Na área financeira, os programas governamentais têm sido desenhados tradicionalmente com base em modelos econômicos que consideram os seres humanos como agentes racionais e os mercados como eficientes em relação à informação.

Resumidamente, isso significa acreditar que as pessoas procuram sempre maximizar valor em qualquer tomada de decisão e que, olhando apenas as informações publicamente disponíveis no momento do investimento, ninguém consegue alcançar retornos superiores à média do mercado de modo consistente.

No entanto, estudos sobre comportamento financeiro vêm relativizando a crença na racionalidade das decisões financeiras, além de apontar que os mercados podem não ser assim tão eficientes quanto se imagina.

No que se refere à racionalidade dos investidores, pesquisadores como Kahnemann e Shiller¹ alegam não só que a racionalidade é limitada, mas que a tomada de decisões financeiras pode ser fortemente afetada por vieses cognitivos. Já no que diz respeito à eficiência os mercados, esses pesquisadores dizem que nem sempre os preços dos ativos refletem adequadamente a realidade, tanto que ocorrem as chamadas “bolhas”.

Na verdade, o que vários estudos das ciências comportamentais têm demonstrado é que pequenas diferenças na forma como as opções são apresentadas podem causar grandes impactos na tomada de decisão.

Então, entender como as pessoas respondem a determinados estímulos ou situações é de fundamental importância para a regulação de condutas, seja no sentido compelir as pessoas a agirem de determinadas formas ou de desestimular certas ações.

Consequentemente, alguns reguladores estão enxergando a adoção de “insights comportamentais” como poderosas ferramentas para ajudá-los a desenhar melhores políticas, bem como a avaliar a implantação de programas em pequena escala antes de investir recursos públicos em ações que correm o risco de se mostrar ineficazes no futuro.

Mas, afinal, o que são insigths comportamentais e qual a sua aplicação nas políticas públicas?

Insight  é uma palavra da língua inglesa cuja tradução para o português admite várias possibilidades, tais como “introspecção”, “compreensão interna”, “introvisão”, “vislumbre”, “epifania” “discernimento” e “revelação súbita”, entre outros termos.

O que essas expressões têm em comum é a referência a um aprofundamento na compreensão de um determinado fenômeno, geralmente desencadeado pela descoberta de uma peça-chave de informação, que permite realizar uma síntese entre dados até então desconexos – como no famoso episódio da “eureka!”, supostamente protagonizado pelo matemático grego Arquimedes.

Portanto, “insight comportamental” significa um avanço na compreensão de certos aspectos do comportamento humano, adquirida com base em resultados de estudos e pesquisas das ciências comportamentais.

Dentre esses estudos, têm destaque os que utilizam a abordagem experimental, por meio de Randomized Controlled Trials (Estudos Controlados Randomizados), por ser uma metodologia que seleciona aleatoriamente o grupo de pessoas que recebe a intervenção e que compara o resultado com outro grupo – de mesmas características, mas não afetado pelo estudo – a fim de que os efeitos eventualmente observados possam ser atribuídos com maior probabilidade à intervenção do que a fatores externos.

Assim, a aplicação dos insights comportamentais na formulação de políticas públicas implica em aplicar uma metodologia rigorosa na realização de estudos comportamentais, aprofundando a compreensão de como os seres humanos tomam decisões, reagem a situações e respondem a incentivos. Com isso espera-se garantir a prestação de serviços públicos mais adequados, inclusivos e sustentáveis à população.

¹ Ganhadores do Prêmio Nobel de Economia em 2002 e 2013, respectivamente.

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