Como falar com crianças sobre a relação entre consumo e educação financeira?

A visão das crianças sobre o dinheiro é, muitas vezes, tida como ingênua, pois elas ainda não internalizaram as concepções dos adultos a respeito da economia. Portanto, elas não só podem ser excluídas dos processos econômicos em geral, mas desconsideradas em termos de suas perspectivas, experiências e do seu papel social.

Acontece que elas vão crescer e precisam estar preparadas para a realidade econômica e, mesmo que ainda estejam em processo de desenvolvimento, é preciso lembrar que também fazem parte do sistema econômico e de consumo.

Um estudo finlandês, realizado por Minna Ruckenstein com crianças de 6 e 7 anos, buscou entender seus desejos de consumo, seu entendimento acerca do uso do dinheiro e o lugar que ele ocupa em suas vidas, bem como a diferença entre sua noção e a dos adultos, incluindo-as em uma Epistemologia do Consumo.

Ao realizar 10 entrevistas em grupo com 32 crianças pré-escolares, a pesquisadora notou que as elas demonstraram ter bastante consciência dos usos do dinheiro, de seu poder de compra e de sua origem (do trabalho, do banco, do cofre).

Todas as crianças entrevistadas haviam tido experiências com dinheiro e a maioria recebia dinheiro dos pais, avós ou outras pessoas, seja por tarefas realizadas em casa ou por qualquer outro motivo.

A importância de ensinar crianças mais novas a poupar, como apontado por Ruckenstein, reside em assegurar seus efeitos a longo prazo. O motivo de transmitir o conceito de economia está em sua dimensão temporal, em valorizar os objetivos e propósitos futuros em detrimento dos imediatos.

Ouvindo as crianças

A autora também destaca que, ao falar de dinheiro, as crianças costumam usar o discurso dos adultos, repetindo frases como “é mais importante guardar do que gastar dinheiro” e “o brinquedo estava muito caro”.

O modo de lidar com o dinheiro está inserido em determinadas realidades culturais, por isso é importante estar atento à especificidade do conhecimento transmitido de adultos para crianças em diferentes sociedades. Nos Estados Unidos, por exemplo, visitas a lojas de brinquedo são comumente utilizadas como cenários para ensinar crianças a gerir o dinheiro e a tomar boas decisões de consumo.

Pesquisa realizada no Brasil por Lellis, Magalhães e Leite (2011), com grupos focais de pais, constatou que a mesada constitui um fator importante para a socialização econômica. O estudo, realizado com pessoas de rendas variadas, mostrou que tanto pais com baixa renda quanto os de renda média acreditam ser importante dar mesada para os filhos, por ser um modo de aprenderem a lidar com o dinheiro, principalmente quando ele vem acompanhado de diálogo e orientações.

O hábito de poupar é considerado pelos adultos como um ensinamento vital para o futuro das crianças e da comunidade, enquanto gastar ou consumir é visto como um ato individual.

Nesse sentido, as crianças são ensinadas a tratar o consumo como algo com que se pode lidar individualmente, a fim de estimulá-las a refletir a respeito e a controlar seu próprio comportamento.

Lellis, Magalhães e Leite (2011) afirmam que os pais acreditam que dar mesada aos filhos, por menor que seja o valor, lhes ensina a economizar e administrar suas despesas. Em tese, a mesada ensinaria as crianças a planejarem suas compras e estabeleceria regularidade e controle da vida econômica.

Entretanto, as entrevistas realizadas por Ruckenstein demonstram que as razões das crianças para gastar nem sempre correspondem aos objetivos educacionais dos adultos. Por exemplo, elas não gastam se tiverem um motivo para manter o dinheiro, como dividir com colegas ou mesmo competir para ver “quem tem mais”, ou seja, como item colecionável. Nesse exemplo, gastar uma cédula ou moeda provoca um sentimento desagradável na criança pelo simples fato de prejudicar sua coleção – o que não faz muito sentido para um adulto, que vê o dinheiro como meio de troca e não como item colecionável.

As crianças entrevistadas revelaram dar dinheiro umas às outras, o que a autora interpreta como um gesto de reforço de laços sociais mútuos. Os adultos não costumam entender tais relações de troca entre as crianças, muitas vezes associando-as a perdas econômicas.

Portanto, se o dinheiro pode ser tido, por um lado, como destruidor de relações sociais (e econômicas), também pode ser, por outro, reinterpretado como um possível produtor de relações “multifacetadas e complexas”.

O estudo mostra que as crianças podem perceber as oportunidades propiciadas pelo dinheiro para transformar relações, mesmo que não o vejam como algo com poder inerente, mas reconhecendo nele uma fonte de liberdade.

Comportamento dos pais

Além da relação com a liberdade, o consumo tem estreita relação com o autocontrole, sendo que algumas crianças podem desejar brinquedos ou outros produtos de forma que os pais achem difícil de manejar ou entender.

Somando-se a isso, o estudo finlandês revelou que os pais agem muitas vezes de forma emocional e acabam consumindo de forma inconsistente e irracional, o que pode ser explicado pela Heurística do Afeto. Os pais se satisfazem com a satisfação de seus filhos, muitas vezes canalizando o afeto através de compras de bens de consumo.

Lellis, Magalhães e Leite (2011) citam estudo que concluiu que os pais, mesmo afirmando avaliar os pedidos dos filhos a respeito de sua relevância quanto a aumento ou adiantamento de mesada, ou outra solicitação financeira, costumam ceder aos apelos de forma incoerente com suas cognições. Questionados a respeito, os pais afirmaram que isso se dava por uma escolha e que seria mais fácil ceder do que negociar ou conversar com os filhos sobre possíveis problemas financeiros.

Finalmente, chega-se à conclusão de que é importante incluir as crianças em assuntos financeiros desde cedo, e sempre de forma adequada à sua idade, aprofundando-se de acordo com seu desenvolvimento, de modo a promover efeitos a longo prazo. Quando adultos, tais conhecimentos serão necessários. Porém, o pagamento de mesadas e os ensinamentos sobre a importância de economizar são maximizados quando acompanhados de orientações e explicações, estimulando a criança a refletir e a participar do planejamento financeiro da família.

E você, leitor? Como acha que as crianças devem ser inseridas em assuntos financeiros?

 

Lellis, I. L., Magalhães, C. M. C., Leite, I. D. L. O Significado da Mesada para Pais de Crianças e Adolescentes. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, 4 (1), 12-25, jan-jun, 2011.

Ruckenstein, M. Time Scales of Consumption: Children, Money and Transactional Orders. Journal of Consumer Culture. 10. 383–404. 2010.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *