O Centro Educacional CVM-OCDE de Letramento Financeiro para América Latina e Caribe em parceria com o Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NuCEC-UFRJ) organizou, nos últimos seis meses, o Grupo de Estudos de Antropologia das Finanças (GEAF). Versando temas financeiros a partir das contribuições da antropologia e sociologia, a iniciativa buscou servir como espaço de diálogo e aprendizagem entre profissionais do mercado financeiro, servidores públicos, estudantes, professores e demais interessados.

Com um encontro presencial realizado na sede da CVM-RJ para cada unidade temática, os encontros foram orientados pelos seguintes eixos: 1) Dinheiro e dívida, 2) Profissionais do mercado financeiro e seus trabalhos, 3) A construção das finanças em perspectiva histórica, 4) A infraestrutura, as teorias e as tecnologias das finanças, 5) Endividamento e políticas governamentais, e 6) Regulação e crises do mercado. A seguir vamos compartilhar a bibliografia abordada e os principais temas discutidos nos três primeiros encontros e, na semana que vem, cobriremos as últimas três sessões.

1. DINHEIRO E DÍVIDA

Na primeira unidade temática, foram discutidos os diferentes significados do dinheiro. Na economia clássica costuma-se considerar o dinheiro como meio de troca neutro e universal, princípio teoricamente expresso no conceito de fungibilidade: o dinheiro permanece o mesmo independente das configurações sociais ou dos participantes nas trocas econômicas. No entanto, a partir dos conceitos de “contabilidade mental” e “significações relacionais” o grupo observou que diferentes relações sociais, emoções, preocupações morais e instituições moldam a maneira como criamos, damos sentido e utilizamos o dinheiro, traçando os limites da teoria da fungibilidade.

Bibliografia:

Bandelj, N.; Wherry, F. F. & Zelizer, V. A. (Org.). (2017) Money Talks: Explaining How Money Really Works. Princeton: Princeton University Press.

2. PROFISSIONAIS DO MERCADO FINANCEIRO E SEUS TRABALHOS

Com base em estudo etnográfico, a segunda unidade temática concentrou a discussão nos modos como diferentes organizações econômicas variam de acordo com os valores e hábitos locais. Ao descrever o cotidiano dos traders, principalmente os investidores de varejo que operavam pelo home broker, a etnografia permitiu perceber que suas ações e decisões também se baseavam em fatores sociais e não somente em motivações econômicas. Também foi possível elaborar como decisões, sonhos, pressões e expectativas moldam o comportamento desses indivíduos. Nesse sentido, percebe-se uma relação entre modos de sociabilidade, crenças e valores, assim como seus impactos na formação institucional dos mercados financeiros.

Bibliografia:

Preda, A. (2017). Noise: Living and Trading in Electronic Finance. Chicago: University of Chicago Press.

3. A CONSTRUÇÃO DAS FINANÇAS EM PERSPECTIVA HISTÓRICA

Nessa unidade, buscou-se trabalhar o surgimento dos mercados financeiros a partir de uma perspectiva histórica. O texto discutido buscou a emergência da crença de como o livre mercado (“laissez-faire”) seria capaz de providenciar segurança e justiça para todos. Analisando o mercado de ações dos Estados Unidos, as teorias de economia política emergentes e os debates mais relevantes sobre reforma econômica, a análise da autora remonta como a inicial antipatia ao universo financeiro foi paulatinamente perdendo espaço a ponto de o mercado financeiro integrar o cotidiano das pessoas, como é hoje.

Bibliografia:

Ott, J. C. (2011) When Wall Street Met Main Street: The Quest for an Investors’ Democracy. Cambridge, MA: Harvard University Press.

9 thoughts on “Grupo de Estudos de Antropologia das Finanças (parte 1)

    1. Obrigado pelos comentários! Estamos tentando viabilizar algo para São Paulo e esperamos ter notícias em breve. As discussões descritas no post já ocorreram no Rio e não foi possível guardar registro audiovisual. Para quem tem interesse no assunto, sugerimos ler os textos indicados além de dirigir eventuais dúvidas e comentários para cop@cvm.gov.br

  1. Voltamos a pensar em trazer o grupo de estudos para SP? Quero muito participar. Nao vindo para SP podemos tentar via skype? Dou aula de Economia Comportamental e vou dar aula de cultura e sociedade do consumo na ESPM em SP. O tema super me interessa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *