Crianças com pouco autocontrole serão adultos com problemas financeiros?

É amplamente aceito que nossa personalidade e comportamentos quando adultos são influenciados pela criação que recebemos e pela personalidade que desenvolvemos quando somos crianças. Partindo desse pressuposto, os pesquisadores Moffit et. al. (2010) se interessaram em entender como uma característica específica das crianças, o autocontrole, impacta seu comportamento quando adultos. Os pesquisadores queriam saber se, e de que forma, o autocontrole de crianças influenciaria os hábitos de saúde, os financeiros e a propensão a cometer crimes quando virassem adultas.

Os autores compreendem autocontrole como um termo guarda-chuva, que abrange diferentes características do indivíduo, como por exemplo:

  • Controle da impulsividade;
  • Consciência;
  • Autorregulação;
  • Capacidade de adiar gratificações;
  • Força de vontade;
  • Avaliar escolhas intertemporais

Para responder à pergunta do estudo, os pesquisadores realizaram uma pesquisa longitudinal (isto é, um estudo que monitora um grupo ou um fenômeno por muitos anos); acompanhando 1.037 crianças nascidas no mesmo ano e na mesma cidade durante 32 anos. Foi um estudo correlacional e observacional, ou seja, não fez experimentos em laboratório para mensurar o autocontrole. As técnicas usadas foram a observação dos próprios pesquisadores, relatos de pais, de professores, das próprias crianças e jovens conforme foram envelhecendo e a avaliação de psiquiatras. Para medir a influência do autocontrole nos itens de interesse, os pesquisadores usaram métodos estatísticos para isolar a variável autocontrole, sem estar misturada com gênero, classe social e QI, por exemplo, que são características que também poderiam ter efeitos sobre as condutas. Assim, o método estatístico utilizado permitiu verificar o impacto de cada uma dessas variáveis isoladamente nas condutas dos participantes. Desse modo, foi possível verificar se as diferenças nas condutas se deram de fato devido a diferenças no autocontrole ou devido a outras variações entre os participantes, como gênero, ou classe social.

Neste post, vamos focar no impacto do autocontrole apenas no comportamento financeiro. Para compreender os hábitos em finanças dos participantes da pesquisa, os pesquisadores avaliaram os salários, as dívidas, a capacidade de planejamento financeiro e seus hábitos de investimento quando adultos.

O que os pesquisadores descobriram?

A respeito do futuro salário das crianças, o estudo mostrou que o autocontrole não teve mais impacto do que a classe social ou o QI no valor do salário, mas influenciou especificamente outros comportamentos relacionados a finanças. As crianças com menos autocontrole planejavam menos aos 32 anos, poupavam menos e haviam adquirido menos produtos de investimento, como fundos de investimento ou reservas para aposentadora. Por fim, também detectaram que as crianças com menos autocontrole tinham mais problemas com dívidas na vida adulta. E uma observação importante: problemas de endividamento tem uma correlação mais forte com o autocontrole do que com a classe social de origem ou o QI, que por sua vez teve a correlação menos significativa com problemas financeiros futuros.

E por que essa informação importa?

Autocontrole é um comportamento que pode ser ensinado. O estudo inclusive constata que os sujeitos que melhoraram o autocontrole durante a vida – ou seja, quando adultos tinham um nível de autocontrole maior do que quando crianças – tiveram um bom desempenho na vida adulta nos indicadores avaliados. Os pesquisadores consideram que a primeira infância e a adolescência são períodos estratégicos para ensinar autocontrole de modo a influenciar condutas futuras. O autocontrole na adolescência, segundo os pesquisadores, é importante porque, nesse período da vida, os jovens podem tomar decisões que comprometem o futuro a longo prazo, como parar de estudar; ou então os coloca em situações irreversíveis, como ter filhos sem planejamento. Ao passo que intervenções na primeira infância podem prevenir essas condutas de acontecerem.

Também é relevante o resultado que o autocontrole na infância tem maior peso no endividamento futuro que a classe social de origem. Essa descoberta nos indica que se endividar, muitas vezes, é um problema causado por condutas e comportamentos, com tanto ou maior peso do que efetivamente o montante que se ganha. Saber disso é fundamental para ensinar comportamentos que previnam o endividamento, ou para montar programas de intervenção com pessoas endividadas que não estejam concentrados apenas no aumento de renda, mas também em aspectos comportamentais e de tomada de decisão.

Para finalizar, pontuamos que problemas financeiros são um fenômeno complexo, que não podem ser explicados em virtude de um único fator. Assim, não podemos afirmar que crianças com autocontrole menos desenvolvido serão, com certeza, adultos com problemas financeiros; nem afirmar com certeza que adultos endividados foram crianças com pouco autocontrole. Devemos ter em mente que diversos processos podem acontecer na vida das pessoas que as levam a ter problema de superendividamento, para além do grau de autocontrole desenvolvido na infância.

Ainda assim, esse estudo observou uma importante correlação entre o autocontrole e comportamentos financeiros específicos, e por isso ele é relevante.

E você? Concorda com os achados do estudo? Queremos saber sua opinião.

O artigo na íntegra está disponível aqui, e o apêndice do estudo, aqui.

4 thoughts on “Crianças com pouco autocontrole serão adultos com problemas financeiros?”

    1. Correto, Francisco. O artigo circunscreve uma compreensão específica do autocontrole e seu impacto nos comportamentos listados.
      Obrigada pelo comentário!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *