Existe uma preocupação mundial em promover o letramento financeiro de crianças e adolescentes e, por conseguinte, um número considerável de pesquisas se destina a analisar quais são os métodos mais efetivos de intervenções. Este é o caso do estudo “Four Bright Coins Shining at Me – Financial Education in Childhood, Financial Confidence in Adulthood” (em português “Quatro moedas brilhantes reluzem para mim – educação financeira na infância, confiança financeira na vida adulta”), que evidenciou, de forma estatisticamente significativa, que o recebimento de mesada durante a infância pode ajudar a produzir maior confiança financeira na idade adulta.

O objetivo desse estudo foi estimar se a prática de administrar pequenas quantias na infância é capaz de produzir efeitos a longo prazo, em termos de maior habilidade e confiança para lidar com assuntos financeiros na vida adulta.

O artigo utilizou os dados da pesquisa holandesa de domicílios DHS 2015 cuja coleta de dados se dá anualmente de forma longitudinal, isto é, com os mesmos indivíduos, desde 1993. A amostra obtida compôs-se de 2.128 lares, dos quais todos os membros com idade igual ou superior a dezesseis anos responderam questionários online.

Logo no começo da pesquisa, os indivíduos informaram o nível de conhecimento sobre finanças que acreditavam possuir dentre as seguintes opções: não é conhecedor, mais ou menos conhecedor, conhece e conhece muito. Daqueles que declararam ter recebido mesada durante a infância, 30,1% consideraram-se conhecedores ou muito conhecedores, ao passo que, 22,7% dos que não receberam mesada responderam da mesma forma. A diferença foi estatisticamente significativa.

O estudo realizou algumas análises de regressão. O primeiro modelo, do tipo probit ordenado, testou se havia correlação entre o nível de conhecimento financeiro autorreportado (variável dependente ou explicada) e a variável (explicativa) que representou o recebimento ou não de mesada entre oito e doze anos. A regressão incluiu um fator indicativo do ambiente em que o indivíduo foi criado, que descrevia se ele recebeu algum tipo de tutoria dos pais ou avós sobre como gerenciar um pequeno orçamento na adolescência – de doze a dezesseis anos. Além disso, o modelo também empregou variáveis de controle socioeconômicas, tais como – idade, gênero, educação, trabalho, estado civil, renda, composição familiar e indicadores regionais. Pôde-se observar que 54% da amostra declarou ter recebido mesada regularmente entre oito e doze anos.

Os principais resultados obtidos na análise comprovaram a hipótese de que os indivíduos que receberam mesada durante a infância tiveram maior probabilidade de atribuir a si maior nível de letramento financeiro. Além disso, o conhecimento financeiro de um adulto correlacionou-se com o fato de ter sido orientado por seus pais ou avós sobre como administrar o dinheiro durante a adolescência, de forma tão significativa quanto ter concluído curso universitário. Estes resultados sugerem que ser instruído para administrar pequenos orçamentos na adolescência, pode ter impacto comparável ao da educação formal no comportamento financeiro quando adulto.

No segundo modelo, também do tipo probit ordenado, foram inseridas novas variáveis que procuravam entender mais sobre a vida dos indivíduos. Elas consistiam em saber se – o sujeito executava pequenas tarefas domésticas na infância; se os pais exerciam ou não algum tipo de controle sobre como a mesada deveria ser gasta; se o respondente trabalhou de alguma forma durante a adolescência; e se foi estimulado diretamente pelos pais e/ou avôs a poupar dinheiro entre doze e dezesseis anos. A principal variável explicativa foi dividida em quatro níveis conforme a frequência de recebimento de mesada: sempre ganhou, recebia quase sempre, ganhava ocasionalmente e nunca recebeu.

Sendo assim, ao correlacionar o grau de conhecimento financeiro autorrelado com o recebimento de mesada, agora discriminado em quatro níveis, os resultados evidenciaram que somente aqueles indivíduos que receberam mesada sem interrupção durante toda a infância tiveram sua percepção aguçada sobre finanças na maturidade de forma significativa. Ter orientação sobre gestão de pequenos orçamentos na adolescência continuou associado de forma significativa a maior confiança financeira.

Os resultados obtidos nesta pesquisa são coerentes com as conclusões de outros estudos. Por exemplo, o artigo “Financial Literacy and Stock Market Participation” mostrou que, quanto maior o letramento financeiro do indivíduo, menores são suas chances de poupar insuficientemente e mais apto estará a construir sua aposentadoria. Dar mesada para crianças é uma forma relativamente simples e barata de lhes prover educação financeira, treinando sua capacidade de tomar decisões financeiras e efetuar planejamento.

Portanto, este estudo conseguiu mostrar como o simples gesto de dar autonomia às crianças para gerirem pequenos orçamentos aumenta a probabilidade de desenvolver conhecimentos financeiros consistentes. No entanto, para que a mesada tenha efeito educativo consolidado é importante que os pais mantenham a sua regularidade. Os resultados do artigo também fornecem evidências indiretas da importância de fornecer educação financeira para crianças não apenas com objetivo de lhes possibilitar o entendimento de noções de finanças pessoais e de escolhas financeiras, como também para desenvolver bons hábitos financeiros.

E você? Concorda que receber mesada na infância pode estimular o aumento de conhecimento e confiança financeiras? Que outro meio você utiliza para levar educação financeira às crianças e aos adolescentes? Conte para nós. Aguardamos seu comentário!

3 thoughts on “Como tornar as crianças mais confiantes financeiramente?

  1. Eu recebi mesada regularmente desde os 7 anos e aprendi a poupar logo cedo. Não gastava meu dinheiro com lanche na escola, por exemplo. Preferia levar de casa. Assim também desenvolvi bons hábitos alimentares.
    Sou favorável à educação financeira dos pequenos, pois acredito que aprender a lidar com o dinheiro com noções do valor das coisas é fundamental para se tornarem adultos responsáveis.

    1. Obrigada pelo comentário, Ana Cecília. Ao que tudo indica, quanto mais cedo entramos em contato com o conhecimento, mais fácil incorporamos hábitos financeiros saudáveis ao nosso dia a dia.

      Equipe COP/CVM.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *