Pesquisadores da Universidade de Duke e do Banco Mundial realizaram um experimento no Quênia¹, entre 2013 e 2014, com o intuito de compreender que tipos de intervenções são mais eficazes, e menos dispendiosas, para ajudar a aumentar a taxa de poupança dos países mais pobres.

Eles testaram dois tipos de intervenções psicológicas, avaliando sua eficácia e comparando-as com incentivos financeiros, e concluíram que as intervenções foram não só mais eficazes como mais baratas do que os incentivos. Além disso, constataram que o envio regular de lembretes para poupar, assim como dos saldos em conta, aumentou a média de poupança em 100%.

O Experimento

O objetivo principal do estudo consistiu em testar 2 intervenções psicológicas – apelo emocional e tangibilização do ato de poupar – a fim de testar sua eficácia e custo-efetividade, tanto individualmente quanto em comparação com incentivos financeiros.

Como o uso do celular é muito difundido no Quênia, esse foi o veículo escolhido para o experimento, implantado em parceria com uma seguradora local, que oferece planos de poupança por meio de telefonia móvel.

As intervenções foram realizadas durante 6 meses (24 semanas), com 2400 participantes já clientes da seguradora – e que, portanto, já teriam ao menos a intenção de poupar, embora não o fizessem regularmente – e 1464 não clientes, recrutados em favelas de Nairóbi.

Os grupos pesquisados foram assim divididos:

  1. Sem intervenção (linha de base do experimento);
  2. Grupo de controle: recebia apenas lembretes via mensagem de texto (sms), uma no início e outra no final de cada semana;
  3. Grupos de tratamento (recebiam os mesmos sms do grupo de controle e mais uma das intervenções abaixo):
    1. Moeda: recebia uma moeda dourada para ir riscando conforme conseguisse ou não poupar semanalmente;
    2. Filhos: recebia as mensagens como se fossem vindas dos filhos (iniciadas com “mãe” ou “pai” e assinadas com o nome do filho;
    3. Depósito prévio de 10%: recebia $10 em moeda local no início da semana, retirados da conta caso a pessoa não conseguisse poupar ao menos $100 até o final da semana;
    4. Depósito posterior de 10%: caso conseguisse poupar ao menos $100 até o final da semana, recebia $10 em moeda local;
    5. Depósito prévio de 20%: idêntico ao de 10%, só que com $20 de depósito prévio;
    6. Depósito posterior de 20%: idêntico ao de 10%, só que com $20 de depósito posterior;
    7. Intervenções combinadas:
      1. Depósito prévio de 10% + sms do filho;
      2. Depósito posterior de 10% + sms do filho;
      3. Depósito prévio de 10% + moeda;
      4. Depósito posterior de 10% + moeda.

 

Conclusões

O grupo que recebeu a moeda foi de longe o que conseguiu poupar mais: média de $1461 de saldo durante a intervenção contra $674 do grupo de controle, o que leva a crer que tangibilizar o ato de poupar é uma estratégia bastante eficaz no incentivo à poupança.

A média desse grupo foi maior inclusive do que as dos grupos que combinaram a moeda com o incentivo financeiro. Uma das hipóteses aventadas é de o limite de $100 tenha provocado o viés da ancoragem, não só funcionando como âncora psicológica, mas desestimulando a pessoa a poupar além desse valor, já que não receberia nada a mais por isso.

Além disso, o estudo constatou que a intervenção psicológica é mais eficaz e muito menos dispendiosa do que o incentivo financeiro, o que a torna mais interessante em termos de escalabilidade, quando se pensa em ações para atingir a toda uma população.

Finalmente, enviar lembretes regulares é outra estratégia que merece destaque – uma vez que, além de barata e fácil de implementar – foi responsável por aumentar o saldo médio da poupança de $266 no grupo sem intervenção (que não recebeu mensagens) para $674  no grupo de controle (que recebeu apenas mensagens).

Este experimento nos ensina que podemos implantar, por nós mesmos, estratégias simples para nos ajudar a poupar: Que tal programar lembretes no celular para lembrar de depositar uma quantia semanal?

Outra dica é utilizar aplicativos que lhe ajudem a monitorar visualmente seus investimentos e ir acompanhando sua progressão para alcançar uma meta pré-definida, assim é possível ver o montante crescer a cada depósito, de modo mais concreto.

Há quem seja cético em relação a este tipo de mecanismo, mas já existem vários estudos, como este aqui discutido, demonstrando a eficácia de tais truques para tornar a experiência de poupar mais gratificante, diminuindo a sensação de privação ao consumo e associando o ato de poupar a algo prazeroso e recompensador.

E você? Consegue pensar em outras estratégias para tangibilizar o ato de poupar? Conte pra nós! Aguardamos seu comentário!

 

[1] Akbaş, Merve; Ariely, Dan; Robalino, David A. and Weber, Michael. How to Help the Poor to Save a Bit: Evidence from a Field Experiment in Kenya. IZA Discussion Paper No. 10024. Disponível em SSRN: <https://ssrn.com/abstract=2803856>. Acessado em: 13/01/2017.

6 thoughts on “Como Ajudar os Pobres a Pouparem um Pouco?

  1. Hoje, a poupança programada, que pode ser feita em vários bancos, até por um aplicativo, funciona muito bem. Aquele dinheiro já sai de sua conta como se fosse uma dívida e o “bolo” aumenta mensalmente.

  2. Senhores.
    Acredito muito no lembrete do sms e no aumento de depósito quando o cliente percebe que começa a ter dinheiro na poupança, o que estimula a depositar sempre ou mais.

    Hans

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