Muito mais do que um ramo de negócios baseado no uso da informática para prover serviços financeiros, FinTech¹ é um setor formado por empresas inovadoras, que prometem revolucionar a forma como lidamos com as nossas finanças.

E o que isso tem a ver com Finanças Comportamentais? Tudo. Da democratização do acesso à transformação radical da experiência de consumo. Da desintermediação à transição para o modelo de marketplace.

Na origem da exclusão financeira estão problemas como: a dificuldade de acesso físico às agências bancárias para quem está longe das grandes cidades; as exigências burocráticas das análises de crédito; a complexidade dos produtos e serviços; as tarifas e os valores mínimos para realizar operações; e até o marketing, nem sempre inclusivo.

Essa realidade está se modificando na velocidade da luz, pois já existem bancos sem agências, aplicativos que rastreiam e consideram todo o histórico financeiro da pessoa para estabelecer limites e cartões de crédito virtuais, contratados a partir da indicação de quem já é cliente. Além disso, já é possível transferir dinheiro com facilidade por meio de aplicativos de troca de mensagens.

Nos setores intensivos em tecnologia da informação, as empresas funcionam mais como facilitadoras do que como fornecedoras e as pessoas fazem mais negócios com outras do seu círculo de contatos do que com instituições. Essa mentalidade de compartilhamento (sharing economy), representada por empresas como Uber e Airbnb, invadiu o mundo das finanças.

A nova tecnologia financeira deve tornar mais fácil para o usuário, entre outras coisas, comparar produtos e tarifas; calcular custos; acessar extratos; realizar transações; mudar de instituição; analisar tendências e trocar impressões com outros usuários – o que, ao menos em tese, tornaria o sistema mais inclusivo, transparente e seguro.

No entanto, nesse contexto de crescente simplificação e absoluta disponibilidade dos serviços financeiros, as FinTech representam tanto desafios quanto oportunidades para os consumidores.

Se, por um lado, contribuem para a remoção de barreiras ao acesso e uso dos serviços, também podem induzir mais facilmente ao consumo e ao endividamento excessivos.

Além disso, a rapidez com que a tecnologia permite realizar operações financeiras pode não dar tempo para a necessária reflexão, prejudicando a tomada de decisões. Um mundo financeiro mediado pela tecnologia pode favorecer a ocorrência de vários vieses, como:

  • Viés de Confirmação: o acesso a quantidades gigantescas de informações pode levar a pessoa a selecionar somente aquelas que confirmam suas opiniões;
  • Viés da Disponibilidade: a enxurrada de informações que chegam pelo celular (tecnologia push) pode deixar o consumidor mais inclinado a escolher os produtos e empresas que mais aparecem nas redes sociais ou nos anúncios, e não necessariamente os mais adequados;
  • Ancoragem: dados inúteis podem influenciar a escolha, mesmo que não contribuam para a análise da decisão a ser tomada, então, o consumidor pode ser induzido por informações desnecessárias, fornecidas junto com as essenciais;
  • Efeito de Enquadramento: a maneira como os dados são apresentados influencia a escolha, logo, quem controla o modo como a informação chega ao consumidor tem o poder de afetar sua decisão; e
  • Viés do Presente: o presente tem mais valor do que o futuro, ou seja, quando o cartão de crédito for o próprio smartphone, que estará todo o tempo junto ao consumidor, ficará mais difícil para ele resistir a algo que deseja, independente de poder pagar.

Por outro lado, a tecnologia também pode contribuir para reduzir o efeito de alguns vieses, por exemplo, por meio da automatização de determinados procedimentos. Um app que identifique uma sobra de dinheiro na conta, aplicando automaticamente, pode fazer com que o ato de poupar independa da força de vontade e com que não sobre dinheiro para tentações.

Um app que compre/venda determinados ativos, segundo uma estratégia predefinida, pode eliminar o Efeito Disposição – que é a tendência a realizar ganhos cedo demais e perdas tarde demais – ao atuar de modo puramente lógico, sem se deixar afetar pelas emoções.

Utilizar algoritmos no lugar de crenças, opiniões e dados parciais pode ser de grande ajuda nas situações em que superestimamos nossas próprias habilidades (Autoconfiança Excessiva), que fazemos distinções que só existem na nossa mente (Contabilidade Mental) e que tomamos decisões com base em informações insuficientes e imprecisas, generalizando tendências passadas (Viés da Representatividade).

