É razoável que as pessoas prefiram antecipar as boas experiências e adiar as ruins. Quando se pensa em termos cronológicos, há quem prefira que os recebimentos sejam tão breves quanto possível e que os pagamentos não venham tão cedo.

A predisposição humana para privilegiar a gratificação imediata e para descontar um valor quando tem que adiar a satisfação são denominadas, respectivamente, Viés do Presente e Desconto Hiperbólico.

Em qualquer transação financeira, tanto quem recebe quanto quem paga é sujeito a toda sorte de imprevistos, financeiros ou não. Então, há sempre o risco de a pessoa vir a não poder mais honrar sua dívida ou usufruir de seu ganho.

Portanto, ao comparar o valor de recompensas financeiras no tempo, algumas pessoas tendem a conferir um peso maior ao hoje do que ao amanhã. Em consequência disso, a percepção do valor de uma mesma coisa pode decrescer do presente para o futuro (desconto).

Tradicionalmente, o desconto foi tratado pela Economia como uma porcentagem fixa, proporcional ao tempo de espera, representado por uma curva exponencial e, por esse motivo, chamado de Desconto Exponencial.

Por exemplo: a 10% ao ano, pela lógica do desconto exponencial, não faz diferença receber R$ 100 hoje ou R$ 110 daqui a um ano, nem entre receber R$ 100 daqui a um ano ou R$ 110 daqui a dois anos, já que se trata da mesma taxa aplicada a um mesmo intervalo temporal.

No entanto, pesquisas empíricas revelaram que, na prática, ao descontar no tempo o valor de algo a receber, certas pessoas o fazem a uma taxa variável (e não fixa), dependendo do quão distante a espera se localiza no futuro.

Esse fator, denominado Desconto Hiperbólico, é resultado da constatação de que, levadas a escolher entre receber R$ 100 hoje ou R$ 110 amanhã, muitas pessoas preferem a 1ª opção. No entanto, entre receber R$ 100 daqui a um mês ou R$ 110 daqui a um mês e um dia, costumam escolher a 2ª.

Essa mesma lógica é o que faz alguém adiar o início da dieta para a próxima segunda-feira e a entrada na academia para o próximo mês ou repetir para o ano seguinte as mesmas resoluções do final do ano passado que não conseguiu realizar. É o que nos leva a encher a lista do supermercado de coisas saudáveis e incluir um monte de outras, nem tão saudáveis assim, antes de passar no caixa.

Indivíduos cujas preferências são muito afetadas pelo Viés do Presente tendem a fazer escolhas que eles mesmos não teriam feito, caso fossem capazes de se projetar no futuro e adiar a gratificação imediata.

Compreender esses conceitos e aprender a lidar com eles pode ter grande impacto em comportamentos que dependam de escolhas intertemporais (abrir mão de algo no presente em prol do futuro e vice-versa), como a formação de poupança e o investimento em educação, por exemplo, cujo resultado se localiza, por vezes, muito longe no tempo.

Se aplicarmos a mesma lógica no que se refere a dívidas é ainda pior, pois é possível enxergá-las como um adiantamento de valores futuros para o presente – uma vez que se trata de gastar um dinheiro que não se possui e, portanto, ainda não ganho.

Ou seja, por essa perspectiva, o endividado pode ser definido como aquele que privilegia excessivamente o hoje em detrimento do amanhã e que, como resultado, vai se tornando progressivamente mais pobre com o passar do tempo.

Para combater a tentação de gastar todo o dinheiro do presente, ficando sem reservas para emergências e sem construir patrimônio para o futuro, pelo menos duas ações têm sido apontadas como especialmente importantes: fazer planos e definir objetivos.

A primeira envolve a capacidade de se projetar no futuro, fazendo com que a pessoa se identifique com seu eu futuro e se imagine em melhor situação do que está hoje – o que pode incentivá-la a investir no amanhã.

A segunda implica em dar um destino para o dinheiro, especialmente o excedente, tornando os planos mais tangíveis e associando metas ao ato de poupar (atingi-las é algo que pode conferir satisfação) .

Outras condutas que podem ajudar a contornar o Viés do Presente são:

  • Neutralizar o desconto, recompensando a si mesmo por resistir a tentações (lembrando que, para valer à pena, a recompensa tem que custar menos do que o valor economizado);
  • Guardar uma parte do dinheiro no momento em que for ganho, de preferência em investimentos sem resgate imediato, a fim de impedir que fique disponível para ser gasto;
  • Antes de ceder ao impulso de consumir, imaginar o arrependimento causado no futuro por não ter conseguido resistir hoje;
  • Pagar à vista e em dinheiro vivo, pois, ao contrário do crédito, o dinheiro pode acabar, facilitando a percepção do quanto se está gastando;
  • Diminuir o limite do cartão de crédito para evitar gastar mais do que se tem;
  • Ficar atento às estratégias usuais de marketing, resistindo a pegadinhas do tipo “compre agora, pague depois” ou “últimas unidades”; e
  • Particularmente com relação à aposentadoria: visualizar a vida de aposentado ideal e observar os aposentados que conhece, como exemplo do que deseja (ou não) para si mesmo.

Finalmente, lembre-se de sempre fazer pesquisa de preços antes de comprar. Além de economizar dinheiro, o tempo gasto pesquisando pode ser suficiente para refletir melhor sobre a real necessidade da compra, fazendo com que a tomada de decisão seja mais racional.

Agora queremos saber sua opinião: Como avalia o peso do presente em relação ao do futuro quando se trata de suas finanças? Quais estratégias você utiliza para resistir à necessidade de gratificação imediata e garantir seu bem-estar financeiro?

Aguardamos seus comentários!

6 thoughts on “Desconto Hiperbólico: mais vale um pássaro na mão?

    1. Prezado Renato,

      Muito obrigado pelo seu comentário. O viés da autoconfiança excessiva está explicado no volume 1 da CVM Comportamental, que você pode baixar na aba “Materiais” do blog. Dê uma olhada e estamos à disposição caso reste alguma dúvida!

      Atenciosamente,
      Equipe COP/CVM

  1. texto bem articulado, de conceitos economico-financeiros.
    Leitura prazerosa.
    As escolhas intertemporais não se limitam à remuneração/prêmio estipulado, senão que análise sofisticada de risco micro e macro.

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