A FCA é um dos órgãos reguladores que passou a aplicar insights de Economia Comportamental em sua atuação. Para quem não conhece, trata-se de entidade responsável pela supervisão dos serviços financeiros no Reino Unido, tendo como objetivos:  proteger consumidores; assegurar a estabilidade da indústria financeira; e promover a competição entre provedores de serviços financeiros, detendo, para tanto, poderes para investigar e punir os infratores às suas normas.

Trata-se de entidade recentemente criada, é verdade, mas que herdou uma longa tradição educacional e de pesquisa da FSA – Financial Services Authority. Em 2013, a FSA foi desmembrada em duas entidades reguladoras: a já mencionada FCA e a Prudential Regulation Authority – PRA, que é parte do Banco da Inglaterra, a qual é responsável pela regulação prudencial e supervisão de bancos e outras entidades.

Em abril de 2013, a FCA publicou o relatório (Ocasionnal Paper nº 1), intitulado “Applying behavioural economics at the Financial Conduct Authority” (ou “Aplicando economia comportamental na FCA”, em uma tradução livre). O trabalho sintetiza algumas das principais lições da economia comportamental para os mercados financeiros, segundo a visão do regulador britânico, apontando como os indivíduos podem cometer erros muitas vezes previsíveis na escolha e na utilização de produtos e serviços financeiros, bem como, de que forma as instituições reagem ou respondem a esses equívocos.

 

No preâmbulo do relatório, o CEO da FCA, Sr. Martin Wheatly, sem deixar de reconhecer que a aplicação da Economia Comportamental trazia novos desafios, registrou acreditar que o uso de insights de Behavioral Economics, junto com a análise tradicional de competição e de falhas de mercado, poderia ajudar a entidade a ser um regulador mais efetivo.

O estudo, evidentemente, pontua que nem sempre as pessoas tomam decisões financeiras de uma forma racional e calculada. Muitas vezes, decide-se de forma intuitiva e automática, não de uma maneira refletida e controlada, apontando-se para o fato de que a literatura acadêmica tem identificado certos vieses comportamentais, que podem fazer com que as pessoas julguem de forma inadequada fatos importantes para a sua decisão, além de decidir de forma inconsistente – por exemplo, quando uma pessoa decide diferente diante das mesmas opções, apenas porque a forma de apresentação foi alterada.

Embora essas considerações sejam, de certa forma, intuitivas, já que todos sabemos que cometemos erros ao decidir, o estudo destaca que se pode ir além da intuição e ser mais preciso na detecção, compreensão e solução desses problemas.

Assim, o relatório se divide em duas partes, uma abordando como os consumidores cometem previsivelmente certos erros ao escolherem produtos financeiros, além de refletir sobre como isso afeta as instituições financeiras. E outra descrevendo como a Economia Comportamental pode e deve ser utilizada pelo regulador.

Um aspecto que merece destaque diz respeito aos pontos considerados especialmente importantes quando se trata de produtos financeiros. De natureza abstrata e pouco tangível, usualmente possuem muitas especificidades e apresentam estruturas de custos mais complexas, ao contrário de outros tipos de produtos onde é possível entender mais claramente o que se recebe como benefício e calcular mais facilmente o preço/custo.

Mais ainda, muitos produtos financeiros envolvem trocas entre presente e futuro, tratando-se de decisões intertemporais, sendo que as pessoas rotineiramente decidem de forma contrária aos seus interesses de longo prazo, geralmente devido a problemas de autocontrole.

Outro ponto salientado diz respeito a fatores como stress, ansiedade e aversão a perdas, os quais podem ser mais determinantes para a decisão a ser tomada do que a análise racional de custos e benefícios de cada opção.

Também é registrado que, para certas situações, há alguma possibilidade de aprender a partir dos erros passados, o que não se verifica com decisões financeiras menos frequentes, onde a possibilidade de aprendizado é reduzida e as consequências negativas podem se revelar apenas após um longo período de tempo.

O estudo também menciona alguns vieses que afetam as decisões financeiras de forma relevante, organizados em categorias conforme afetem nossas preferências (influenciadas por emoções, experiências etc). Chama-se a atenção, ainda, para o papel fundamental dos provedores de serviços financeiros em modelar as opções oferecidas aos consumidores, o que pode exacerbar alguns dos vieses e causar problemas, muitas vezes de uma forma que não está sendo sequer percebida pela instituição financeira.

Na 2ª parte do relatório, os autores comentam como a FCA já começou a colocar em prática esses insights, identificando situações em que vieses comportamentais podem causar prejuízos aos consumidores, priorizando sua solução, compreendendo suas causas e desenhando intervenções mais efetivas para proteger o consumidor.

Finalmente, o estudo conclui opinando que as lições da Economia Comportamental podem ter implicações para diversas funções da Financial Conduct Authority.

 

5 thoughts on “Behavioural Economics na Financial Conduct Authority (FCA) do Reino Unido

  1. Olá! Assinei este blog recentemente, e encontrei-o através do site sobre a Estratégia Nacional de Educação Financeira do Brasil, quando efectuava pesquisas sobre programas e iniciativas de educação financeira no país.

    Sou de Moçambique e trabalho no banco central. Há cerca de 1 ano e meio criamos o Departamento de Supervisão Comportamental e, dentro dele, uma área de educação financeira da qual faço parte. Estamos ainda a aprender e o Brasil tem sido uma das nossas principais fontes de inspiração.

    Sou formada em Psicologia Social e Organizacional e gostaria muito de aliar esta minha formação à area de protecção do consumidor e educação financeira e este artigo tocou num assunto que tenho estado a pesquisar e gostaria de aprofundar mais o meu conhecimento nesta área, através de uma formação e inovar na minha instituição e no meu país.

    Gostaria que me ajudasse dando referências de instituições, países com formações nesta área. O FCA do Reino Unido seria uma delas mas se o Brasil também já tiver cursos curtos, à distância ou Mestrado na área, melhor.

    Obrigada!

    1. Prezada Sra. Kátia,

      Agradecemos seu interesse pelo nosso blog, porém informamos que, embora tenhamos uma área de Educação Financeira e outra de Estudos Comportamentais, não temos conhecimento sobre todas as iniciativas educacionais existentes no Brasil. Portanto, poderíamos cometer alguma injustiça ao indicar determinadas instituições, deixando outras de fora.

      Sugerimos, no entanto, que consulte as iniciativas de outros órgãos reguladores, entre eles os da Austrália, do Canadá e dos Estados Unidos. Além disso, consulte materiais como o BE GUide e o Guia de Economia Comportamental, assim como as fontes e autores citados aqui no blog. Com isso, acreditamos que já terá um importante ponto de partida.

      No que se refere à Educação Financeira, consulte também o nosso Portal do Investidor: http://www.investidor.gov.br/

      Atenciosamente,
      Equipe COP/CVM.

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