Depois de realizar todo um trabalho de pesquisa e discussão para definir o que significa bem-estar financeiro, assunto ao qual já dedicamos outro post, o Consumer Financial Protection Bureau (CFPB) dá mais um importante passo para sua compreensão e operacionalização: um instrumento para medir e comparar o bem-estar financeiro individual.

Além disso, o CFPB elaborou um guia, explicando toda a pesquisa que fundamentou a produção da escala e ensinando a usá-la, intitulado Measuring financial well-being: a guide to using the CFPB Financial Well-Being Scale. Como o guia está em inglês, elaboramos um resumo para os nossos leitores.

Nosso resumo se destina apenas a responder o que consideramos serem as três informações principais do guia: (1) como o CFPB chegou ao desenho final da escala; (2) de que perguntas ela é composta; e (3) como/por quem ela deve ser utilizada.

1. Como a escala foi desenvolvida?

De acordo com o CFPB, a elaboração da escala foi um processo que envolveu:

  • Uma série de entrevistas cognitivas para assegurar que as pessoas realmente entenderam o que estava sendo perguntado e o objetivo das perguntas;
  • Análise fatorial, a fim de escolher as questões que melhor mediam o conceito de bem-estar financeiro;
  • Rodadas de testes psicométricos com mais de 15 mil respondentes, com o objetivo de selecionar as perguntas com maior grau de confiabilidade.

 

2. Que perguntas compõem a escala?

Antes de apresentarmos a escala, cabe destacar que a tradução aqui proposta é livre, não oficial e não validada. Isso quer dizer que ela serve apenas para que os leitores sem domínio da língua inglesa possam ter uma ideia do que seria a escala original. Não se trata uma tradução aplicável da escala original, pois isso compreenderia todo um processo de validação em português e com cidadãos brasileiros – o que não ocorreu. Portanto, recomendamos fortemente a leitura da escala original no guia do CFPB e sugerimos, a quem quiser utilizá-la, que entre em contato com o CFPB para tirar dúvidas sobre as possibilidades de validação no Brasil.

2.1 Escala de bem-estar produzida pelo CFPB::

Quão bem tal frase descreve sua situação?
1. Eu teria condições de lidar com uma despesa substancial inesperada
2. Venho atuando para garantir meu futuro financeiro
3. Por causa da minha situação financeira, sinto que nunca terei as coisas que desejo na vida*
4. Tenho condições de aproveitar a vida, considerando o modo como estou gerindo meu dinheiro
5. Do ponto de vista financeiro, estou apenas subsistindo*
6. Me preocupo com o fato de que o dinheiro que tenho ou venha a poupar não dure o suficiente*

Opções de resposta: Totalmente, Muito bem, Relativamente, Muito Pouco, Nem um pouco

Quão frequentemente tal frase se aplica a você?

7. Comprar um presente de casamento, aniversário ou outra ocasião iria apertar minhas finanças no mês
8. Costumo ter dinheiro sobrando no fim do mês
9. Minhas finanças estão em atraso*
10. Minhas finanças controlam minha vida*

Opções de resposta: Sempre, Frequentemente, Às vezes, Raramente, Nunca

* Perguntas para as quais as opções de resposta são “inversamente codificadas” (ou seja, o quão melhor ou mais frequentemente a pergunta se aplicar à pessoa, menor a pontuação)

 

3. Como a escala pode ser usada?

Segundo o CFPB, a escala foi desenhada para que profissionais e pesquisadores pudessem medir e comparar o grau de bem-estar financeiro, tanto no tempo quanto entre pessoas diferentes, bem como estudar a sua relação com outros fatores. Embora permita observar até que ponto a situação e a habilidade financeira de uma pessoa são capazes de oferecer-lhe segurança e liberdade de escolha, a pontuação produzida não tem significado para o respondente de modo isolado.

Algumas das possíveis aplicações da escala são:

  • Como análise inicial, para orientar uma discussão sobre a situação financeira de uma pessoa e como melhorá-la;
  • Para acompanhamento da evolução financeira individual ao longo de um período de tempo;
  • Como ferramenta adicional na avaliação de programas que tenham como objetivo aumentar o bem-estar financeiro das pessoas; e
  • Em pesquisas que analisem a relação do bem-estar financeiro com outros fatores.

No que se refere à pontuação, uma vez respondido o questionário, o escore é obtido por meio de 2 etapas:

  1. Atribuindo o valor correspondente a cada item (de 0 a 4) e somando a pontuação  das 10 perguntas; e
  2. Encontrando o valor correspondente ao total, de acordo com a idade do respondente (18 a 61 anos ou acima de 61 anos) e se o questionário foi auto-administrado ou não.

Segundo o CFPB, o escore avaliado isoladamente não é capaz de dizer muita coisa e deve ser analisado junto com outras informações financeiras. No entanto, para que ele sirva como comparação, seja entre diferentes indivíduos ou entre momentos distintos de um mesmo respondente, é necessário que nenhuma pergunta seja pulada. Caso contrário, o escore obtido não terá validade.

Finalmente, espera-se que, com o tempo de uso e o estabelecimento de parâmetros fidedignos, a escala possa ser aprimorada e passe a refletir de modo bem acurado o grau de bem-estar financeiro individual, talvez até de maneira isolada.

Além disso, a escala americana pode servir como referência para que  pesquisadores brasileiros desenvolvam um instrumento similar adaptado à nossa língua, cultura e realidade financeira.

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One thought on “É Possível Medir o Bem-Estar Financeiro?

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