A Mathematica Policy Research, em abril de 2017, publicou o estudo denominado “Using Behavioral Insights to Increase Retirement Savings”[1], que estudou formas de aumentar o nível de poupança para aposentadoria dos funcionários do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos (DOL) com o uso de “insights” comportamentais.

Dado que, pelo plano de aposentadoria Thrift Savings Plan – TSP, o governo americano deposita o mesmo valor da contribuição mensal do servidor (benefício também conhecido como “matching”) em sua conta de aposentadoria individual até o limite de 5% do salário, é de se esperar que ele aproveite plenamente esta vantagem. Entretanto, em 2015 mais de 25% dos funcionários públicos do DOL contribuíram abaixo desse limite, o que abriu espaço para uma intervenção comportamental. Logo, a pesquisa procura entender se e-mails informativos são capazes de influenciar as pessoas a pouparem mais.

Os pesquisadores presumiram a incidência de alguns vieses comportamentais que provavelmente atuavam como barreira para a realização de poupança direcionada à aposentadoria. Os vieses identificados foram:

  • Atenção limitada: Os servidores não pensavam, não planejavam nem reconheciam a importância e os benefícios de guardar parte dos seus salários para a aposentadoria. Havia uma preferência pelo presente e uma percepção equivocada sobre suas necessidades de longo prazo.

 

  • Desconto hiperbólico: As pessoas colocam peso demasiado no consumo presente em relação ao futuro e não reconhecem os benefícios de realizar uma poupança.

 

  • Excesso de informação e receio de decisões finais: Os agentes não conseguem tomar decisões devido ao grande volume de informação e a complexidade envolvida. Normalmente lhes parece mais difícil reverter ou revisitar suas escolhas do que realmente é.

 

  • Procrastinação: Há uma percepção de que poupar é uma tarefa trabalhosa, levando as pessoas a adiar a ação.

O estudo foi dividido em duas fases. A primeira ocorreu no outono de 2015 e a segunda na primavera de 2016. Em cada etapa foram utilizadas diferentes estruturas de e-mails e lembretes, com foco nos vieses anteriores. No modelo de mensagem utilizado na primeira fase foram ressaltados os benefícios concretos que a poupança poderia trazer para o estilo de vida do indivíduo ao se aposentar, pois quando as pessoas conseguem visualizar um cenário futuro há uma maior propensão a poupar.  Além disso, as pessoas eram encorajadas a agir imediatamente e a seguir um tutorial com imagens detalhando o passo a passo de como alterar seu nível de contribuição para o fundo de aposentadoria, a fim de superar a inércia e a procrastinação. Por último, o e-mail lembrava que o funcionário estaria perdendo um benefício gratuito caso alocasse menos de 5% do salário no fundo de previdência, apelando ao viés da aversão à perda.

Para a primeira fase, 4.078 funcionários públicos que contribuíam com menos de 5% do salário foram aleatoriamente divididos em um grupo de controle (sem e-mail) e outro de tratamento, que recebeu a mensagem formulada. A proporção de servidores tratados que passaram a poupar 5% de sua renda foi 2,3 pontos percentuais maior que a do grupo de controle.

Na segunda fase da pesquisa, foram adicionadas à mensagem da primeira etapa duas estratégias que faziam uso de normas sociais e lembretes. A primeira informava que a maioria dos funcionários estava contribuindo com mais de 5% do salário no fundo de aposentadoria e aproveitava o fato de que as pressões sociais influenciam fortemente o comportamento, fazendo com que as pessoas se sintam mais confortáveis a agir conforme sugerido, ao tomar a mesma decisão que outras. Os lembretes serviram para incentivar aqueles que não agiram após receber a mensagem, aumentando a saliência da decisão de contribuir e tranquilizando os destinatários de que suas escolhas relativas ao TSP eram reversíveis. Os funcionários originários do grupo de controle da primeira etapa foram divididos em três novos grupos: um de controle que não recebeu nenhum tipo de mensagem e dois de tratamento.  O primeiro grupo tratado recebeu a mesma mensagem da primeira fase com os lembretes e outro, a mensagem original com a introdução das normas sociais e lembretes.

Nessa fase, ambas as estruturas da mensagem foram eficazes para aumentar o número de contribuintes que passaram a poupar pelo menos 5% do salário. Após receber a mensagem primária mais os lembretes, o percentual de indivíduos nessa situação aumentou 7,5 p.p. em relação ao do controle. Já o grupo “tratado” com a mensagem original adaptada às normas sociais combinada com lembretes obteve um acréscimo de 5,8 p.p. sobre o controle. Essas diferenças, além dos 2,3 p.p. citados na primeira fase, foram todas estatisticamente significativas.

Por outro lado, a pesquisa também concluiu, por meio de análise exploratória, que introduzir normas sociais e lembretes aparentemente não aumentou a efetividade da mensagem original. Além disso, os e-mails não foram capazes de estimular significativamente as pessoas que não contribuíam para o fundo de aposentadoria a fazê-lo.

De maneira geral, intervenções comportamentais por meio de mensagens eletrônicas são interessantes pelo seu baixo custo de implementação e pela sua capacidade de impacto pois, considerando que o número inicial de funcionários que participavam do TSP já era alto, os aumentos nas proporções de servidores que passaram a obter o nível máximo de benefício observados na pesquisa foram consideráveis. Existe ainda a possibilidade futura de estudar aperfeiçoamentos para este tipo de intervenção, como personalização do conteúdo das mensagens e monitoramento de respostas.

E você? Acha possível replicar esse tipo de iniciativa no Brasil? Já ouviu falar de algum caso semelhante? Conte-nos!

 

 

 

 

[1]Para acessar o artigo original clique aqui.

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