O relatório “Moving forward together – peer support for people with debt problem”[1][2], publicado pelo Money Advice Service – MAS (órgão público responsável pela educação financeira no Reino Unido) em fevereiro de 2017, procurou entender como os grupos de apoio podem auxiliar as pessoas superendividadas na resolução de seus problemas financeiros.

O grupo de apoio é definido como um ambiente de compartilhamento de conhecimento, experiência e ajuda prática entre indivíduos, além de benefício mútuo, baseado na empatia e validação que advêm de experiências similares. Tem como objetivo promover a confiança mútua, auxiliar os indivíduos na autocura e tornar uma situação supostamente anormal em algo mais natural.

Os pesquisadores realizaram uma revisão bibliográfica, entrevistas com mentores e participantes de grupos de apoio já existentes, além de grupos focais. Seus principais resultados foram:

  • Os grupo de apoio possuem grande apelo junto a superendividados: estes reportaram que se sentiriam mais confortáveis de conversar com alguém que também passou por uma situação difícil, pois creem que um aconselhador profissional poderia julgá-los. Eles consideram que colegas que já tiveram experiência com dívida poderão ajudá-los de forma relevante e prática.
  • O grupo proporciona confiança, aumenta o envolvimento com os recursos existentes e ajuda as pessoas a lidar com situações desafiadoras: enquanto o aconselhamento sobre dívidas oferece auxílio técnico e jurídico, o grupo proporciona apoio emocional e prático, ajudando pessoas a tomarem decisões difíceis, agirem e se sustentarem durante situações desafiadoras.
  • O suporte prático é mais atrativo, porém o apoio psicológico tem maior impacto: as pessoas tendem a não reconhecer que precisam de ajuda emocional, mas os integrantes de grupos de apoio confirmaram que este foi o elemento que mais influenciou na sua mudança de comportamento.

Os entrevistados geralmente esperam que o programa de apoio gere benefícios tangíveis, mas ao mesmo tempo não se sentem confortáveis em assumir compromissos firmes. Assim, é recomendável que as iniciativas em seu início busquem proporcionar resultados tão logo possível para conquistar a confiança dos participantes, além de demandar compromisso de forma gradual para que as pessoas possam testar o serviço antes de se comprometerem totalmente com ele. Para superar a preocupação em compartilhar problemas financeiros com um facilitador de grupo possivelmente visto como “estranho” (por não estar endividado como os demais companheiros), é ideal que este seja treinado e/ou certificado, além de reconhecido como tal.

O MAS usou um modelo de “jornada do endividamento” em busca da melhor estrutura de grupo de apoio para ajudar as pessoas em diferentes fases do processo. Segundo o modelo, as pessoas podem se encontrar antes, durante e depois do chamado período de crise, o qual é entendido como o momento em que o indivíduo percebe de forma subjetiva que sua situação está impraticável e necessita de ajuda externa. Para aqueles que estão na fase “antes da crise” é mais adequado mostrar casos de pessoas em quadro similar para ajudá-los a encarar sua própria situação financeira, além de apresentar ferramentas de orçamento e dicas de como economizar. Para os que vivenciam o período de crise, é indicado encorajá-los a procurar ajuda profissional, além de prepará-los para compartilhar sua situação com familiares e alterar seu modo de vida. Já os que estão no estágio “após a crise” devem ser ajudados de forma prática, por exemplo, mostrando-lhes como montar seu orçamento e reduzir despesas.

Os grupos de apoio foram bastante empregados em intervenções no campo da saúde, enquanto ainda faltam estudos que avaliem sua efetividade em aplicações em outras áreas. Entretanto, o levantamento do MAS sugere que os grupos podem atingir melhores resultados com o uso de técnicas de mudança de comportamento. As principais técnicas discutidas pelo relatório do órgão são: definição de metas, feedback sobre o comportamento, apoio social, redução de eventuais emoções negativas surgidas com a alteração de hábitos, fornecimento de informações sobre consequências da mudança ou não, comparação social, substituição de comportamento e oferecimento de recompensas.

Os grupos de apoio e o aconselhamento sobre dívidas são métodos complementares. É possível superar o desafio de conseguir participantes para as reuniões quando elas são oferecidas de forma opcional àqueles que já receberam certa dose de orientação.

A partir dos resultados obtidos no relatório, o MAS pretende realizar experimentos para testar uma estrutura de “peer coaching” (treinamento entre pares), em que os participantes recebem conselhos de indivíduos que conseguiram resolver seus problemas financeiros.

Você acredita que a estrutura de grupo de apoio pode auxiliar as pessoas a superarem suas situações de endividamento? Já observou alguma situação desse tipo? Conte para nós, aguardamos o seu comentário!

 

 

 

 

[1] Em português “Caminhando juntos para o futuro – grupo de apoio para pessoas com problemas de dívidas”.

[2] Você pode fazer o download do artigo original aqui.

8 thoughts on “Grupos de apoio podem ajudar pessoas em superendividamento?

  1. Muito bacana o artigo. Acredito sim que grupos de apoio podem auxiliar as pessoas a tomarem decisões mais assertivas e promover a ‘autocura’ dos envolvidos. Fortalecer a cultura da educação financeira, é ampliar o diálogo e o conhecimento entre os indivíduos. Este é mais um exemplo de como a integração dos aspectos socioeconômicos e de governança estão mudando o modo como as pessoas tratam o seu dinheiro, trazendo um novo olhar e fortalecendo uma visão de longo prazo para que cada vez mais os cidadãos tenham condições de planejar suas vidas e de suas famílias.

  2. Achei muito interessante o artigo, pois os grupos podem ser a solução para muitas pessoas superendividadas e que estão em busca de consultoria para melhor administrar suas finanças, ou seja, realizar controle das receitas e despesas. E ainda, os depoimentos de pessoas que já passaram por dificuldades financeiras, e que conseguiram superar o problema, de fato, faz com que o endividado, seja em situação inicial ou já em fase de crise financeira, reavalie seus atos financeiros, e faz o pensar que nunca é tarde para aprender e mudar.
    Acredito que seria prudente formar grupos de apoio nos municípios, e que a iniciativa deveria partir de órgãos públicos, em parceria com instituições financeiras em prol da conscientização sobre a importância da educação financeira para essas pessoas que apresentam dificuldades em administrar suas finanças e também para que seja acessível a toda a sociedade, isto é, aqueles que possuem interesse em aprender mais sobre o assunto.

  3. Bom dia!
    Sou de Palmas-TO e estou atuando na área de educação financeira. Gostaria de juntamente com meu trabalho desenvolver uma ação social. Pensei em estruturar um grupo de apoio, semelhante aos sitados no texto. É possível oferta de suporte e material para que possamos implantar aqui na cidade.
    Grata desde já!
    Atenciosamente;
    Paula Borges

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