Em janeiro deste ano, Hal Hershfield, Stephen Shu e Shlomo Benartzi[1] publicaram a pesquisa “Temporal Reframing and Savings: A Field Experiment”[2], que procurou entender se oferecer a uma pessoa a possibilidade de efetuar aportes de forma mais frequente aumentaria a sua chance de aderir a um programa de poupança para a aposentadoria.

O primeiro problema apresentado pelos pesquisadores é que os programas existentes de poupança para aposentadoria estão muito focados em trabalhadores com empregos tradicionais do século passado, predominantemente de período integral. Logo, essas soluções possuem viabilidade limitada, uma vez que há grande variabilidade nos arranjos trabalhistas na atualidade, com considerável número de trabalhadores autônomos, temporários ou que trabalham sob demanda (formando a chamada gig economy). Além disso, avaliações sugerem que esse molde alternativo de emprego foi responsável por 85% do crescimento da população ocupada dos Estados Unidos entre 2005 e 2013. Essa mudança é muito importante para o desenho de novos programas de incentivo, já que os trabalhadores passaram a receber de maneira fracionada durante o mês.

Assim, os pesquisadores formularam uma hipótese para um programa de poupança baseado no recebimento gradual do salário. Dado que as pessoas estão sujeitas à aversão à perda, uma contribuição fracionada de pequenos valores para a aposentadoria pode gerar uma sensação menor do perda de poder de compra de curto prazo e, eventualmente, aumentar a adesão a esse tipo de programa. Um exemplo seria estabelecer uma meta de $150 mensais com a possibilidade de poupar $5 por dia, $35 por semana ou $150 no final do mês.

Seguindo essa linha de pensamento, 8.931 pessoas foram convidadas a participar de um experimento utilizando um aplicativo de celular. A ferramenta oferecia aos usuários a possibilidade de se inscrever em um programa de aportes recorrentes diários, semanais ou mensais em um portfólio de investimentos de longo prazo. A inscrição no programa era opcional e o estudo assumiu a hipótese de que as pessoas que receberam a opção diária teriam maior chance de aceitá-la do que aquelas às quais foram ofertadas alternativas de menor frequência. A idade média dos participantes foi de 32,8 anos e estes foram divididos entre cinco grupos de tratamento, os quais receberam aleatoriamente ofertas de frequências diferentes de depósito como segue:

  1. $5 por dia (1.772 usuários)
  2. $35 por semana (1.826 usuários)
  3. $150 por mês (1.744 usuários)
  4. $7 por semana (1.817 usuários)
  5. $30 por mês (1.772 usuários)

Por último houve um monitoramento contínuo por três meses dos participantes da pesquisa.

Com o objetivo de encontrar evidências empíricas da hipótese inicial, a análise estatística se dividiu em duas etapas. A primeira procurou analisar os três primeiros grupos de tratamento, cujas metas de contribuições totais no final de cada mês eram iguais: $5 diários, $35 semanais e $150 mensais. Foi constatado que as diferenças entre as taxas de aceitação do programa foram estatisticamente significativas: 29,9% dos participantes aceitaram os depósitos diários, 10,3% deles concordaram com o enquadramento semanal oferecido e 7,1% aderiram ao modelo mensal. Outra variável de interesse da pesquisa era se as diferentes frequências de aportes poderiam também influenciar a permanência dos participantes no programa. Foi encontrado que os participantes que realizavam depósitos mensais tiveram maior continuidade (menor índice de desistência) no programa um mês após o início do teste, porém entre o primeiro e o terceiro mês o índice de retenção se manteve constante para as três frequências de depósitos. Por último, foi analisado se havia diferença na taxa de inscrição no programa conforme o nível de renda dos participantes. Foi evidenciado que 15% dos usuários do aplicativo situados na maior faixa de renda aceitaram participar do programa,  enquanto que apenas 5% dos indivíduos que estavam na maior faixa de renda fizeram aportes. No entanto, não foi encontrada diferença significativa nas proporções de usuários com rendas distintas que passaram a contribuir $5 por dia. Os depósitos fracionados, portanto, diminuíram significativamente as diferenças de taxas de adesão ao programa de poupança entre classes sociais distintas.

Já na segunda etapa, foram analisados os dois últimos grupos, $7 por semana e $30 por mês. Assim como na primeira etapa, a análise obteve diferenças estatisticamente significativas na taxa de inscrição dos participantes nos dois programas de depósitos: 39,9% dos que receberam o enquadramento semanal o confirmaram, enquanto houve 21,8% de aceitação da frequência mensal. Não houve diferença de retenção dos participantes no programa entre os dois tratamentos: 87% do grupo semanal e 89% do grupo mensal continuaram efetuando depósitos até o final do terceiro mês. Tal como na etapa de análise anterior, a diferença entre as taxas de inscrições dos indivíduos dos estratos de renda superiores e inferiores foi atenuada na modalidade de maior frequência, ou seja, a semanal.

Ainda que o estudo não tenha comprovado diretamente a hipótese de que depósitos fracionados são psicologicamente menos dolorosos, as análises obtiveram evidências indiretamente convincentes para essa proposição. Uma vez que um dos principais problemas dos formuladores de políticas públicas é encorajar as pessoas a poupar, principalmente aquelas com menor condição financeira, a pesquisa fornece alternativas interessantes de intervenção de natureza comportamental, utilizando como base o conceito de enquadramento.

E você? Acredita que as pessoas se sentiriam mais estimuladas a poupar regularmente se o fizessem todos os dias? Como seria possível colocar isso em prática? Deixe seu comentário!

 

 

 

 

[1] Coautor, juntamente com o ganhador do prêmio Nobel de Economia de 2017 Richard Thaler, do estudo “Save More Tomorrow”, que investigou a aplicação de mecanismos de poupança de longo prazo, como o compromisso prévio e o escalonamento automático de aportes em contas individuais de aposentadoria conforme os aumentos salariais obtidos.

 

[2] Para acessar o artigo original clique aqui.

2 thoughts on “Finanças comportamentais: os depósitos diários são mais eficazes que os mensais para a realização de poupança de longo prazo?

  1. Muito bacana a pesquisa!
    Acredito que depósitos diários e semanais tenham o custo da depósito/transferência, isto é, o custo da transação em si: de fazer um TED pelo aplicativo ou a ida até um banco, por exemplo.
    Por outro lado, investimentos constantes podem dar a sensação de um comportamento contínuo de aportes que pode gerar um maior comprometimento.

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