Além disso, como as decisões financeiras geralmente envolvem alto grau de complexidade, a capacidade de processamento dos computadores pode ajudar as pessoas a fazerem melhores escolhas, por exemplo, simulando diferentes cenários, fazendo comparações que envolvam inúmeras variáveis ou realizando cálculos complexos.

Em tese, um investidor comum poderia ter acesso às mesmas ferramentas de um gestor de fundos, pois o software não só faria os cálculos, mas conseguiria interpretá-los de acordo com o perfil e a estratégia definidos, além de propor revisões periódicas do portfólio.

Portanto, se usadas de modo adequado, as novas tecnologias poderão contribuir para que as pessoas acessem os serviços financeiros a qualquer hora e de qualquer lugar, consigam as melhores taxas, paguem suas contas em dia, invistam nos produtos mais adequados ao seu perfil e aumentem seu patrimônio ao longo da vida.

Para que isso aconteça, além de democratizar o acesso e oferecer uma melhor experiência de consumo, é preciso que a tecnologia financeira ajude o consumidor a tomar decisões de forma mais refletida, objetiva e neutra. E, nos casos em que a decisão seja delegada ao software, é necessário garantir que realmente seja tomada no melhor interesse do usuário.

Cabe destacar que a CVM acabou de criar, em 7 de junho de 2016, um Núcleo de Inovação em Tecnologias Financeiras (FinTechHub), com o objetivo de realizar estudos, pesquisas, supervisão e ações educativas sobre o tema, dados os potenciais impactos sobre o mercado de capitais.

A CVM promoverá o serviço de atendimento a desenvolvedores de novas tecnologias, bem como conteúdos educacionais, eventos e parcerias, a fim de orientar o público sobre o assunto, por meio de seu Centro Educacional.

E você? Acredita que as FinTech possam revolucionar as finanças? Como acha que podem contribuir para aumentar o nosso bem-estar financeiro?

Aguardamos seu comentário!

¹Termo curto para se referir a Financial Technology (Tecnologia Financeira). O termo abrange diversos modelos de negócios, mercados e produtos, como digital securities, automated advice e distributed ledger technology, entre outros.

12 thoughts on “FinTech e Finanças Comportamentais: O que o Futuro nos Reserva?

  1. Olá! Bom Artigo.
    Acredito que as FinTechs podem sim gerar um salto em escala. O que deve ser desenvolvido em conjunto é a educação financeira que ainda é para poucos. Faz 4 anos que estudo finanças pessoais e investimentos e comecei a investir somente nesse ano. Espero que possamos disseminar as novas tecnologias para que cada vez mais gente tenha acesso e conhecimento.

  2. Dois pontos que merecem atenção:

    – as fintechs serão cruciais em diminuir a assimetria de informação entre provedores e consumidores de serviços financeiros, especialmente no segmento de investimentos.

    – elas também irão ajudar aos consultores/gerentes/ assessores ganhar escala na prestação de serviço com uma menor perda de qualidade no serviço.

    Acredito que elas não irão substituir o atendimento humano, principalmente para clientes que maior renda. Porém, o acesso de individuo de menor rendar à produtos melhores será o maior beneficio inicial.

    fintech.blog.br

  3. Ótimas notícias as novidades educacionais e empreendedoras da CVM. Um mercado de capitais democrático é um passo fundamental para uma nação realmente democrática!

    1. Oi Moacir,

      Agradecemos seu comentário e sua participação nos nossos cursos.
      E já que tem interesse no assunto, pedimos que fique atento à divulgação dos nossos próximos eventos, especialmente a próxima Conferência de Educação Financeira e Comportamento do Investidor, que acontecerá em dezembro e que, neste ano de comemoração de 40 anos da CVM, contará com grandes novidades.

      Atenciosamente,
      COP/CVM

  4. Eu tenho certeza! Investir meu patrimônio com uma fintech (Vérios) foi a melhor coisa que fiz. Antes eu ficava dependendo do gerente do banco, ele que me passava a indicação de onde investir, eu nunca confiei muito, porque parecia que ele estava indicando o que é melhor pra ele, sem se preocupar se fazia sentido pra mim, só queria empurrar. Agora sei no que estou investindo, sei que tem uma lógica por trás, uma estratégia de investimento séria, e as emoções não interferem na minha estratégia. E é tudo muito prático. Também uso o Nubank pra cartão de crédito, não preciso nem falar mais, é muito melhor que qualquer outro cartão.

    1. Oi Bella,

      De fato as FinTech representam um salto em inovação para o setor financeiro.
      A CVM está fazendo sua parte para que este salto seja o mais positivo possível para toda a sociedade.

      Atenciosamente,
      COP/CVM.

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