Fragilidade financeira é um termo cunhado por Hyman Minsky para definir a vulnerabilidade de um determinado sistema financeiro a crises. Lusardi, Schneider e Tufano estudaram a fragilidade financeira do ponto de vista dos lares americanos, examinando sua capacidade para levantar fundos de emergência. A pesquisa avaliou a aptidão das famílias americanas para levantar dois mil dólares, dentro de 30 dias, e comparou-a com a das famílias de sete outros países industrializados.

O estudo demonstrou que quase um quarto da população americana dizia ter certeza de que não teria meios suficientes para levantar a quantia de 2000 dólares em um mês. Somados aos respondentes que “provavelmente” não conseguiriam, chega-se à conclusão de que praticamente a metade dos lares americanos encontra-se em situação de fragilidade financeira.

Alguns resultados já eram esperados, como o fato de que as pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade não apenas são financeiramente frágeis, como seu grau de fragilidade é maior do que o das demais.

No entanto, chama atenção o fato de uma parcela importante da classe média se considerar financeiramente frágil, o que reflete uma das duas possibilidades: ou sua situação financeira é realmente pior do que se espera ou há um alto grau de ansiedade e pessimismo dessas famílias no que se refere a dinheiro. Ambas têm importantes repercussões no que diz respeito ao estudo do comportamento econômico e ao desenvolvimento de políticas públicas.

Para desenvolver melhores políticas públicas é importante compreender tanto as consequências da fragilidade financeira quanto os mecanismos que deram origem a ela. Será que a baixa taxa de poupança é resultado de pouco incentivo fiscal para poupar, de fortes exigências sociais na direção do incentivo ao consumo, da excessiva oferta de crédito ou de quais outros fatores? Será que a dificuldade de levantar uma quantia entre amigos e familiares, quando necessário, é resultado do enfraquecimento dos laços sociais?

A quantia de 2000 dólares está longe de ser desprezível e foi escolhida por equivaler ao custo aproximado de um grande reparo em um automóvel, uma despesa médica relevante, custas judiciais ou uma obra em um imóvel.

É importante lembrar que as respostas à pesquisa podiam refletir tanto a fragilidade financeira real quanto a percebida, uma vez que a pergunta foi:

“o quão confiante você é de que conseguiria levantar 2 mil dólares caso um imprevisto acontecesse dentro de 1 mês?”

Ou seja, a resposta reflete o que o respondente vislumbra que aconteceria ao invés de medir o que realmente acontece. Pode ser, por exemplo, que alguns que acreditam não conseguir essa quantia emprestada se surpreendam com a ajuda de familiares e amigos, caso uma emergência de fato aconteça.

De qualquer forma, sua percepção subjetiva diz muita coisa – até porque a mera expectativa de receber um “não” dos amigos e familiares pode fazê-los desistir de perguntar e recorrer a modalidades de créditos muito mais onerosas. Além disso, a sensação de fragilidade pode ter outros impactos negativos em suas decisões financeiras, como fazê-los liquidar posições antecipadamente por conta de mera ansiedade.

A esse respeito, a Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association), que conduz uma pesquisa anual nos Estados Unidos, cujo objetivo é medir o estresse, identificou, na edição de 2014, justamente o dinheiro como o maior causador de estresse, entre os fatores identificados pelos respondentes: 71% afirmaram sentir-se estressados por motivos financeiros pelo menos uma parte do tempo, enquanto quase 25% classificam seu grau de estresse com questões financeiras como extremo.

Considerando todos os pontos levantados pelos autores, além das importantes contribuições de outros pesquisadores ao final do artigo, é possível perceber a importância do estudo da fragilidade financeira de uma população, a fim de compreender suas origens e repercussões, para desenhar políticas públicas que possam realmente contribuir para a melhoria do bem-estar financeiro.

Por fim, tendo em conta que a fragilidade financeira tem um forte componente subjetivo, a contribuição da Psicologia Econômica e das Finanças Comportamentais é fundamental para compreender a questão de maneira mais ampla e profunda.

E você? Acha que o quadro de fragilidade financeira é comum no Brasil? E quanto ao estresse causado pelo dinheiro? Acha que isso afeta muitos brasileiros? Aguardamos sua opinião!

12 thoughts on “Fragilidade Financeira

  1. A fragilidade da saúde financeira no Brasil sempre foi grande.
    Penso que a grande causa é cultural.
    Nunca demos importância para a poupança com o objetivo de simplesmente poupar para eventuais reveses financeiros.
    Acabamos de sair de uma fase econômica boa e o que vimos: consumo, consumo e consumo. Até o presidente da república incentivando o consumo (carros).
    Agora, no período de vacas magras, sofremos as consequências. Acho que mesmo assim não aprendemos e estamos prontos para nova rodada.

    1. Oi Márcio,

      Se conseguirmos que as pessoas tenham mais educação financeira, principalmente as crianças e jovens, podemos esperar um futuro melhor.
      Obrigada pela sua contribuição!

      Equipe COP/CVM

  2. Eu acho que a fragilidade financeira é comum no Brasil sim. A cultura de remuneração fixa conduz os consumidores a uma espécie de inércia financeira [trabalha-se X, recebe-se X-Y e consome-se X-Y]. Quanto ao estresse, acredito que é causado pela falta e não pela presença do dinheiro.

  3. Seria muito interessante realizar um estudo desse tipo no Brasil, acredito que os nossos dados devem ser bem mais alarmantes, visto que os nossos altos juros são uma grande barreira de entrada na mercado de crédito.
    E com o nosso atual cenário, pessimismo é o que não falta, muitos temem perder o emprego, e muitos já estão bem endividados. O estresse financeiro sempre está em alta por aqui, muitas vezes sinto como se as pessoas ficassem esperando que alguma crise financeira ocorra, a mídia principalmente, sempre muito especulativa.

  4. Com a atual crise econômica e política que vivenciamos, com seu índice de desemprego recorde, tenho notícias cada vez mais frequentes de famílias sustentadas por aposentadorias dos mais idosos, pessoas endividadas e que não tem nenhuma reserva financeira para se salvar…situações stressantes e fragilizadoras. Há que todos se organizarem, com dedicação e disciplina, no intuito de controlar os gastos e poupar para evitar uma bancarrota. Situação igual à do País!

    1. Oi Edson,

      De fato, para mudar toda essa situação talvez seja necessária uma mudança de cultura. E isso leva tempo.

      Obrigada pelo comentário!

      Atenciosamente,
      Equipe COP/CVM

  5. Os dados sobre a saúde financeira da maioria dos brasileiros não é boa, de acordo com o BC e entidades privadas.
    Um quadro de queda na renda disponível, aumento do desemprego e crédito a custo de 2 e até 2 dígitos a.m. é excessivament frágil.

      1. Pois é, Gilson. Quem aproveitou um melhor cenário econômico para formar poupança, hoje tem uma segurança maior. Quem não conseguiu, está sofrendo com o atual momento…

        Obrigada pelo seu comentário!

        Abs,
        Equipe COP/CVM

    1. Oi Givanildo,

      Obrigada pelo comentário. Realmente, a nossa saúde financeira vai mal. Os dados sobre endividamento são alarmantes. É preciso que o brasileiro se conscientize e tente formar uma reserva financeira para se precaver de momentos de forte instabilidade como o atual, evitando essa fragilização.

      Abs,
      Equipe COP/CVM

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