Regular a divulgação de informações é suficiente para garantir a proteção do investidor? Uma única solução é capaz de proteger todos os investidores? Até que ponto é possível prever a resposta do investidor à divulgação de um produto financeiro?
As perguntas acima foram tiradas do Relatório da IOSCO, que aponta as variações individuais como um dos principais obstáculos no uso das ciências comportamentais para proteger os investidores.

A Organização Internacional das Comissões de Valores – IOSCO divulgou, em abril de 2019, um relatório que aborda quais seriam as principais dificuldades para ampliar o uso de insights comportamentais na orientação e proteção do investidor.
O resultado mostra que as preferências e necessidades dos investidores variam tanto, dependendo no contexto, que fica muito difícil definir uma regra universal capaz de oferecer proteção a todos os investidores, em todas as situações.
No entanto, a pesquisa feita pela IOSCO junto aos reguladores, combinada com a revisão da literatura sobre o tema, destaca que é possível identificar algumas pistas que conduzam, pouco a pouco, a uma maior clareza sobre o assunto.
Para tanto, os reguladores responderam a perguntas envolvendo três tópicos:
• Formato das comunicações: como aplicar os insights comportamentais no fornecimento de informações ao investidor, de modo a otimizar a compreensão da informação e a adoção do comportamento adequado; e em que medida isso varia entre os tipos de investidores e dos produtos oferecidos?
• Meios para a comunicação: a comunicação das empresas financeiras, na interface com o investidor, é feita para atrair investimentos. Nesse sentido, quais elementos – seja o design da divulgação como um todo ou apenas lembretes e alertas – podem ser incorporados a tais interfaces (sites, apps, relatórios, newsletters, rede sociais etc.) para ajudar o investidor a tomar decisões mais informadas?
• Momento da comunicação: quando é que o investidor está mais receptivo a informações relevantes ou de cunho educativo sobre suas finanças? A qualquer momento, sempre que ganha algum dinheiro ou sempre que tem que tomar uma decisão financeira (por exemplo, quando tem que decidir sobre sua aposentadoria)?
O relatório é bem claro ao afirmar que, embora as medidas para melhorar a divulgação de produtos financeiros possam produzir resultados efetivos, tal efeito é limitado. Assegurar a divulgação correta de informações – independentemente do quão relevantes, acessíveis e oportunas elas sejam – pode não ser suficiente para garantir a proteção do investidor.
Portanto, tanto a imposição de regras de conduta sobre os profissionais do Mercado Financeiro, quanto a regulação dos produtos oferecidos ao investidor de varejo, devem continuar a fazer parte das medidas tomadas para a proteção do pequeno investidor.
É preciso lembrar que um relatório, por mais amplo e aprofundado que seja, dificilmente terá o condão de orientar sobre todas as medidas a serem tomadas para a proteção do investidor.
O que se pretende, nesse caso, pelo fato de a IOSCO ser uma organização mundial, é permitir que as informações sejam compartilhadas entre as diferentes regiões, a fim de que os exemplos do que já foi feito – com seus erros e acertos, dúvidas e soluções – sejam utilizados por quem está iniciando ou para aprimorar as ações de quem já aplica insights comportamentais em sua jurisdição.
O mesmo vale para os pesquisadores, que talvez possam se valer dos achados do Relatório da IOSCO para definir, embasar e até refinar suas linhas de pesquisa, em suas respectivas áreas.
Finalmente, quanto às perguntas feitas no início do post, vejamos o que o Relatório tem a dizer:
• Curto e objetivo nem sempre significa fácil e simples: às vezes, a capacidade de explicar é sacrificada na tentativa de encurtar a comunicação e a informação resumida pode ficar complexa ou até confusa. Elementos usados para facilitar a comparação – como tabelas, gráficos ou rankings – podem ajudar alguns investidores, mas atrapalhar outros, além de poderem ser interpretados de modo totalmente diferente do que o pretendido pelo regulador.
• É preciso identificar de que maneira uma determinada divulgação de informações influencia na experiência do investidor: considerando que a informação relevante compete com outras comunicações, como a publicidade dos produtos financeiros, esse tópico é importante para definir formatos de divulgação mais eficazes para chamar a atenção do investidor e que atinjam uma quantidade maior de pessoas. É também necessário saber se definir requisitos de divulgação é uma forma realmente eficaz de proteger o investidor ou se é melhor tomar outras medidas. Além disso, é preciso saber atuar em um contexto dinâmico, já que não só os investidores reagem de modo diferente às informações recebidas, mas o mercado também adapta seu comportamento frente a novas exigências do regulador.
• Uma solução única para todos os investidores pode ser difícil (se não impossível) de encontrar: diferentes investidores tendem a interpretar informações de maneira diversa. Por isso, talvez o desafio não seja encontrar a solução universal, mas soluções que sirvam para uma pluralidade de investidores sem prejudicar outros. Embora as pesquisas nessa área sejam ainda incipientes, as interfaces online parecem oferecer as melhores possibilidades em termos de customização da comunicação de acordo com o público.
• Vale a pena esperar pelo inesperado: informações intuitivas a respeito do comportamento do investidor podem não refletir corretamente o que acontece no mundo real. Só pesquisando o comportamento do investidor em situações reais, e testando previamente o que vai ser aplicado, é que se pode derrubar certos preconceitos que afetem a eficácia das iniciativas para proteção do investidor.
• Resultados experimentais podem não surtir efeito no mundo real: ainda que uma hipótese tenha sido testada em situações experimentais, seus efeitos podem ser diferentes no mundo real. Isso pode ser minimizado no desenho do experimento ou descoberto só na aplicação. Por isso, monitorar e avaliar a implantação (se possível fazendo pilotos) pode oferecer subsídios valiosos para assegurar a eficácia, ainda que isso seja de difícil operacionalização.
Por fim, a exemplo do que acontece em outras áreas do comportamento que já contam com um vasto acervo de resultados de pesquisa e literatura, é plenamente possível que a comunicação seja fácil de entender, oportuna e relevante, além de perfeitamente compreendida, e mesmo assim o investidor não se comporte do modo esperado.
Aliás, o que mais se menciona na literatura sobre finanças comportamentais – a exemplo dos vieses – é justamente o descasamento entre o que se sabe e que se faz. Já foi mostrado por vários autores, por exemplo, que a força de vontade para resistir a uma oportunidade de ganhos astronômicos não vem da razão.
Ao contrário, muitos investidores que já sucumbiram a armadilhas financeiras, como as pirâmides e outros esquemas, relataram ter plena noção de que os ganhos prometidos ultrapassavam em muito o que eles consideravam razoável e que, muito embora tivessem condições de avaliar esse risco, haviam aceitado oferta mesmo assim.
Em conclusão, ainda que o desafio seja grande, trabalhos como o do Comitê 8 (de proteção aos investidores de varejo) vêm contribuindo bastante para a troca de informações entre os diferentes países membros da IOSCO e para aprofundar a reflexão sobre o tema.
Quem sabe assim as estratégias de proteção ao investidor conseguirão atingir um grau de eficácia tão grande, em termos de apelo emocional, que sejam capazes de se contrapor às ofertas irresistíveis de ganho fácil que aparecem a todo momento?
E você? Como investidor, o que acha que o regulador pode fazer para te alertar de forma mais eficaz sobre as armadilhas do mercado? Como acha que a divulgação dos produtos financeiros pode ser melhorada para te ajudar a tomar melhores decisões?
Aguardamos seus comentários!

Relatório da IOSCO: https://www.iosco.org/library/pubdocs/pdf/IOSCOPD626.pdf

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *