Publicamos aqui o artigo de Thiago Borges Ramalho, oferecendo uma visão introdutória às Finanças Comportamentais e à Teoria do Prospecto (ou Teoria da Perspectiva). Este artigo é mais um fruto da contribuição de um dos membros do Núcleo de Estudos Comportamentais (NEC), a Dra. Vera Rita de Mello Ferreira. O conteúdo, aqui publicado integralmente, é de exclusiva responsabilidade do autor:

Finanças Comportamentais e a Teoria da Perspectiva

Daniel Kahneman e Amos Tversky, psicólogos, desenvolveram em conjunto, na década de 70 do último século, importantes estudos relacionados à tomada de decisão. Tais pesquisas, extremamente relevantes para a integração de duas áreas apaixonantes, a Psicologia e a Economia, renderam a Kahneman o Prêmio Nobel de Economia em 2002, consolidando-o como um dos principais nomes relacionados às Finanças Comportamentais, área derivada da Psicologia Econômica e da Economia Comportamental.

A partir de não menos importantes contribuições de outros pesquisadores, como o conceito de racionalidade limitada desenvolvido por Herbert Simon, também ganhador do Prêmio Nobel de Economia (1978), por exemplo, Kahneman e Tversky apresentaram a definição de heurísticas (palavra originada do termo heureca), que representam formas simplificadas, “regras de bolso”, de se realizar julgamentos e tomar decisões em situações de incerteza. As heurísticas, muito úteis nas escolhas que rotineiramente fazemos, podem levar a erros sistemáticos, os chamados de vieses cognitivos, que muitas vezes prejudicam nossas decisões mais importantes, como as relacionadas aos nossos investimentos.

Em continuidade, os pesquisadores criaram a Teoria da Perspectiva (Prospect Theory), uma crítica à Teoria da Utilidade Esperada (Expected Utility Theory) como ferramenta para tomada de decisão em situações que envolvam incerteza e risco.

Contrariando o paradigma vigente estabelecido pela Economia Neoclássica e pelas Finanças Tradicionais, que supõe comportamentos plenamente racionais e aversão ao risco pelos decisores, concluíram, em resumo, a partir da aplicação de questionário para identificar padrões de comportamento, que tendemos a sobrevalorizar eventos certos a eventos altamente prováveis, ainda que a escolha pelos segundos seja racionalmente melhor, como, por exemplo, preferir ganhar R$ 900,00 com certeza a arriscar ganhar R$ 1.000,00 com 95% de chance – Efeito Certeza (Certainty Effect).

Demonstraram, também, que, em valores equivalentes, frequentemente sentimos mais as perdas do que valorizamos os ganhos, levando ao importante conceito de Aversão à Perda (Loss Aversion) – e não simplesmente ao risco – e, por isso, somos inclinados a ter aversão ao risco quando estamos ganhando e propensão ao risco quando perdemos – Efeito Reflexão (Reflection Effect).

Por fim, concluíram que, em situações que abrangem mais de um problema, tendemos a focar nossa decisão em apenas uma etapa, simplificando a escolha, ao invés de analisarmos as opções de forma ampla e conjunta – efeito isolamento (Isolation Effect).

Diversas pesquisas têm replicado o estudo que originou a Teoria da Perspectiva e, assim como no trabalho original, utilizaram, em sua maioria, alunos e professores como respondentes, com resultados muito próximos aos obtidos por Kahneman e Tversky.

Na dissertação de mestrado “Finanças Comportamentais no Brasil: Uma Aplicação da Teoria da Perspectiva em Potenciais Investidores”, de 2013, repeti o experimento dos autores, adotando, como público amostral, para inovar, funcionários e potenciais investidores de uma importante instituição financeira nacional. Com 2.590 respostas, identifiquei a presença dos efeitos Certeza, Reflexão e Isolamento e de expressivos percentuais de escolhas inconsistentes com o modelo racional.

No estudo, quantifiquei, ainda, as preferências dos respondentes de acordo com alguns perfis demográficos (gênero, idade, ocupação, renda, formação e a posse de dependentes financeiros), sem conclusões significativas sobre as diferenças encontradas.

Muitos pesquisadores têm procurado identificar tais diferenças e vários estudos apontam, por exemplo, que homens, quando comparados às mulheres, são excessivamente confiantes e tendem a tomar decisões de forma mais enviesada.

Deixo como sugestão para novas reflexões, debates e avanços ao conhecimento atual a continuidade dos estudos nessa direção, inclusive no que diz respeito às contribuições da Educação Financeira para que possamos “domar” nossas emoções nos momentos de decisões mais importantes. Será possível? Aos leitores ainda não tão familiares com a área, recomendo, como ponto de partida, a leitura do livro “Rápido e Devagar, Duas Formas de Pensar”, de Daniel Kahneman (2011, Ed. Objetiva).

 

Sobre o autor: Thiago Borges Ramalho é mestre em Administração com ênfase em Finanças pela FECAP-SP. Este artigo é fruto de contribuição gratuita e independente para o blog e seu conteúdo, aqui publicado integralmente, é de exclusiva responsabilidade do autor.

11 thoughts on “As Finanças Comportamentais e a Teoria da Perspectiva

  1. Ultimamente venho estudando muito sobre várias formas de se investir dinheiro, uma das mais interessantes pelo que venho acompanhando é o tesouro direto.E impressionante como esse tipo de investimento é tão pouco divulgado na mídia, e são blogs como o seu que nos esclarece e nos coloca a refletir sobre o assunto.

    Você está de parabéns pelo trabalho de extrema qualidade
    Grande Abraço!

    1. Agradecemos o interesse. Sugerimos que assine nossa newsletter para acompanhar mais informações sobre Finanças Comportamentais e assuntos afins.
      Atenciosamente,
      Equipe COP.

  2. Olha quando fui encontrar seu artigo, quase um ano depois de ser publicado!
    Mas talvez até por estarmos diante de uma crise enorme essas informações são muito mais pesquisadas.
    Muito esclarecedor o artigo… o efeito reflexão explicado faz todo sentido!

  3. Pesquisadores do comportamento ainda tem um vasto campo para estudar os mecanismos de tomada de decisão, principalmente sobre o mercado financeiro.
    Bem esclarecedor o artigo.

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