Decisões financeiras podem ser explicadas por diferenças de gênero?

Diferenças no comportamento financeiro entre homens e mulheres têm sido um objeto de pesquisa relevante para estudiosos de economia comportamental. Neste post, debatemos alguns estudos que tratam das diferenças entre os gêneros no comportamento financeiro. Dentre as características que a literatura aponta como diferentes, uma delas refere-se aos riscos que se corre ao investir. Há estudos que apontam que mulheres preferem correr menos riscos que homens. Comumente, constata-se que essa diferença pode se dever a desigualdades em termos de educação financeira e variações de apetite para o risco e autoconfiança. A pesquisa que discutiremos neste post acrescenta um outro fator que pode levar as mulheres a se arriscarem menos financeiramente: a confiança que possuem em suas habilidades financeiras.

Para isso, os pesquisadores utilizaram dados de um survey realizado pela OCDE em 30 países. Este questionário fornece informações sobre a educação financeira, atitudes e comportamento da população adulta dos países no qual é aplicado. Para fins deste artigo, os pesquisadores extraíram dados da Áustria, Brasil, Canadá, Croácia, Finlândia, Alemanha, Hungria, China, Jordânia, Países Baixos, Rússia, Espanha e Reino Unido.

Para as análises estatísticas, os pesquisadores consideraram as variáveis demográficas renda, status do emprego, escolaridade, idade e estado civil. Também consideraram o nível de educação financeira, aversão ao risco, e confiança nas próprias habilidades financeiras.

Em todos os países avaliados, há uma correlação baixa entre confiança nas habilidades financeiras e o nível de educação financeira medido. Ou seja, um nível alto de educação financeira não seria acompanhado por um nível alto de confiança nessa habilidade; assim como uma alta confiança nas habilidades financeiras tampouco seria acompanhada de uma educação financeira alta.

Para exemplificar, abaixo há um gráfico dos dados do Brasil. O tamanho dos círculos corresponde ao número de citações. Há uma correlação de 0,175 entre confiança nas habilidades financeiras e o nível de educação financeira avaliado pelo survey da OCDE. Observa-se, no gráfico, que maiores os maiores níveis de confiança nas próprias habilidades financeiras não estão atribuídos a quem foi avaliado com notas 6 ou 7 no quesito Educação Financeira.

A pesquisa fez uma análise estatística em dois níveis. Primeiro, realizou uma análise descritiva, na qual apresenta os dados sem procurar estabelecer correlações entre eles. Olhando especificamente para a diferença de gênero, em quase todos os países avaliados as mulheres possuem menos ativos financeiros (ações e títulos), à exceção da Rússia. No Brasil, Canadá, Alemanha, China e Hungria, há uma diferença estatisticamente significativa entre homens e mulheres na autoconfiança nas habilidades financeiras, com uma pontuação menor para as mulheres. As mulheres também pontuaram menos na escala de avaliação financeira, havendo uma diferença estatisticamente significativa na Áustria, Brasil, Canadá, Finlândia, Alemanha, China, Jordânia, Países Baixos, Espanha e Ucrânia. Por fim, Áustria, Canadá, Finlândia, Alemanha, Hungria, Jordânia, Países Baixos, Rússia e Espanha foram países em que há uma diferença estatisticamente significativa na atitude de risco, com pontuações maiores para os homens.

O artigo também realizou uma análise de regressão, para compreender as relações entre os dados analisados. O objetivo era compreender o quanto da menor posse de ativos financeiros por mulheres poderia ser explicado por diferenças entre os gêneros.

Características observáveis, como ter uma reserva financeira e estar empregado explicam a diferença na posse de ativos. Mas essa diferença também poderia ser explicada por traços de personalidade.

Segundo a pesquisa, a diferença na autoconfiança seria um fator que explicaria a diferença entre homens e mulheres na posse de ativos financeiros nos seguintes países: Canadá, Alemanha, China, Hungria, Jordânia, Países Baixos e Espanha. E em todos esses países citados, a autoconfiança é o primeiro ou o segundo fator que impactaria na probabilidade de possuir ativos financeiros. Apenas na Finlândia e na Espanha diferenças na educação financeira seriam um fator mais relevante para explicar essa diferença.

Uma contribuição importante deste estudo é a compreensão de quais fatores comporiam o apetite por risco. O estudo nos dá indícios de que a autoconfiança seria um dos componentes do apetite a risco, e influencia a tomada de decisões financeiras mais arriscadas ou conservadoras.

Outros estudos vão pelo mesmo caminho, também apontando que condições psicossociais seriam relevantes na tolerância ao risco. Para citar outro exemplo, Grable e Joo (2004) discutem a importância da autoestima no apetite ao risco.

O estudo que discutimos neste post enfatiza a autoconfiança e sua manifestação entre os gêneros, sinalizando que mulheres, segundo esse estudo, tenderiam a ser menos autoconfiantes que homens, independente do conhecimento que possuem. Esse fator poderia, portanto, levar a uma menor confiança em suas escolhas financeiras, o que poderia explicar um maior conservadorismo ou menor propensão a assumir riscos no campo das finanças.

Finalmente, outra reflexão trazida pelo estudo é que a confiança que se tem nas suas habilidades financeiras seria um fator tão ou mais impactante nas decisões que a educação financeira em si. Sejam ou não confirmados por pesquisas posteriores, os achados desse estudo corroboram a visão comum no mercado que não é apenas importante que o investidor ou consumidor de serviços financeiros busque ampliar seu conhecimento financeiro, mas é também fundamental ter uma avaliação realista do seu perfil, o que inclui perceber o quanto se sabe conhece sobre as opções e alternativas financeiras, sem superestimar ou subestimar seu conhecimento e habilidades. A regulação financeira impõe obrigações de verificação do perfil do cliente quando da oferta pelas instituições financeiras de produtos e serviços, mas isso não substitui plenamente o que o conhecimento e uma avaliação realista do próprio perfil podem fazer.

 

Referência

Cupák, A.; Fessler, P.; Schneebaum, A. (2020) Gender differences in risky asset behavior: the importance of self-confidence and financial literacy. Departament of Economics Working Paper Series, Vienna University of Economics and Business.

Grable, J. E., & Joo, S. (2004). Environmental and biopsychosocial factors associated with financial risk tolerance.

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