[i] Para acessar o artigo original clique aqui.

8 thoughts on “Laboratório de Capacidades Financeiras – Parte II

  1. Insights legais! O mecanismo de ‘prazer imediato’ e ‘dor adiada’ é realmente relevante no comportamento humano e isso também se reflete nas finanças. O ato de comprar/financiar um bem gera prazer, e quanto antes ocorrer, melhor; ao passo que pagar uma dívida é uma dor, portanto, quanto mais tarde, melhor. Por isso é tão difícil cultivar o hábito de poupar, porque se trata de uma dor imediata (desembolso para guardar) com um prazer futuro (acúmulo de patrimônio), ou seja, o inverso do que inconscientemente queremos.

  2. Concordo perfeitamente com as explicações dadas sobre a poupança. As explicações dadas são extremamente esclarecedoras.

  3. Certamente somos muito carentes de poupança, e há grandes insights do marketing o tempo todo nos incentivando ao consumo, ao crédito fácil, aos financiamentos, etc.
    Sem dúvida, são ótimas idéias e precisam ser implementadas cada vez mais na vida dos brasileiros, para nos estimular ao bom controle orçamentário, poupança e investimentos, caso contrário dificilmente nos tornaremos uma nação bem sucedida.

  4. Caros, se possível gostaria de fazer uma correção. Em “Opções padrões” não está completamente correto.

    “Opções padrões envolvem ter uma escolha pré-selecionada a qual as pessoas podem escolher não seguir, se desejarem.”

    Este efeito não envolve necessariamente uma escolha pré-selecionada, dado que isto indica alguma marcação previamente feita. Quando se explica Opção Padrão também deve-se mencionar que quando é possível optar não fazer a escolha (como no famoso caso de doação de órgãos) também há um resultado previamente planejado.

    Para evitar essas questão a sugestão é explicar a Escolha Padrão como a arquitetura da escolha em que o caminho de menor resistência (automático) contempla os interesses do formulador.

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