O artigo “Colocando nudges[1] em perspectiva” escrito por George Loewenstein e Nick Chater, publicado em junho de 2017, traz uma visão crítica sobre a aplicação da economia comportamental nas políticas públicas.

O uso de nudges tem sido bem sucedido para promover o bem-estar dos cidadãos, mas os autores fazem uma ressalva quanto à tendência dos órgãos e formuladores de políticas públicas de reduzir a economia comportamental aos nudges. Isto porque são uma solução rápida e de baixo custo que utiliza atalhos no processo de decisão individual (heurísticas) para induzir os indivíduos a fazerem escolhas melhores. No entanto, problemas na tomada de decisão podem ser de ordem estrutural (e não comportamental), de forma que intervenções de contato leve, como os nudges, podem ser soluções insuficientes no longo prazo.

Para ilustrar o argumento de que a economia comportamental pode fazer parte das políticas públicas de forma mais abrangente, os autores utilizam uma matriz para relacionar as razões para intervir e os tipos de intervenções. Estes podem ser pautados na economia tradicional em um híbrido entre a abordagem tradicional e a comportamental e/ou na economia comportamental isoladamente.

Razões para intervir puramente baseadas na economia tradicional são aquelas relacionadas à externalidades e assimetria de informação como o hábito de fumar, que impõe aos não fumantes um custo associado ao fumo passivo. Por outro lado, aquelas baseadas na economia comportamental estão relacionadas a internalidades, como é o caso de fumantes que não assimilam completamente o risco de fumar à sua saúde no longo prazo – o que pode estar relacionado ao viés do presente.

Quanto aos tipos de intervenção, os impostos e subsídios são típicos recursos da economia tradicional, por exemplo, elevar os tributos incidentes sobre os cigarros e, consequentemente, aumentar o custo para os consumidores. Já os avisos nas caixas de cigarro com imagens fortes e negativas são casos de intervenções comportamentais.

A interação entre empresas e consumidores, por exemplo, pode ser analisada pela perspectiva híbrida: empresas procuram maximizar seus lucros impondo externalidades à sociedade (vertente tradicional), mas o fazem explorando as internalidades de seus consumidores (vertente comportamental).

Os autores, além de exemplificar o seu argumento a partir de políticas direcionadas ao fumo, também mencionam ações destinadas ao combate da obesidade e ao aumento da poupança para aposentadoria, que já incluem a economia comportamental na sua formulação.

Ainda assim, os autores elegem o aquecimento global, a desigualdade e as mudanças nas estruturas do trabalho humano devido às evoluções tecnológicas como os principais problemas globais. Atualmente, essas questões são entendidas e combatidas por meio da economia tradicional, como taxar emissões de CO2. No entanto, o artigo argumenta que também devem ser discutidas dentro da ótica da economia comportamental.

No caso do aquecimento global, as políticas públicas e acordos internacionais giram em torno de regulação e taxação, principalmente de empresas e produtos. A proposta da economia comportamental é potencializar essas medidas, a partir, por exemplo, do framing – pagar impostos por emissão de carbono separado de outros impostos, evidenciando o gasto da empresa com isso, o que levaria à procura por tecnologias que reduzissem esse custo.

Nesse sentido, mesmo que o problema tenha origem nos postulados da economia tradicional, talvez o tipo de resposta mais eficiente seja uma intervenção comportamental – ou o contrário. O importante é que os formuladores de políticas não se restrinjam a intervenções tradicionais e, ainda, que não limitem a ação da economia comportamental a nudges. O argumento dos autores é de que os problemas mais desafiantes demandam a atenção de ambas as vertentes.

 

 

[1]“Nudge” (pequeno empurrão em inglês) é uma ferramenta comportamental que consiste em compor o ambiente de decisão e/ou simplificar cuidadosamente as informações apresentadas, de tal forma que o indivíduo naturalmente opte pela escolha que lhe traz o maior bem-estar. Caso queira saber mais sobre nudges, acesse o post que fizemos sobre o tema.

 

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