As crises econômicas podem afetar o apetite por risco?

Os acontecimentos do passado têm o potencial de servir como experiências e lições para atitudes tomadas no presente. A crise de 2008, por exemplo, resultou em diminuição de patrimônio e renda, além de perdas de emprego que impactaram negativamente o mercado de trabalho. Há indícios que ela afetou também o comportamento dos investidores.

Um artigo publicado em 2020, por Lippi e Rossi, parte do pressuposto que o cenário de crise influencia a tolerância a risco de investidores e busca demonstrar como isso ocorreu durante a crise 2008, na Itália. Mesmo sendo difícil medir a tolerância a risco por sua natureza multidimensional, mudanças neste fator podem levar a ajustes na alocação de ativos, mudanças no portfólio e no planejamento financeiro, segundo os autores.

Ao tratar de tolerância e apetite por risco, é importante fazer uma observação a respeito do conceito de “aversão a risco”: muitos autores de Finanças Comportamentais argumentam que não há aversão a risco, apenas aversão a perdas. Segundo esta lógica, em situações de perda, os investidores estão dispostos a correr ainda mais riscos, em busca de reverter o cenário, da mesma forma que evitam riscos quando estão ganhando, como explicamos em outro post aqui do blog.

A pesquisa obteve dados reais de portfólios de investidores e suas escolhas de 2003 a 2017, incluindo a crise de 2008, fornecidos por uma associação de empresas de gestão de ativos que operam na Itália e incluem informações como gênero, idade, estado civil e composição de portfólio.

Os autores levantam hipóteses em cenários sem e com crise. As hipóteses de interesse levantadas pelos autores são de que, quando comparado com um cenário sem crise, durante uma crise:

  • a tolerância ao risco diminui mais fortemente conforme a idade aumenta;
  • a relação entre nível educacional e tolerância ao risco não é significativa,
  • a relação entre nível de riqueza e apetite por risco permanece positiva.

Segundo os dados coletados, as escolhas de portfólio sofreram oscilações antes e depois da crise, tendo sido reduzido drasticamente, por exemplo, o número de investidores de alto risco depois de 2008, quando comparado com os anos anteriores. Porém, vale observar que, a partir de 2008, muitos investidores passam a investir na faixa considerada de médio risco.

Tolerância ao risco Número de investidores 2003-2008 % Número de investidores

2009-2017

%
Baixa 1869 25,02 2234 19,94
Média 1618 21,66 8304 74,11
Alta 3983 53,32 667 5,95
Total 7470 100 11205 200

Tabela: Distribuição de investidores em relação à tolerância ao risco.

Os dados coletados foram divididos em duas amostras: pré-crise (2003-2008) e crise (2009-2017). A intenção era observar os efeitos econômicos e financeiros da crise no apetite de risco.

A primeira hipótese aqui citada (a tolerância ao risco diminui mais fortemente conforme a idade aumenta, quando em um cenário negativo) foi confirmada. Isso quer dizer que de 2003 a 2008, período de crescimento macroeconômico, a variável de idade não parecia ser significativa. Porém, após 2009 houve uma relação negativa e significativa entre apetite de risco e idade, embora não necessariamente linear.

A pesquisa demonstrou que, até 2008, investidores com maiores níveis educacionais eram mais tolerantes ao risco, corroborando a literatura sobre o assunto. A partir de 2009, entretanto, o nível de educação se tornou uma variável com baixo poder explicativo, levando os autores a acreditarem que isto seria um efeito de achatamento provocado pela crise e, consequentemente, confirmando a hipótese de que a relação entre nível educacional e tolerância ao risco não é significativa.

Já a hipótese “durante uma crise, a relação entre nível de riqueza e apetite por risco permanece positiva” foi descartada. Isso se deve ao fato de encontrarem em seu trabalho que em cenários macroeconômicos negativos, os mais ricos tendem a ser menos tolerantes a riscos, enquanto o coeficiente associado aos investidores de varejo não é estatisticamente significativo.

Hoje, vivenciamos a pandemia do novo coronavírus, um choque exógeno com consequências na vida cotidiana que causa incertezas na economia. Uma pesquisa feita por Bu, Hanspal, Liao e Liu (2020) com estudantes universitários em Wuhan, serve para corroborar alguns pontos levantados por Lippi e Rossi (2020). A pesquisa consistiu de uma série de questionários iniciados em outubro de 2019 e tinha a intenção de avaliar como crenças em sorte e superstição afetavam a tomada de risco e comportamento de investimento, mas tomou um novo rumo com a chegada do vírus  à cidade.

Os autores encontraram em seus dados que pessoas mais expostas ao contexto das consequências da COVID-19 (localizadas em Wuhan durante a pandemia, quando comparadas a outras longe da cidade) eram menos dispostas a assumir investimentos arriscados e apresentaram crenças mais pessimistas em relação à economia, mercado de ações, e seu próprio patrimônio. Embora se tenham poucos resultados conclusivos sobre o comportamento dos investidores nesse contexto, uma vez que a crise ainda está em curso, Bu e colegas documentam que preferências gerais de risco foram afetadas de forma uniforme pela pandemia.

Isto busca salientar que o contexto macroeconômico tende a influenciar significativamente a tolerância a risco dos investidores, podendo mudar suas alocações de ativos nos portfólios e guiando suas decisões econômicas. Esse é um tópico em que os aspectos psicológicos se fundem e interagem com as oportunidades financeiras e as condições macroeconômicas, servindo como reflexão para o modo como as decisões financeiras são tomadas.

Referências:

Lippi, A. and Rossi, S. (2020), “Run for the hills: Italian investors’ risk appetite before and during the financial crisis“, International Journal of Bank Marketing, Vol. 38 No. 5, pp. 1195-1213.

Bu, D., Hanspal, T., Liao, Y., and Liu, Y. (2020), Risk taking during a global crisis: Evidence from Wuhan, Working Paper.

Leitura sugerida:

Szyszka, A., Behavioral Anatomy of the Financial Crisis (April 8, 2011). Journal of CENTRUM Cathedra, Vol. 3, Issue 2, pp. 121-135, 2010.

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