Teorias convencionais de processo decisório financeiro presumem indivíduos racionais, totalmente informados e que objetivam avaliar os riscos de investimento pela volatilidade dos rendimentos. Tais modelos preveem que as pessoas investem uma fração positiva da sua riqueza no mercado de ações e diversificam a carteira de investimentos. Entretanto, a evidência empírica mostra que o comportamento financeiro real é difícil de explicar a partir de um modelo totalmente racional. As pessoas geralmente não estão confortáveis ​​com o risco e percebem as perdas como ´maiores do que os ganhos’.

Usando dados da ING International Survey (IIS), o artigo de Maria Ferreira “Cross-Country Differences in Risk Attitudes Towards Financial Investment[1] divulgou uma pesquisa sobre atitudes de risco financeiro de indivíduos em 15 países e identificou fatores relevantes que afetam a propensão a assumir riscos em investimentos. Os resultados apontam uma atitude de aversão ao risco em toda a amostra de aproximadamente 12.500 pessoas e sugerem que nem sempre se sustenta a teoria de que o desejo de aumentar os investimentos em produtos com maiores rendimentos é diretamente proporcional à disponibilidade de correr risco.

  • Dados e Framework

A pesquisa incluiu um conjunto de perguntas sobre as atitudes de risco pessoais para oito opções de poupança/investimento, porém o artigo concentrou sua análise em três opções: ações, fundos de investimentos e títulos. Os pesquisadores analisaram como os indivíduos diferem em suas crenças pessoais e subjetivas sobre os riscos financeiros e sobre os benefícios destas opções de investimento. Ademais, buscaram como as crenças estão correlacionadas com a probabilidade de investirem nestes produtos.

Para esta análise, os pesquisadores seguiram a escala psicológica de risco-retorno de escolha arriscada (Weber et al., 2002) em que a atitude de risco (individuo gosta ou não do risco financeiro) reflete um trade-off entre (a) os riscos pessoais percebidos e (b) os benefícios percebidos das alternativas de investimento.

  • Riscos percebidos e benefícios esperados

Instituições, cultura e fatores geográficos parecem ter uma influência significativa sobre a formação das percepções de risco-benefício individuais associados ao investimento financeiro. Os dados apontaram que pessoas que vivem na Holanda, Áustria e Alemanha pensam que os investimentos em ações, títulos e fundos de investimento são, em média, extremamente arriscados e seus retornos esperados, muito baixos. Em contraste, as populações nos EUA, Turquia, Reino Unido e Austrália tendem a ter exatamente a crença oposta, ou seja, investir em ativos financeiros aparenta ser altamente benéfico com um risco percebido abaixo da média de outros países.

Ampliando as correlações específicas de cada país entre risco financeiro e benefícios percebidos, a heterogeneidade significativa na força de tais relações se torna evidente. O fato mais marcante é que na Holanda, Bélgica, República Checa e Turquia não existe um padrão significativo na forma como as pessoas constroem suas percepções de riscos financeiros e benefícios. Além disso, as pessoas que vivem na

Alemanha, Áustria e Polônia parecem ter a crença contraintuitiva de que, quanto mais arriscado o investimento, menores são os benefícios esperados.

  • Caçadores de risco ou avessos ao risco?

O principal resultado da pesquisa foi uma associação negativa significativa entre a percepção de riscos financeiros e propensão ao risco. De acordo com o quadro de risco-retorno psicológico, nos 15 países da amostra, as pessoas são, em média, avessas ao risco de investimentos em ações, títulos e fundos de investimento.

Em relação aos riscos financeiros, a pesquisa apontou que as mulheres são mais avessas ao risco do que os homens, que as pessoas desenvolvem maior aversão ao risco com a idade, porém se tornam mais abertas ao risco à medida que possuem mais estudo e maior renda. Além disso, indivíduos casados ​​são mais tolerantes ao risco quando comparados a indivíduos solteiros, mas ter filhos aumenta a aversão ao risco. Concluiu-se também que indivíduos empregados são mais abertos a assumir o risco do que desempregados e aposentados e que os proprietários de imóveis são mais dispostos a correr riscos do que inquilinos.

 

 

[1] Ferreira, M. Cross-Country Differences in Risk Attitudes Towards Financial Investment. In: Samson, A. (Ed.)(2018). The behavioral Economics Guide 2018 (with an introduction by Robert Cialdini). Disponível em: http://www.behavioraleconomics.com

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