De acordo com a última Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, realizada em maio deste ano, 58,7% dos consumidores entrevistados se consideram endividados; 23,7% declaram ter dívidas em atraso e 9% acham que não conseguirão pagar suas dívidas.

Nos países desenvolvidos, a história é a mesma. Uma recente série de artigos, denominada “United States of Debt” (Estados Unidos da Dívida), explora as razões para o endividamento entre os americanos, entrevistando diferentes tipos de endividados e de especialistas para entender o que é possível fazer a respeito.

Antes de tudo, é preciso lembrar que, embora o endividamento possa ser visto como resultado da falta de autocontrole, isso não significa que o endividado seja alguém irresponsável, imaturo ou desleixado.

Segundo o Economista Comportamental Dan Ariely, o fato de nos deixarmos levar pelas emoções, de tomarmos decisões de modo não racional e de termos dificuldades de enxergar as coisas em termos abstratos e de longo prazo é inerente ao ser humano. Portanto, se há falhas na hora de tomarmos decisões, são falhas da espécie e não do indivíduo.

No intuito de corrigir isso, uma das melhores coisas que podemos fazer é nos conscientizarmos do que está em jogo nas nossas decisões de consumo: que toda escolha envolve ganhos e perdas.

Em outras palavras, já que lidamos com recursos escassos, precisamos ter sempre em mente que, ao consumirmos uma coisa, estamos abrindo mão de consumir outra e que cada centavo que gastamos no presente não estará mais disponível para ser gasto no futuro.

Ou seja, se nos conscientizarmos de que as escolhas de consumo que fazemos a cada momento envolvem sempre uma troca, podemos analisá-las de modo um pouco mais racional.

Um exercício interessante é calcularmos o custo de nossa hora de trabalho para usar como parâmetro na avaliação do que estamos pensando em consumir.

Por exemplo, supondo que uma pessoa queira avaliar se o que gasta com lazer nos finais de semana é excessivo: se ela dividir seu salário por 176 (que é a quantidade de horas úteis no mês, para quem cumpre um expediente de 8 horas diárias) e descobrir que o valor de sua hora de trabalho é R$ 50, fica mais fácil perceber que gastar R$ 400 num programa de sábado à noite vai custar um dia inteiro de trabalho e, a partir daí, julgar se esse custo compensa o benefício que ele proporciona.

O juízo de valor é algo muito subjetivo e só a própria pessoa pode avaliar o benefício que o consumo de um determinado produto ou serviço pode trazer para sua vida. No entanto, é preciso fazer permanentemente essa análise para não se arrepender mais tarde do dinheiro desperdiçado com itens que trouxeram pouco ou nenhum benefício.

Se ampliarmos esse raciocínio para as demais despesas, pode ser que fique mais fácil identificar em quais estamos exagerando. Dificilmente alguém pegaria um empréstimo para gastar com cafezinho, balas, revistas e outras miudezas. No entanto, muita gente não vê problema em ir fazendo esses pequenos desembolsos diariamente, sem se dar conta de que podem chegar a representar algo em torno de 40% de suas despesas mensais.

Vejamos a conta do cafezinho: beber um expresso de R$ 5,50 por dia, nos 22 dias úteis do mês, nos custa mensalmente R$ 110. Esse valor pode ser usado para pagar uma dívida ou, se poupado, pode gerar algo em torno de R$ 1.400 ao final de um ano, considerando a atual taxa de juros.

Em resumo, ao somarmos as despesas e verificarmos o montante consumido com elas ao final de um período maior (um mês ou um ano), passamos a ter uma melhor noção do quanto representam e podemos decidir o quanto são realmente necessárias e quais é possível cortar. Para tanto, é fundamental manter um controle, seja anotando, guardando as notas fiscais, fazendo planilhas ou por outro método que atenda a esse propósito.

Uma estratégia para evitar gastar uma quantia da qual não dispomos – que é sugerida por Dan Ariely para tornar mais concreta a separação entre as despesas obrigatórias e as supérfluas – é ter duas contas diferentes para separar o dinheiro. Outro artifício é escolher a data de vencimento do cartão de crédito para a mais próxima possível do recebimento do salário, a fim de não cairmos na tentação de utilizar o dinheiro parado na conta, como se ele estivesse disponível, quando na verdade não está.

Caso o endividamento seja grande, e a pessoa tenha que realizar cortes mais drásticos, pode adotar outra dica de Ariely, que é cortar uma categoria inteira – vestuário, carro, viagens – ao invés de tentar reduzir apenas um dos gastos da categoria. Assim, ao trocar o carro pelo transporte público, por exemplo, é possível nos livrarmos de todas as despesas a ele associadas (seguro, IPVA, estacionamento, limpeza, combustível, etc.) e reorganizar mais rapidamente nossa vida financeira.

É preciso lembrar ainda que há diferentes modalidades de crédito e que, em geral, as mais convenientes costumam ser as mais caras. Uma mesma instituição financeira pode oferecer cartão de crédito, cheque especial, empréstimo consignado e outras, cobrando taxas diferentes para cada uma. Não podemos esquecer que, para a instituição financeira, o dinheiro é um produto que tem diferentes preços, expressos em taxas de juros e tarifas, de acordo com a conveniência oferecida ao cliente e o risco de inadimplência.

Finalmente, queremos saber sua opinião. Se o dinheiro é o mesmo, será que não vale a pena enfrentar as inconveniências de ter que ir a uma agência bancária, levar documentação e conversar com o gerente, a fim de trocar uma dívida cara por outra mais barata? E você, o que faz para economizar e evitar dívidas?

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