Nosso blog contém uma pergunta que é antes um convite à reflexão. Quais são os fatores que influenciam decisivamente a tomada de decisões? Pode a educação, em especial a financeira, desempenhar um papel decisivo na mudança comportamental? Quais são as formas mais efetivas de promover, em larga escala, atitudes e comportamentos que melhorem o bem estar financeiro da população? Esses são alguns dos questionamentos que estão por detrás da interrogação.

Cada vez mais questiona-se se somos plenamente racionais ao tomar decisões financeiras. Para os autores Richard Thaler e Cass Sustein, se algumas das assunções tradicionais sobre o comportamento humano são realmente válidas, o ser humano teria a capacidade de raciocínio de um Albert Einstein, a memória de um supercomputador e a força de vontade de um Gandhi. Mas se não somos plenamente racionais, o que nos influencia? Como um maior grau de informação a esse respeito pode ajudar a desenhar políticas públicas mais eficientes?

Uma resposta tradicional entre os reguladores financeiros é o investimento em programas educacionais. No entanto, sem deixar de reconhecer o papel fundamental da educação, a verdade é que, no campo financeiro especialmente, há ainda um alto grau de incerteza de predizer com segurança como o comportamento do indivíduo será afetado por intervenções educacionais. Como salienta um relatório do Banco Mundial, há uma crescente evidência, proveniente das pesquisas em economia comportamental, a demonstrar como fatores sociais, psicológicos e emocionais podem afetar dramaticamente o comportamento, embora nem sempre sejam considerados plenamente pela visão tradicional. Na presença desses fatores, o link de causalidade entre o conhecimento e o comportamento pode ser quebrado. No entanto, investigar os fatores que ligam a intervenção ao comportamento não é uma tarefa simples e certamente demanda contribuições de diversas disciplinas que analisam a tomada de decisões. Assim, um diálogo interdisciplinar parece ser necessário se o objetivo é desenhar intervenções que busquem ajudar as pessoas a tomarem decisões financeiras adequadas aos seus objetivos e preferências.

Logo, como diversos países já vem reconhecendo, há uma clara e urgente necessidade de se dispor de políticas públicas que sejam baseadas em sólidas evidências sobre o que funciona ou não quando o objetivo é ajudar o cidadão a fazer melhores escolhas financeiras para si próprio. Explicar como essa percepção foi se formando aos poucos é útil para compreender os movimentos mais recentes e que nos levaram a este blog.

A origem mais remota dessa reflexão pode ser apontada no projeto piloto de educação financeira em escolas de Ensino Médio, coordenado pela CVM no âmbito dos trabalhos coletivos de desenvolvimento da Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Naquela iniciativa, conduzida entre 2009 e 2011, promoveu-se, de forma inovadora, a inclusão de conteúdos de psicologia econômica no material didático dos alunos e dos professores, chamando a atenção dos estudantes para os erros sistemáticos em tomada de decisão.

Um relato sucinto do uso da psicologia econômica na educação financeira nas escolas foi publicado em junho de 2013 pela OECD. Essa experiência, aliada à experiência internacional, conduziu a um levantamento de teorias e modelos de potencial interesse para a nossa atuação. Chegamos assim ao presente Blog, que tem o objetivo de ampliar o acesso aos debates e compartilhar o que aprendemos, ao longo do nosso caminho, com projetos nossos e de nossos parceiros, além de disseminar resultados públicos de estudos e pesquisas de outras entidades, no Brasil e no exterior.

Foi do exterior que colhemos muitos subsídios para essa nova atuação, merecendo menção o “Behavioral Insights Team” do Reino Unido, que tem como propósito aplicar insights da pesquisa acadêmica em Economia Comportamental e Psicologia a políticas públicas e serviços. Também a CVM britânica, a Financial Conduct Authority, desenvolveu uma política para a aplicação de economia comportamental em sua atuação e, mais recentemente, os Estados Unidos e a Alemanha. Mas isso é assunto para o próximo post…

 

21 thoughts on “Bem-vindo ao nosso Blog “Penso, Logo Invisto?”

  1. Muito bom o artigo… recentemente li alguns livros sobre temas parecidos e nossas decisões são frutos de “memórias” gravadas em nosso subconsciente. Se essas memórias forem voltadas para uma vida financeira de sucesso, nossas atitudes tbm serão. Caso contrário estamos fadados ao insucesso. Tudo depende da forma como somos ensinados e dos exemplos que temos gravados em nossa mente! Abraços!

  2. o governo deveria regulamentar o credito consignado para nao criarmos no futuro(e bota futuro nisso) uma populacao totalmente individada com taxa de juros escorchante.Por favor nao adi(anta) comparar com taxas de cartao de credito pois a referencia nao se aplica

  3. Certa vez vi a notícia de que juízes britânicos absolviam mais os réus, ou abrandavam suas penas, depois de terem almoçado. Antes de almoçar, se fossem sentenciar, a mão era pesada. E quantas e quantas vezes negociamos de modo errado porque queremos muito o objeto negociado. Nossas ações são resultado de nossas vontades, carências, etc. Mas o Estado, indutor mor da economia atual brasileira, tem sim sua responsabilidade ao dar crédito muito facilmente e ao permitir propagandas que viabilizam crédito para “negativados” – o resultado, é claro, é uma crescente população de super-endividados…Parabéns pelo Blog e a iniciativa de seus fomentadores de tentar colocar em mais evidência assunto de tamanha importância.

    1. Obrigada Rafael. Estamos trabalhando para trazer essas e outras questões para debate e, quem sabe, poder contribuir para a melhoria das políticas públicas. Abs,

  4. Fiquei sabendo hoje do site pelo jornal Valor Economico. Sou psicóloga de graduação (1893) e atuei em RH por 5 anos, depois meu foco de atuação está na área financeira ( sou Agente Autônomo de Investimentos, Consultora de investimentos credenciada pela CVM e realizo pesquisas e estudos particulares em credito desde 2004 devido minha larga experiência em instituições financeiras, como gerente de bancos e superintendente de intuição financeira por mais de 20 anos.
    E como nunca abandonei os estudos em comportamento na área de psicologia, fiquei muito contente com esta nova área de estudos no Brasil.
    Me coloco a disposição para contribuir no que for possível no andamento dos estudos em questão, se for o caso, de forma graciosa.
    Parabéns pela iniciativa!
    Att
    Luisa V A F Machado
    031-8837-0357

    1. Obrigada Luisa. É sempre bom ter com quem trocar informações. O objetivo do blog é esse mesmo. Estamos reunindo conteúdo e aguardamos seus comentários nos próximos posts!

  5. Parabéns pelo blog, creio que é mais um canal que aproxima o investidor / estudantes junto ao órgão normatizador. Espero que seja uma ação perene.

    1. Obrigada Alex. Ainda estamos engatinhando, mas esperamos fazer do blog um canal de comunicação permanente com os estudantes e demais interessados no assunto.

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