Considerando o papel central da tecnologia no mundo das finanças, o crescimento da oferta de aplicativos financeiros e a recente introdução, nos Estados Unidos, de ferramentas que pretendem ajudar na montagem e administração de portfólios de investimento, a Financial Industry Regulatory Authority (FINRA), resolveu avaliar algumas dessas ferramentas e emitir um relatório sobre o assunto.

Como o relatório provavelmente antecipa uma tendência que pode ganhar força no Brasil, resolvemos resumir alguns pontos para os nossos leitores e aguardamos seus comentários.

Apesar de serem muitas as considerações possíveis a serem feitas sobre tais ferramentas, o relatório da FINRA se concentra em duas principais áreas: os algoritmos por trás dos softwares e a montagem dos portfólios (seleção e balanceamento de ativos), incluindo os potenciais conflitos de interesse que porventura possam estar a ela associados.

No que diz respeito aos algoritmos, sua tarefa é receber os inputs dos clientes (através dos próprios ou de profissionais financeiros), processá-los de acordo com determinados parâmetros pré-definidos e oferecer assessoria, que inclui, por exemplo: classificar o cliente em determinado perfil de risco; orientar na formação de um portfólio (classes de ativos e percentuais de alocação); e sugerir meios de compensar perdas e ganhos fiscais.

O problema é que se o algoritmo for mal desenhado, ou contiver erros, a ferramenta pode oferecer orientações inadequadas, prejudicando vários clientes e a credibilidade do profissional que confiar cegamente nela.

Quando se trata de perfil de risco, por exemplo, erros podem acontecer, tanto na definição do perfil quanto na adequação entre perfil e portfólio. Supondo que a ferramenta classifique um cliente como “conservador” e sugira uma alocação alta em títulos públicos federais: caso não seja considerado o horizonte temporal das aplicações, e o cliente tenha que se desfazer dos títulos antes do vencimento, pode incorrer em sérias perdas.

Portanto, é essencial compreender a maneira como os parâmetros são processados para gerar determinadas orientações, além de se ter plena ciência dos casos em que ela pode retornar um resultado equivocado.

Assim, é preciso que tais ferramentas sejam não só exaustivamente testadas antes de oferecidas aos clientes, mas permanentemente reavaliadas para confirmar que suas premissas continuam válidas, à medida que a economia e as condições do mercado vão se modificando.

Outra questão extremamente sensível diz respeito à proteção dos dados, a fim de não deixar os usuários expostos a fraudes. Tanto no caso do uso da ferramenta por um profissional quanto no uso diretamente pelo cliente, ambos devem se certificar das providências tomadas pelo desenvolvedor para assegurar a privacidade necessária, evitando o uso de aplicativos que não ofereçam garantia de proteção.

Quanto a isso, espera-se que as ferramentas fornecidas pelas instituições financeiras às quais o profissional seja filiado (ou nas quais o cliente tenha conta) sejam capazes de oferecer maior segurança, uma vez que já possuem acesso aos dados do cliente e que já tomam habitualmente precauções nesse sentido.

No que se refere à montagem de portfólios, o relatório da FINRA destaca duas questões principais: i) até que ponto a alocação dos ativos é adequada ao perfil do cliente; e ii) até que ponto ela pode ser influenciada por conflitos de interesses.

No que concerne ao conflito de interesses, ele pode assumir duas formas: profissional-cliente e instituição-cliente. A primeira é eliminada quando o cliente utiliza diretamente a ferramenta e toma suas decisões sozinho. A segunda não. Nesse caso, o que o investidor pode fazer para se proteger é analisar a maneira como é oferecida a orientação, verificando:

  • Se as recomendações são individualizadas ou genéricas (as genéricas servem para qualquer cliente, pois o importante é vender determinado produto de investimento);
  • Se foram levantadas informações suficientes para determinar um perfil (no mínimo, dados pessoais, situação financeira, perfil de risco, experiência/conhecimento financeiro, necessidade de liquidez, horizonte temporal e objetivos);
  • Se o perfil de risco considera tanto a propensão ao risco quanto a capacidade de tomá-lo (a propensão maior do que a capacidade pode deixar o investidor com um grau de exposição acima do recomendável);
  • Se há mecanismos para lidar com respostas contraditórias (se são apresentadas ao cliente e realizadas perguntas adicionais, se dão mais peso às respostas mais conservadoras, ou se simplesmente ignoram as contradições); e
  • Se há realmente necessidade de investir (ou se não seria mais apropriado saldar eventuais dívidas primeiro).

Outro ponto que pode suscitar conflito de interesses é o rebalanceamento de portfólios, uma vez que envolve compra e venda de ativos, gerando taxas e comissões para os profissionais e instituições envolvidos. Por isso, embora o uso de ferramentas digitais possa tornar esse processo automático, é recomendável atenção nesse caso, a fim de que os custos de transação não excedam os potenciais ganhos.

O relatório da FINRA chama atenção também para o fato de que, embora a ferramenta possa estar fazendo bem o trabalho ao qual se destina, o profissional ou cliente que a usa pode cometer erros ao fornecer os dados solicitados, provocando uma resposta equivocada não devido ao processamento dos dados ou a conflitos de interesse, mas à falta de experiência do usuário no manejo do software.

Finalmente, o relatório termina mencionando três elementos-chave para a proteção do investidor, que as instituições, os profissionais (e o próprio cliente) precisam assegurar no uso de ferramentas digitais de assessoria financeira: que sejam capazes de identificar corretamente as necessidades do cliente; que possuam bases metodológicas sólidas; e que seus erros e suas limitações sejam detectados.

E quanto às heurísticas e vieses na assessoria financeira digital? Aguardamos seus comentários…

2 thoughts on “Ferramentas Digitais: o Futuro da Assessoria Financeira?

  1. e as emoções? o aplicativo identifica o comportamento emocional no momento do acesso? será que amanhã estarei menos propenso a determinado risco na minha decisão de investimento? e o orçamento familiar? os participantes do orçamento doméstico interagem na aplicativo? acredito na tecnologia como um complemento mas não completa as nossas decisões de compra

    1. Caro Vitor,

      Ao que parece, a tecnologia financeira ainda tem que se desenvolver bastante para nos substituir na tomada de decisões.
      E, como complemento, pode ser uma grande aliada. No entanto, é importante termos informação e senso crítico ao usar tais ferramentas.
      Agradecemos o comentário.

      Equipe COP/CVM.

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