O artigo[1] publicado por Lusardi e Oggero em maio de 2017 discute o papel crescente da geração Y (ou “millennials” em inglês) na economia. Em menos de dez anos espera-se que a força de trabalho seja composta majoritariamente por indivíduos nascidos entre a década de 80 e 90. Assim, os autores procuram entender o grau de maturidade dos “milenares” para a tomada de decisões financeiras a partir do seu nível de letramento financeiro.

A importância do letramento financeiro vem aumentando com a diminuição do Estado de Bem Estar Social, de forma que os indivíduos dependerão mais de si mesmos para sua seguridade financeira. Isso pode ser explicado pelo desejo de redução das despesas futuras dos governos nacionais com aposentadorias e pelo aumento da expectativa de vida, por exemplo. Por esses motivos, a educação financeira é importante para o investimento, poupança e consumo conscientes.

O artigo utilizou a pesquisa de 2014 da S&P Global FinLit Survey para avaliar o nível de letramento financeiro da população mundial. A medida foi obtida a partir de quatro perguntas que medem quatro conceitos fundamentais para a tomada de decisão financeira. Elas avaliam o entendimento de juros simples e compostos, inflação e diversificação de risco. É considerado financeiramente letrado quem acerta pelo menos três das quatro questões.

De acordo com a pesquisa, um em cada três adultos do mundo (considerando uma amostra de 140 países) é financeiramente letrado. Entre os países desenvolvidos e emergentes a porcentagem de adultos letrados é de 55% e 28%, respectivamente, considerando Canadá, França, Itália, EUA, Japão e Reino Unido como representantes do primeiro grupo e os membros do BRICS como do segundo.

É característica dos países desenvolvidos que a população adulta (36-50 anos) tenha maior nível de letramento, em comparação com outras faixas etárias. Já nos países emergentes, a geração Y (15-35 anos) apresenta maior porcentagem de pessoas financeiramente letradas que as outras faixas etárias. No Brasil, por exemplo, 37% dos jovens são financeiramente letrados, enquanto a porcentagem relativa à população geral se encontra entre 25% e 35%.

O artigo chama atenção para uma relação positiva entre habilidades matemáticas e conhecimento financeiro. Quanto mais educação formal um indivíduo recebe (especialmente jovens), mais ele progride no letramento financeiro. Os autores reforçam que a educação financeira deve ser parte do currículo escolar e verificaram que políticas nacionais direcionadas a educação têm maior impacto sobre o letramento financeiro nos países emergentes.

A porcentagem de jovens que possui algum tipo de conta no banco e o grau de penetração da Internet também são fatores positivamente associados ao nível de letramento financeiro da população. Não obstante, ainda que o uso de produtos financeiros e bancários estejam associados a maior grau de letramento, a disponibilidade desses somado à facilidade de crédito pode levar indivíduos mais vulneráveis (menos financeiramente letrados) ao endividamento excessivo.

Numa análise sobre o desempenho do Brasil em comparação à tendência dos dados observados na pesquisa, é possível destacar que em muitas situações o Brasil aparece como “outlier” (ponto fora da tendência mundial). A porcentagem de jovens brasileiros que poupam por meios formais e semiformais está abaixo do que seria esperado em função do seu nível de letramento. Similarmente, mais de 40% dos nossos jovens se dizem incapazes de arcar com gastos inesperados, quando a proporção esperada seria inferior a 30%.

A conclusão dos autores é de que a geração Y não está bem preparada para tomar decisões financeiras. Isto porque elas especialmente vêm se tornando cada vez mais complexas com o desenvolvimento de novos produtos financeiros, o grau crescente de incerteza econômica e com o aumento da responsabilidade financeira que recai sobre os jovens. Por isso, a educação financeira cumpre um papel tão importante: garantir que essa geração não comprometa sua seguridade financeira e a estabilidade econômica em geral.

Você concorda com a conclusão das pesquisadoras Lusardi e Oggero? Será que os “millennials” merecem uma educação financeira especialmente voltada para esse público? Diga-nos sua opinião!

 

 

[1] Clique aqui para acessar o artigo original.

3 thoughts on “A geração Y e o letramento financeiro: uma perspectiva global

  1. Concordo totalmente com a necessidade da Educação Financeira ser incluída no currículo escolar desde o primeiro grau. E a geração Y merece uma educação financeira especialmente voltada para esses jovens que estao sofrendo a pressão de assumir uma responsabilidade sem ter sido preparado para terem um futuro seguro e aposentadoria digna.

  2. Todos no Brasil necessitamos de Ed Financeira e Ed. Previdenciária. Estamos só engatinhando. Muita oportunidade!

    Educação Financeira tem princípios e valores para transformar a vida de qualquer um que compreenda e pratique regularmente, no seu dia a dia.

    Ed Financeira é um agente transformador!

    1. Olá Rsato,
      Concordo com o que disse, mas o que tenho a lhe falar na sequência pode parecer clichê, por isso vou perguntar para que alimentemos a discussão:

      1- Qual é o papel de nosso governo nessa educação, ou seja, nessa linha de conhecimento?

      2- Seria de Interesse de lnteresse do governo fomentar que nossas mentes entendam efetivamente como a máquina funciona?

      Me preocupo bastante. Existem ações isoladas, reconheço, mas gostaria que pensássemos a longo prazo e não olhando o próprio umbigo nesse tipo de decisão.

      Obrigado pelo artigo e pelo link do artigo completo.

      Abraços

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