Já sabemos que os vieses comportamentais podem afetar nossas decisões financeiras, mas e quanto a nossa percepção de risco?

Em seu artigo, intitulado Risk Profiling Through A Behavioral Finance Lens, Michael Pompian (CFA), aponta certas falhas no processo padrão para avaliar o perfil de risco do investidor e defende a necessidade de analisar a tolerância a risco sob o prisma das Finanças Comportamentais.

Fizemos um breve resumo do artigo para quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre o assunto.

Muito já foi falado aqui a respeito de como os vieses comportamentais estão presentes nas decisões do investidor. Mas e quanto a sua tolerância a risco, até que ponto tais vieses podem afetá-lo e o que pode ser feito para minimizar tal efeito?

Pompian divide os vieses em cognitivos e emocionais. Os primeiros têm relação com o que pensamos e os últimos com o que sentimos. Segundo ele, essa divisão é importante por nos ajudar a identificar o modo correto de orientar o investidor.

De acordo com o autor, uma vez que é bem complicado mudar a forma como as pessoas sentem, a melhor maneira de lidar com os vieses emocionais é pela via da adaptação. Já os vieses cognitivos por estarem relacionados à maneira como nos organizamos mentalmente, permitem atuar no sentido da moderação, ou seja, mudando o que o investidor pensa ou sabe.

O artigo propõe uma matriz de como essa abordagem deve ser utilizada, considerando a riqueza do investidor, já que, independentemente de seu apetite para o risco, sua riqueza limita sua capacidade de suportar riscos:

Vieses Cognitivos

Nível de Riqueza Alto

Vieses Emocionais
Moderar e adaptar Adaptar
Moderar Adaptar e moderar

Nível de Riqueza Baixo

Para entendermos como tais elementos se relacionam – perfil de risco e vieses comportamentais – o artigo faz uma importante distinção entre o apetite e a capacidade do investidor para o risco. O apetite é a quantidade de risco que o investidor está disposto a tomar visando a determinada recompensa. A capacidade é a habilidade de suportar perdas sem prejudicar seus objetivos financeiros.

Para Pompian, todo investidor deveria ser capaz de compreender essa relação entre o que quer (apetite) e o que pode (capacidade) em termos de risco. Portanto, um dos principais objetivos de quem orienta o investidor é ajudá-lo a ajustar seu apetite a sua capacidade.

O principal entrave com respeito a tal orientação, segundo ele, é o fato de que nem todos os riscos são conhecidos – e é justamente aí que os fatores comportamentais incidem mais: quando o investidor espera um determinado grau de risco, mas o resultado ultrapassa os limites do inesperado, ou seja, do que ele não achou que seria possível acontecer.

Pompian divide os investidores em 4 tipos, de acordo com a tolerância a risco e os principais vieses (se emocionais ou cognitivos). Nas duas pontas, estão os mais sujeitos aos vieses emocionais: os conservadores, por ficarem muito abalados pela possibilidade de perder dinheiro e se estressarem demais em momentos de crise ou mudanças; e os agressivos, por sofrerem de autoconfiança excessiva e se enganarem a respeito do grau de controle que possuem sobre o resultado de seus investimentos.

No meio, estariam os investidores mais sujeitos aos vieses cognitivos e, portanto, mais permeáveis aos efeitos da educação, podendo tirar grande proveito do reconhecimento de seus próprios vieses e tomar melhores decisões financeiras a partir daí.

Conservador

Moderado Expansionista

Agressivo

Tolerância

Baixa

Média Alta

Altíssima

Principal Tendência

emocional

cognitivo cognitivo

emocional

Vieses

Efeito Posse ou Dotação

Arrependimento Conservação

Autoconfiança excessiva

Aversão a perda

Efeito retrovisor Disponibilidade

Auto-controle

Status quo

Framing Confirmação

Afinidade

Ancoragem

Dissonância Cognitiva Representatividade

Ilusão de controle

Contabilidade Mental

Recenticidade Auto-atribuição

Resultado

 

Foge ao objetivo deste post entrar nas minúcias de como tratar cada viés, de cada tipo de investidor, já que isso que está detalhado no artigo original (em inglês), mas cabe destacar a lição de que os investidores mais afetados pelo lado emocional precisam ser orientados de maneira diferente dos que são mais orientados por seu lado cognitivo.

Resumidamente, as dicas do autor na orientação a cada tipo de investidor são as seguintes:

  • Conservador: a orientação desse tipo de investidor deve centrar mais no aspeto global do portfólio, sem entrar demais nos detalhes técnicos; levar em conta a situação de vida do investidor (e seus aspectos emocionais); e relacionar as opções de investimento com questões práticas a serem resolvidas. Seu aconselhamento deve focar mais nas possibilidades de perda, que é o que mais preocupa este tipo de investidor, do que nas perspectivas de ganho. Porém, é preciso que ele aprenda coisas como, por exemplo, calcular a rentabilidade real, considerando a incidência de inflação e taxas, a fim de não se iludir com um crescimento fictício do valor nominal de suas aplicações.
  • Moderado: esse tipo de investidor possui uma tendência a aplicar em investimentos que possa compreender, por fazerem sentido em si, mas que não necessariamente estejam de acordo com seus objetivos de longo prazo. Além disso, ele pode não ter uma visão realista de sua própria tolerância a risco. É importante ter fatos e dados para convencê-lo a adotar uma estratégia de diversificação e a pensar no longo prazo.
  • Expansionista: esse é o tipo de investidor que valoriza a capacidade de tomar decisões por si próprio. Então, é importante passar informações claras, objetivas e bem embasadas para que ele possa decidir sozinho. É importante que ele aprenda não só as modalidades de investimento, mas o que considerar na tomada de decisões, além de saber que, para poder expandir seu patrimônio, precisará conhecer bem as regras do mercado e saber utilizar eficazmente as ferramentas a sua disposição. Deve prestar atenção especial às heurísticas para não cair em armadilhas cognitivas.
  • Agressivo: tais investidores costumam ser supercontroladores e excessivamente otimistas com relação à performance dos seus investimentos. Se forem descontrolados com seus gastos, estão sujeitos a sofrer perdas decorrentes da combinação da estratégia agressiva com a necessidade de saques em momentos inoportunos. O ideal é aproveitar suas tendências controladoras para estimulá-los a fazer planejamento financeiro e controlar gastos. Um de seus maiores desafios é controlar a si mesmos, no sentido de evitarem negociações excessivas, incorrendo em altos custos de transação.

Em resumo, Pompian apresenta uma estratégia de orientação do investidor que leva em consideração a combinação de seu perfil de tolerância a risco com seus principais vieses comportamentais, a fim de poder sensibilizá-lo e/ou ensiná-lo a tomar melhores decisões financeiras.

A visão do autor não pretende ser exaustiva, considerando a diversidade de investidores em atuação no mercado, mas é bem prática e objetiva e pode ser útil, principalmente, para quem se preocupa em fazer uma autoavaliação e para quem tem investidores a aconselhar.

A ideia por trás de classificações como essas não é engessar, mas organizar os conceitos, permitindo que o investidor seja visto de uma maneira mais estruturada e, a partir daí, possam ser desenhadas estratégias para lidar com as questões que o impedem de tomar melhores decisões financeiras.

E você? Já identificou seu perfil? Faz alguma coisa para não se deixar afetar pelos vieses comportamentais?

Aguardamos seus comentários!

Para uma explicação detalhada dos principais vieses comportamentais comumente associados à tomada de decisões financeiras, acesse nossas cartilhas sobre o assunto na aba Materiais do blog.

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