O Banco de Compensações Internacionais (BIS), em fevereiro de 2017, publicou o estudo “Understanding the Determinants of Financial Outcomes and Choices: The Role of Noncognitive Abilities”[1], que procura entender a ligação entre as habilidades não cognitivas, bem-estar financeiro e a tomada de decisões financeiras.

O relatório menciona uma pesquisa anterior do banco central americano (FED) para contextualizar a importância do tema. De acordo com o FED, metade da população americana está vulnerável a emergências financeiras: uma despesa não esperada de $400 faria com que essas pessoas se endividassem ou vendessem seus bens. Logo, é de grande importância estudar como as habilidades não cognitivas se relacionam com a probabilidade de fazer escolhas que podem levar a dificuldades financeiras. O estudo usou como base uma amostra de 7.000 cidadãos dos Países Baixos que responderam a uma pesquisa longitudinal de domicílios entre 2008 e 2015.

A primeira etapa do estudo utiliza o “framework” dos cinco grandes traços de personalidade ‒ “Big Five” ‒ que costuma ser utilizado para a mensuração de habilidades não cognitivas. Dois traços em particular foram investigados:  a estabilidade emocional, que se refere à capacidade da pessoa se manter calma frente a situações de pressão e estresse, e a conscienciosidade, a qual descreve a tendência do indivíduo de ser organizado e disciplinado. Foi realizado um teste estatístico para entender a relação entre o fato de estar em dificuldade financeira e os traços de personalidade. Os resultados indicaram que as pessoas que se encontram nos escores dez por cento inferiores (decil mais baixo) para estabilidade emocional e conscienciosidade possuem 10% de probabilidade de sofrerem crises financeiras, enquanto o grupo com os escores máximos (decil mais alto) possui 2% de chance. Além disso, a cada aumento de uma unidade no desvio padrão do score de estabilidade emocional há uma queda de 0,5 ponto percentual na probabilidade de ocorrer uma instabilidade financeira.

O estudo também identificou que maiores graus de estabilidade emocional e conscienciosidade  estão relacionadas de forma estatisticamente significativa à menor probabilidade de estar em grave crise financeira.  Observou-se que as duas habilidades não cognitivas estão inversamente relacionadas à chance de atrasar o pagamento de aluguel, hipoteca ou conta de consumo por três ou mais meses. Também estão inversamente associadas à possibilidade de dispor de quinhentos euros para imprevistos.

A pesquisa também busca entender o comportamento financeiro. Os efeitos marginais mostram uma relação positiva entre propensão à poupança e habilidades não cognitivas, enquanto apenas a conscienciosidade se associa diretamente com planejamento para aposentadoria . Além disso, aponta-se que as pessoas com o emocional mais vulnerável tendem a realizar mais compras por impulso e ter algum tipo de dívida sem garantia ou colateral.

A pesquisa também observou que as habilidades não cognitivas se relacionam com salário, emprego e saúde, influenciando, portanto, indiretamente o bem-estar financeiro por meio desses fatores.

Os resultados do estudo sugerem que indivíduos com baixo nível de habilidades não cognitivas encontram dificuldade em coletar e processar informações, dando valor à expertise de outras pessoas. Em outras palavras, pessoas emocionalmente instáveis provavelmente são mais propensas a procurar aconselhamento financeiro.

Dessa maneira, os pesquisadores argumentam que a formação das habilidades não cognitivas desde a infância é fator crucial para a formação financeira do indivíduo e, portanto, os programas escolares não deveriam focar somente em capacidades cognitivas. Essa mudança de foco poderia resultar em menor incidência de dificuldades financeiras nas famílias e diminuir a disparidade de distribuição de renda, já que uma das suas causas são as decisões financeiras equivocadas. Nesse sentido, políticas públicas que visam aliviar os efeitos das dívidas na população podem ter sua efetividade reduzida se a origem da inadimplência for gerada pelo baixo nível de habilidades não cognitivas.

E você? Acha que as escolas deveriam trabalhar as habilidades não cognitivas dos alunos? Como isso seria possível? Deixe seu comentário!

 

 

 

 

[1]Para acessar o artigo original clique aqui.

7 thoughts on “Habilidades não cognitivas podem afetar decisões financeiras?

  1. Acho que passou da hora de acrescentarmos matérias como Educação Financeira, Inteligência Emocional e algumas outras no currículo escolar.

  2. Muito bom este artigo, penso que é de suma importância ter a matéria “educação financeira” acredito muito que esse é o melhor caminho, mas não aprecio intensificar no sentido de estimular decisões tão precocemente.

  3. Acredito que as habilidades não cognitivas, ou sócio ambientais, devem ser estimuladas na convivência da família, escola, trabalho, etc. Qualidades como autonomia, estabilidade emocional, sociabilidade, resiliência, cusiosidade e perseverança, ajudariam a aplicar os conhecimentos em matemática e ciências.

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